quarta-feira, 26 de março de 2025

ANTAKATARES

 

A palavra surgiu em um texto da tradução francesa de obras de Vanini (Amphithéâtre de l'éternelle providence. In M. X. Rousselot (Trad.), Oeuvres philosophiques de Vanini. Paris: Librairie de Charles Gosselin). Contudo, nem o Google parece saber o que a palavra significa. Duas IAs atribuíram-na a um erro de impressão. É possível. A solução do "mistério", porém, pode estar na BNF (Bibliothèque nationale de France). O termo Antakatares lá aparece no texto original de Vanini, mas é também mencionado em Le Courrier de l'Aude: journal politique, administratif, littéraire, commercial et agricole (edição de 16 de julho de 1886), editado em Toulouse com grafia ligeiramente alterada: Antakatres, com maiúscula, característico de substantivo que designa povos. Nesta última ocorrência, há referência a um grupo associado aos Sakalaves, de Madagascar. A passagem menciona que "M. de Freycinet declara que o governo tomou medidas para que nossos aliados, os Sakalaves e os Antakatres, sejam tratados da melhor forma possível pelos Hovas". No entanto, o acesso ao texto completo na Gallica está corrompido. Esse dado sugere que Antakatares possa designar o povo malgaxe (Antakatres), embora seu uso por Vanini permaneça enigmático. Sobre M. de Freycinet, não é improvável que se trate de Charles de Freycinet (1828–1923), político francês que foi quatro vezes primeiro-ministro da França e esteve envolvido na política colonial francesa, incluindo questões relacionadas a Madagascar. Isso reforça a interpretação de Antakatares como um grupo étnico real no século XIX.

domingo, 5 de janeiro de 2025

O Passado Objetivo Faz Diferença?


As nossas memórias são falhas. Podemos nos lembrar de coisas que nunca aconteceram e nos esquecer de outras que aconteceram de fato. Apesar das falhas da memória, os acontecimentos passados reais podem desempenhar um papel fundamental para determinar quem somos. É possível que, apesar de não conseguirmos nos lembrar do passado, a essência de nossas vidas seja determinada por ele. Ainda assim, cada vez mais os psicólogos têm questionado essa hipótese, apontando a dificuldade em se estabelecer uma relação clara entre os acontecimentos passados negativos e as consequências negativas, assim como a relação entre os acontecimentos passados positivos - como as intervenções e as consequências positivas.

Martin Seligman, ex-presidente da Associação Americana de Psicologia, escreveu:

 

Acho que os acontecimentos da infância são superestimados. Na verdade, eu acho que o histórico do passado em geral é superestimado. É difícil encontrar até mesmo os efeitos pequenos dos acontecimentos da infância na personalidade do adulto, e não há nenhuma prova de grandes efeitos, muito menos de algum efeito determinante. Os maiores traumas da infância podem exercer alguma influência na personalidade do adulto, mas somente uma pequena influência que mal se consegue detectar. Resumindo, os acontecimentos ruins da infância não provocam forçosamente os problemas da idade adulta. Não há nada nesses estudos que sustente a atitude de colocar a culpa de nossa depressão, ansiedade, casamento infeliz, uso de drogas, problemas sexuais, desemprego, agressão contra os filhos, alcoolismo ou raiva da idade adulta no que aconteceu quando éramos crianças.

 

Então, o que é certo? Será que o passado determina as nossas vidas ou será que ele é superestimado?

Nós, os autores, acreditamos que o passado tem sua importância, mas ele

faz menos diferença do que Freud e os behavioristas alegaram. Todos são afetados pelo passado objetivo, mas não são determinados totalmente por ele. Além disso, não são os acontecimentos do passado que exercem a maior influência em nossas vidas. As nossas atitudes em relação ao passado são mais importantes que os próprios acontecimentos. A diferença entre o passado e a interpretação atual que fazemos dele é decisiva, porque é ela que oferece a esperança de mudança. Você não tem condições de mudar o que aconteceu no passado, mas pode mudar suas atitudes em relação ao que já passou. Às vezes, trocar a moldura pode alterar a maneira como você vê a pintura.

 

FONTE: Zimbardo, P., & Boyd, J. (2008). O paradoxo do tempo (S. Adriano, Trad.). Rio de Janeiro: Editora Objetiva, p. 89.

 

Comentário: A passagem destaca a fragilidade da memória humana e a complexidade em estabelecer uma correlação direta entre experiências passadas e os resultados presentes, questionando visões tradicionais, como as de Freud e dos behavioristas, que tendiam a enfatizar o determinismo do passado na psique e no comportamento.

A citação de Seligman, uma autoridade no campo da psicologia positiva, reforça a ideia de que, embora os eventos da infância possam ter algum impacto, eles não são tão determinantes quanto muitas vezes se assume, observação que contribui para uma abordagem mais equilibrada e menos fatalista do desenvolvimento humano, sugerindo que o passado, não obstante sua inegável relevância, não é imutável.

No contexto do homem comum e da vida cotidiana, essa reflexão se mostra bastante significativa, porque oferece uma nova perspectiva ao sugerir que a forma como interpretamos nosso passado pode ser mais importante do que os eventos em si. Isso propõe uma reconfiguração do próprio significado das experiências passadas, transformando traumas e dificuldades em oportunidades para crescimento e resiliência.

Ao enfatizar que "as nossas atitudes em relação ao passado são mais importantes que os próprios acontecimentos", os autores propõem algo prático, que encoraja a reinterpretação e a adaptação contínua. Essa mensagem é particularmente relevante em sociedades contemporâneas, onde a autoavaliação e a busca por bem-estar psicológico são cada vez mais valorizadas. A ideia de "trocar a moldura" para alterar a percepção de eventos passados promove uma flexibilidade cognitiva que pode ser um recurso valioso na gestão de desafios pessoais e interpessoais.

Em suma, essa reflexão oferece uma contribuição relevante ao campo da psicologia prática, proporcionando uma abordagem que equilibra o reconhecimento da importância do passado com a ênfase no poder transformador das atitudes presentes. Tal visão não apenas ressignifica experiências pessoais, como também fomenta uma cultura de responsabilidade individual.