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segunda-feira, 30 de março de 2026

PRECARIADO: A NOVA CLASSE PERIGOSA


Você já ouviu falar do precariado? A nova classe social considerada perigosa? Eu diria que existe até mesmo alguma chance de você se descobrir como um de seus integrantes. Aliás, este é o meu caso. Guy Standing, um economista bastante respeitado, lançou, em 2011, um livro intitulado The Precariat: The New Dangerous Class. É deste livro que vou falar, sobre as ideias e conceitos ali descritos há mais de uma década, observações e previsões de cenário que o tempo não desmentiu. O fenômeno é mundial. No Brasil, é aferível: 37,7% da população trabalha “na informalidade”, enquanto 39,4 milhões têm “carteira assinada”, segundo dados recentes do IBGE de 30/12/25. Portanto, saber reconhecer o precariado e avaliar os seus perigos pode nos ajudar a entender melhor essa nova classe à qual temos boa chance de pertencer.

Quem é o típico integrante do precariado? Eu diria que ele é alguém que está socialmente exposto, se não mesmo desprotegido. Não falo de miséria, mas de vulnerabilidade. Isso acontece por conta de vínculos cada vez mais flexíveis nas relações de trabalho, que o expõem às desigualdades produzidas por uma globalização econômica sistêmica e implacável.

Eu poderia dar muitos exemplos. Mas estou certa de que você tem amigos diplomados que hoje trabalham com aplicativos. Outros viraram entregadores. Conheço professores demitidos de universidades que não encontram mais emprego e que passaram a produzir conteúdo nas redes. Todos, como eu, se sentem “produzindo”, como de fato estão. Nenhum se considera “desempregado”. Trabalham mais do que antes, dormem menos e não sabem quanto receberão no fim do mês.

Particularmente, não consigo reduzir tanta gente a estatísticas. Estas, contudo, confirmam, de forma categórica, que doutorado não paga contas. Estou nessa lista? Devo admitir que sim. Não me lembro do que são férias nem viagens e meu sonho de felicidade hoje é ver todos os meus boletos pagos antes do dia 10.

Como compreender essa nova classe em formação? Por que ela surge e o que a produz? Quais são seus impactos sociais e econômicos? Que respostas de natureza política poderiam ser formuladas diante de um fenômeno com efeitos econômicos, sociais e culturais amplos? E, sobretudo, estaremos mesmo diante de uma “classe perigosa”?

O precariado é uma classe social emergente, portanto, nova. Não se trata mais do velho proletariado tradicional, que ocupa as páginas de velhos compêndios de economia. Tampouco se trata da fila do desemprego, que reunia jovens sem qualificação e sem experiência. A precariedade da qual falo inclui atividades laborais temporárias, baixa remuneração, trabalho a tempo parcial forçado e a ausência de direitos trabalhistas sólidos.

O precariado cresceu significativamente nas últimas décadas. Por quê? Por conta de um mercado de trabalho cada vez mais flexível, da terceirização, dos efeitos de um capital investido com o objetivo de baratear custos da mão de obra e, ainda, de uma cultura alienante do ponto de vista político e social. Vivemos “cada um por si”. E esta é a fórmula clássica que mais estimula a competitividade. Em compensação, a solidariedade é cada vez mais desestimulada. Não há pertencimento coletivo. O velho proletariado funcionava de modo diferente. Firme no chão da fábrica, o orgulho sindical gerava e fortalecia a consciência de uma classe formada por quem não dispunha nem de crédito nem de máquinas — apenas da própria força de trabalho. Moviam-se informados pela rádio peão, desafiavam patrões e alguns até sabiam quem era Marx.

O precariado, porém, não nasce da solidariedade, mas da dispersão. Seus integrantes têm formações e habilidades variadas e vêm das mais diferentes camadas sociais. Vendem seu tempo e sua força de trabalho de modo individual e competitivo. No precariado não há nós, mas eus à deriva, ora voltados a mobilizações progressistas, ora extremistas.

A insegurança constante ― medo de perder o trabalho ou o status social ― gera estresse diário e deslocamento interno. O precariado não tem tempo. Vive sob pressão. Sem raízes nem pautas previsíveis, essa pressão individual produz frustração acumulada. Quando atinge grupos inteiros, provoca anomia social que se alastra sem laços sólidos de pertencimento.

