POÉTICAS VISUAIS À MÃO LIVRE reúne três cadernos nos quais a fotografia e as intervenções digitais só entram na segunda parte da produção. São desenhos e aquarelas criados por mim, depois fotografados. Alguns nasceram para ilustrar textos; outros, por nada que não fosse a vontade de desenhar.
Essas imagens, que nasceram físicas, são agora virtualmente reunidas em três Cadernos: Humanidades, Florações e Coisas. Não há legendas explicativas nem narrativas que orientem a leitura, apenas os títulos. Não há busca por unidade formal rígida, mas coletânea e gesto arquivístico.
Em um contexto visual cada vez mais dominado por imagens automatizadas e otimizadas, esta série afirma outro ritmo: lento, artesanal, subjetivo. Não surge como oposição nostálgica à tecnologia, mas como afirmação de uma autoria que assume seus desvios.
Já pintei buscando precisão. Copiei mestres, estudei técnica. Não falo, portanto, da ignorância do ofício. O que crio agora, contudo, não é bonito no sentido convencional do termo. A velha beleza clássica, assim como a via única que levava ao real, se perdeu na pós-modernidade. Até o Impressionismo, a pintura ainda parecia encontrar algum acordo possível com a realidade, mesmo quando esta já começava a se dissolver. A figura ainda se reconhecia, mesmo que instável. O mundo, porém, adormeceu no Surrealismo e acordou fragmentado. A realidade deixou de ser sonho para se tornar tensão: dura, cúbica, geométrica, abstrata. Desde então, algo se quebrou de modo irreversível na relação entre o humano e sua imagem.
Pintar e desenhar no século XXI significa ir ao encontro do gesto transgressor e, a partir dele, criar a impermanência. Os três Cadernos que integram POÉTICAS VISUAIS À MÃO LIVRE são registros de um fazer que ainda acredita na mão, no traçado e no erro como parte do processo. Este fazer artesanal opta pela lentidão quando tudo convida à pressa. Publicá-los significa apoiar o gesto manual em face de imagens que, cada vez mais, migram velozmente rumo à virtualidade.
O que o leitor encontrará em meus Cadernos, portanto, depende inteiramente do seu olhar, de seu gosto, de suas preferências e de sua mais livre interpretação. Na escrita, raramente me afasto da rigidez ortodoxa; mas, em matéria de cores, riscos e palavras, não impeço que a ordem sofra os efeitos do caos. Tudo que faço é então provisório e improvisado.
Aliás, ninguém me obriga a opor Apolo a Dionísio, quando ambos podem ser complementares.
Porque, afinal, a contradição não nos ameaça.
Ela nos habita.
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