A fragmentação destrói vínculos identitários. Isso ocorre quando o velho orgulho coletivo de uma conquista comum desaparece. No lugar dele, surge a necessidade de validação individual pelo consumo, que alivia temporariamente a vulnerabilidade emocional, mas também estimula o isolamento e o descompromisso político. Coletivamente, a massa precarizada oscila entre a apatia e os extremismos, porque não tem referências materiais ou culturais compartilhadas.

Essa interrelação mostra que o precariado não é apenas uma questão econômica. É um fenômeno social, psicológico e cultural, que exige respostas nos planos da economia, da saúde e da política.

O precariado difere radicalmente das antigas categorias estudadas pela psicologia das multidões, como anarquistas, sindicalistas e outros grupos tradicionalmente marginalizados. Entender esse fenômeno emergente ajuda a interpretar a dinâmica social e psicológica que define o nosso tempo: uma contemporaneidade em que a insegurança não se limita à economia, porque se projeta coletivamente e afeta identidade, solidariedade e estabilidade social.

Entre as respostas no campo político, Standing defende a proteção do trabalho e a instituição de uma renda básica universal. Em termos mais amplos de projeto social, ele propõe o fortalecimento de uma democracia deliberativa capaz de estimular a solidariedade.

Desde a publicação da obra em 2011, muitas das previsões e análises de Standing sobre o precariado se confirmaram e tornaram-se evidentes no cenário global. A precarização do trabalho não para de crescer, seja pela flexibilização dos vínculos laborais, seja pela expansão do trabalho temporário, pela informalidade, pela pejotização ou pela terceirização.

As desigualdades socioeconômicas se intensificam cada vez mais.

Uma classe perigosa? Será?

Standing pensa que sim.

O precariado convive com a insegurança econômica, social e identitária. Coletivamente, da mistura desses três ingredientes surgem estados de ansiedade, alienação e frustração. Ansiedade porque o tempo não se traduz mais em horas trabalhadas e pagas. Há tarefas a cumprir em prazo certo. A alienação é óbvia e circunstancial, porque não há nada além da meta. A frustração completa o quadro: para cada meta cumprida, há outras a cumprir.

Os membros do precariado sobrevivem em um limbo laboral. Muitos deles possuem competência, inclusive acadêmica. Contudo, sem estabilidade e garantias mínimas, tornam-se mental e politicamente vulneráveis. Expostos à exclusão, desenvolvem ressentimentos. Não é raro que manifestem aversão a migrantes e a outros grupos vulneráveis. Além disso, podem ser suscetíveis a apelos extremistas. Para Standing, é aí que reside o perigo: trata-se de uma classe potencialmente reacionária, cuja fragmentação interna pode levar à hostilidade.

Standing observa que o precariado é, muitas vezes, um denizen: alguém com direitos limitados, e não um citizen, um cidadão com garantias legais, sociais e políticas. Como denizen, ele vive à margem do reconhecimento formal, sem segurança plena ou identidade estável. Sem políticas públicas, essa classe, exposta ao descrédito e à desesperança, pode alimentar crises sociais e políticas significativas.

Como vimos, não se trata mais dos desempregados tradicionais. O precariado inclui trabalhadores qualificados, que sustentam uma performance constante e enganosa, trabalhando sem descanso em sucessivos ciclos de esgotamento e ansiedade. Contudo, nem sempre há a percepção da exploração. Standing afirma que o sistema — vamos chamá-lo assim — convence os integrantes do precariado de que são competentes, ativos e produtivos. Essa convicção gera a sensação de que estão no controle: uma ilusão performativa proporcional à sua vulnerabilidade intelectual e emocional, que os torna suscetíveis ao consumo de ideias e favorece sua adesão a narrativas extremistas, tanto políticas quanto culturais.

 Não há revolta aberta, mas o orgulho de dar conta de tudo, de antecipar metas, à luz da liberdade de não ter patrão. A experiência do poder abissal está em ser produtivo até a dor, eficiente até a enxaqueca. O precariado internaliza o sistema, porque ele vai além da aceitação. O que foi imposto de fora passa a ser reproduzido por dentro. A submissão é percebida como autonomia, resultando daí um novo tipo de alienação: consciente e solitária, porém perigosa coletivamente. Ele internaliza a disciplina e a autovigilância. Fiscaliza a si mesmo, cobra-se resultados, mede o próprio valor pelo desempenho. Exaustão é prêmio. Descanso é culpa. Pense nesse padrão psicológico, reproduzido em larga escala, e você terá como resultado uma sociedade que faz da ansiedade a própria força de trabalho. Transformar o sofrimento em virtude gera sobrecarga identitária.

O precariado não se rebela. Ele produz. E, disso tudo, surge uma refinada forma de alienação, que dissolve um conflito criando outro, que funciona pelo lado de dentro das pessoas. Quando uma coletividade inteira começa a operar exatamente como opera o algoritmo que a oprime, há perigo social. O esgotamento deixa de ser um sintoma individual e passa a configurar um modo coletivo de funcionamento.

Enfim, não se trata apenas de conceitos ou tendências políticas.

O precariado não nasce de uma escolha individual. Ele é fruto de um sistema que desloca, fragmenta e desgasta. Há sempre alguém ali — com medos, desejos e urgências que não encontram respostas nas instituições nem nos discursos tradicionais.

Penso que compreender o nosso tempo é um passo inadiável. Mais do que temer o precariado, importa entender o que ele significa nessa nova sociedade que todos nós, querendo ou não, integramos e ajudamos a criar. Se o precariado é ou não uma classe perigosa, a história dirá. A meu ver, importa, sobretudo, que ele seja consciente. Enquanto isso, seguimos produzindo, performando e pagando nossos boletos antes do dia 10.

 REVISTA VIDA BRASIL

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Jean Baudrillard (1929-2007)

 

Embora filha do século XX, nascida depois da II Guerra, nunca deixei de ter certo ar não diria conservador, mas meio Belle Époque, naquilo que o século XIX tinha de irreverente e de vanguardista. Contudo, vivi e tenho vivido demais e, ao alcançar o século XXI, fui desafiada a interpretar estes nossos tempos pós-modernos, pensando esse presente que se consuma e se consome em breves instantes. Em meio a esse desafio, batalha cotidiana que me acelera o coração e a mente, encontrei um homem que me trouxe, mais que palavras, um verdadeiro turbilhão de ideias.

Apaixonei-me por Baudrillard quando estudava o destino dos descartes: coisas das quais nos desfazemos, porque sua utilidade se perdeu. Especular sobre o tema levou-me à leitura de Le Système des objets. Parei tudo o que vinha pesquisando. Revisei e revivi conceitos. Mudei meu olhar sobre o mundo. O livro é uma das primeiras obras de Baudrillard, publicada em 1968. Foi sua tese de doutorado em Sociologia, defendida em 1966 na Universidade de Paris X, Nanterre. Só a banca já causa arrepios a quem quer que já tenha respirado a atmosfera acadêmica: Henri Lefebvre, Roland Barthes e Pierre Bourdieu.

“O Sistema dos Objetos” me fez entender a relação entre cultura e consumo e, mais ainda, me deu condições de aferir até que ponto essa relação não poderia comprometer minha própria identidade. Porque os objetos não são coisas inertes, mas ingredientes que atuam ativamente na construção da vida social, expressando ideias e valores. Os espelhos, por exemplo, se relacionam ao espaço assim como os relógios, símbolos da permanência, se relacionam ao tempo. São equivalentes, nesse sentido, atuantes. Quanto mais espelhos, — diz ele —, mais gloriosa é a intimidade, mas também mais circunscrita a si mesma.

Baudrillard requer que o leitor vá além da leitura. Percorro seus textos e, pelo caminho, ele vai me inoculando suas experiências. Em certos momentos, sinto o terrível tédio que o mundo lhe causa; em outros, me entusiasmo ao perceber como ele abstrai de qualquer coisa as mais brilhantes ideias. É minha imaginação que ele consegue provocar literalmente em over doses seguidas. Para mim, descobri-lo foi uma experiência visceral, tão próxima da arte quanto deve estar um filósofo. Logo ele, que disse que jamais pretendeu a verdade, porque a respeitava demais para colocá-la em perigo. Nada daquele clássico distanciamento do objeto, nada de textos impessoais.

Desde então, adotei Baudrillard como quem adota um santo. Só que, em lugar de comprar uma imagem e orar diante dela para obter um milagre ou uma graça, é diante de seus livros que me deixo encantar, seduzir e apaixonar. Se não encontro ali a graça ou o milagre de uma intervenção divina, é no tênue reflexo de sua humanidade já extinta que encontro as fórmulas que me ajudam a compreender esse tempo presente que, afinal, eu ainda tenho de viver, não sem algum esforço, é verdade. Refém dessa hiper-realidade midiática, acredito que outros, assim como eu, sintam às vezes necessidade de certo isolamento, em busca de um refúgio capaz de nos devolver a simples realidade, diante de tantos desejos novos a saciar, de tantas necessidades novas a suprir, de tantas coisas novas a experimentar. Em um extremo, avatares imbecilizantes e seus milhões de seguidores ditando comportamentos e caminhos rumo ao sucesso; de outro, zumbis que funcionam no modo automático, incapazes de uma reflexão, incapazes de abrigar uma só ideia própria que seja; no meio, a massa, irredutível, disputada aos nacos para integrar as mais diversas facções: moda, política, cultura, tudo é produto, tudo é consumo.

A obra de Baudrillard é notável e inclui “Simulacros e Simulação”, livro que inspirou o filme Matrix, que muitos acharam sensacional. Mas é “A Transparência do Mal: Ensaios sobre Fenômenos Extremos” (La transparence du mal: Essai sur les phénomènes extrêmes,1990) a obra que mais me impressiona atualmente. Entre outros temas polêmicos, Baudrillard observa que não somos mais capazes de crer, de amar, de querer, porque cremos no que o outro crê, amamos o que o outro ama e queremos o que o outro quer. Trata-se de uma derrogação geral da vontade, que eleva o querer, o poder e o saber a uma segunda instância.

E por que o mal? Porque o mal, na sociedade contemporânea, se faz cada vez mais visível e transparente, em vez de oculto e velado como costumava ser. Essa transparência tem como causa a tecnologia midiática, que faz com que tudo possa parecer banal e gratuito. Portanto, não se pode estranhar que o terrorismo, a violência urbana, a guerra e as políticas que promovem sua emergência tenham se tornado um fenômeno global. Como resistir a tamanho poder e força, quando sequer há um bem que costumava se opor ao mal? A que formas de subversão e resistência se poderia recorrer quando nossa pertinência a esse presente contínuo reafirma nossa condição de reféns de uma cultura de massa que não podemos afrontar a não ser pela via de uma contracultura também de massa que se deixa absorver pelo próprio monstro que julga combater?

Jogo de palavras? Excesso de abstração? Sim. Eis aí aspectos que podem ser criticados na obra de Baudrillard. Ele não leva em consideração os diferentes grupos culturais. Isso até pode ser verdadeiro, mas o que se sente mais fortemente nesse nosso tempo é que a cultura hoje é a do consumo, não obstante os diferentes produtos consumidos. Mudam as premissas, mas a lógica permanece a mesma, seja em relação aos mandarins dominantes, seja em relação aos culturalmente periféricos. Estes últimos se inserem marginalmente e por aí criam suas próprias inserções, que também são produtos culturais, tanto quanto os pertinentes à esfera tida como alta ou elevada. Por variados que sejam os grupos, eles se igualam pelas diferenças e se assimilam pelo consumo.

Pessimismo? Sem dúvida. Porque as possibilidades de mudança e resistência que existem já se encontram inseridas nas estruturas de poder dominantes. Essa resistência passiva nasce de uma consciência de ter consciência, e chega bem perto da mística de um encantamento. Afastar-se da passividade conformista requer modos criativos de ser. O diagnóstico de nosso tempo não é animador, porque para sobreviver ao mal é necessário deixar-se contagiar por ele. Lógica vacinal que beira à crítica da desconstrução, que lida com os problemas liquidando as soluções, que apela às metáforas e às analogias, porque é só na ordem da abstração que essas estruturas se tornam visíveis.

Resulta disso a diluição de tudo quanto foi um dia tradicional ou clássico, com a criação de uma monstruosa realidade simulada, que se sobrepõe à realidade física, buscando a emergência contínua de uma sociedade que se caracteriza unicamente pelo que consome, e cujos desejos são norteados pelo mercado e pela publicidade, pela mídia e pelo poder. Gente que não pensa, e que se assimila, a si própria, a um mero produto de mercado.

Eis as imensas riquezas deste mundo que, paradoxalmente, nos empobrecem tanto. Resisto graças aos meus livros, meus amores. Penso que é na subversão de nossa ínfima individualidade que se reinventa o cotidiano, na absoluta minoria da primeira pessoa do singular, ainda que minimamente, e ainda que escrevendo apenas para você, que não precisa de avatar e que, com toda certeza, não é nenhum zumbi.  

 

REVISTA VIDA BRASIL

domingo, 14 de maio de 2023

As Cartas Não Mentem Jamais

Quem nunca, hein? Brincar com cartomancia pode ser muito divertido. Inesquecíveis são as lembranças que tenho de minha mãe mexendo naquelas lindas figuras coloridas. Ainda criança, ela me ensinou a ler as cartas. Na verdade, brincava disso: dizia sempre que era muito fácil descobrir todos os segredos das amigas ao colocar as cartas para elas.

Ah, preciso dizer que minha mãe foi uma mulher marcante. Elegante e vaidosa à primeira vista, ela sabia ser muito sutil e refinada. Soube provocar minha curiosidade com aquela história de descobrir segredos. Como assim? Os segredos estão nas cartas? Nas combinações? Ela sorria e sugeria que eu precisava estudar mais as tais combinações na tiragem. Mas fato é que ela acertava sempre, e as amigas, muitas vezes, vinham visitá-la apenas para, com algum jeito, pedirem para ler as cartas. Às vezes minha mãe cedia e, invariavelmente, as amigas iam embora muito impressionadas, não menos que eu, sempre à espera de que ela me revelasse o seu segredo.

Com o tempo, aqueles códigos passaram a fazer algum sentido, e, aos poucos, de certo modo, as cartas começaram a falar. Descobri também que havia outros baralhos diferentes do baralho cigano de Madame Lenormand, que existiu de fato. Era esse que minha mãe usava, o mais comum e conhecido de todos. Ela nunca se interessou pelo famoso Tarô, baralho divinatório, que serve também para alicerçar concepções esotéricas do Mundo e da Vida.  Posso dizer que até aprofundei um pouco esses saberes e que, amadora como minha mãe, até que lia, como ainda leio cartas razoavelmente bem. Contudo, minhas habilidades estavam bem longe das tiradas geniais de minha mãe.

O tempo foi passando e posso dizer que cresci presenciando esses grandes momentos. Encontros acolhedores das amigas, com café, bolo e muita conversa. Depois minha mãe entrava no quarto, abria a gaveta onde guardava “as cartas” e o clima de expectativa era contagiante, seja por conta da intimidade e da confiança, seja pela sedução de se saber algo sobre o futuro. Esperança, sempre a esperança.

Como se tratava de uma prática bem amadora, não havia nenhum tipo de cerimônia. Apenas certa seriedade no ambiente. E silêncio. Nunca se lê as cartas com TV, rádio ou som ligados. A mesa da cozinha ou da sala poderia servir de base, porque era preciso estender o jogo completo, no caso, as 36 cartas em quatro fileiras de oito mais quatro cartas colocadas bem no centro da quinta fileira. As cartas eram primeiro bem baralhadas. Depois a consulente dava um corte, dividindo o baralho em dois montes que eram novamente unidos para logo depois serem separados em cinco montes pequenos.

Minha mãe era muito habilidosa. Fazia certo suspense antes de “virar” cada um dos 5 cortes, a partir dos quais ela improvisava, de maneira brilhante, uma espécie de roteiro da leitura. Seus olhos verdes brilhavam quando ela ia, aos poucos, revelando as primeiras cinco mensagens que eram como que o eixo da jogada. Algo mais ou menos assim:

— Então é o Sol, que te traz tudo de bom, ilumina, protege, revela. Temos agora o Coração, carta das emoções, do amor, dos sentimentos de quem ama e é amado. A terceira carta é dos Caminhos, que representam a vida que segue, os acontecimentos que se anunciam. Vejamos a próxima carta: eis o Mensageiro, que vem a cavalo, que traz novidades.  Agora a quinta: olha a Carta! Tu vais receber notícias muito em breve. Veremos. Vamos estender o jogo.

 

Era mais ou menos assim que ela fazia a abertura. Sempre improvisando, sem sair do roteiro pré-fixado, que é o significado genérico e tradicional de cada carta. Minha mãe também criou um jogo que ela chamava de “A Cruz de Santo Antônio”. No meio: o que te cobre. Em cima: o presente. À esquerda: o passado. À direita: o futuro. Abaixo do centro, uma sobre a outra: o que tu esperas, o que tu não esperas, o que está em segredo e o que a chave confirma. Em um jogo rápido ela ia descrevendo:

— Ah, te cobre a Cruz, porque estás muito triste. Teu presente tem o Urso, cuidado com gente falsa que te cerca. Teu passado tem o Coração, porque é o amor que partiu, mas no futuro saíram as Alianças. Hum, ele pode voltar. O que esperas: a carta dos Peixes, porque queres dinheiro. O que não esperas: o Caixão. Ainda vais enfrentar dificuldades. Nem tudo foi resolvido. O que está em segredo: saiu a Cobra. Não é a melhor hora de tomar decisões importantes. O que a chave confirma: o Homem. Pode esperar. Ele só não voltou porque precisas organizar tua vida: resolve teus problemas de forma discreta, te afasta de gente maldosa, procura te cuidar, aliviar teu coração dessa Cruz que te cobre. Gente triste atrai mais tristezas. E nunca, nunca saia de casa sem batom e sem uma gotinha mínima de perfume nos pulsos e atrás das orelhas. Eu disse mínima! E sorria. Gente carrancuda é sempre feia.

Não se pode duvidar da riqueza de sentidos que um simples baralho de sorte pode conter. Sol era sempre bom. A Cobra era traição. A Estrela era sucesso. Os Lírios, pureza, mas quando saíam embaixo de alguém, indicavam falta de caráter. Torre com Nuvens era morte certa. Coração era amor. Alianças, união e até casamento. Os Livros eram segredos. O navio, viagem. Tudo era mágico e muito enriquecedor, porque essas práticas acabavam por criar um clima misterioso e — ao menos para mim — divertido. As coisas ruins apareciam, sim, mas minha mãe sempre as anunciava como algo que fazia parte de um todo maior que, mesmo que não pudesse ser superado, acabaria por trazer coisas boas mais tarde.

Aos poucos, o hábito de fazer e receber visitas foi praticamente abandonado. Era mais fácil telefonar. O acúmulo de décadas também implicou na partida de muita gente amiga. O velho baralho cigano chegou a se perder muitas vezes pelo desuso, mas sempre era encontrado em alguma gaveta, enfiado entre toalhas de mesa e panos de prato. Por vezes, alguém do passado lembrava das cartas e a cena se repetia, sempre mágica e impressionante.

Mas o tempo passou. A vida mudou. A gente esqueceu das cartas. Um dia, encontrando o velho baralho meio gasto, mostrei-o a minha mãe e retomei o assunto. Perguntei de onde ela tirava tantas revelações no tempo em que lia cartas para as amigas. Muitas vezes eu assistia as tiragens, via o jogo e entendia as combinações, mas o que minha mãe dizia nem sempre batia com o tema das cartas abertas. Questionei. Ela então falou, rindo bastante por sinal.

— Filha, é simples. As cartas são as cartas. Elas têm um significado particular quando sozinhas e outro quando combinadas, mas isso é o de menos. Importante mesmo não é o que as cartas dizem. Ler as cartas qualquer um lê. Se gostar, vai aprender mais, mas não é isso que importa. O que importa é ler a pessoa. A maioria é mulher e mulher é sempre a mesma coisa: querem saber de homem ou de dinheiro. Às vezes é mais sério: doença, saúde. Isso não muda. E olhando bem, tudo está na nossa frente. Mulheres frustradas por causa de homem são todas iguais. Problemas financeiros e doenças? Basta olhar para saber. Falar disso olhando para as cartas é fácil.  Todos querem poder sonhar com dias melhores e esperar por coisas alegres que façam a diferença. Quem tem que acreditar nas cartas é quem te consulta. Tu tens que acreditar é em ti. E no que podes ler não nas cartas, mas nas pessoas.

Minha mãe era fruto de um tempo em que mulheres competiam. Ela podia ser muito crítica na intimidade:

— Então. A fulana. Lembra? — perguntou.

— Sim, — respondi, porque lembrava dessa colega de trabalho de minha mãe.

— Ela não era feia. Era descuidada. Só comia. Andava de chinelos até na rua. Quando colocava um salto, se queixava de dor nos pés. Não gostava de roupas elegantes, porque achava difíceis de usar. Difícil é andar desarrumada! O marido? Sempre de terno e gravata, bom carro, simpático... Que achas? A carta do Ramalhete indicou outra mulher, a Chave confirmou, as Nuvens escuras ao lado das Alianças. Claro que o desquite ia acontecer! Filha, há coisas que nunca vão mudar. Quanto mais algo te entusiasma hoje, mais certo que te decepcionará amanhã. Melhor não esperar muito de nada nem de ninguém. Por mais que pareça banal, um lugar comum, a vida não passa muito disso.

E fomos assim, eu e minha mãe, passando a limpo os velhos tempos. Lembrando dos vivos, dos mortos e dos mortos-vivos também. Com o passar dos anos, nos tornamos mais próximas. Eventualmente voltávamos às cartas, a pedido de uma ou outra pessoa que, invariavelmente, saia mais leve da “consulta”.

Minha mãe era cética, assim como eu. Ela jamais levou as cartas a sério. A diferença, porém, é que ela nunca deixava que esse ceticismo transparecesse. A imagem que passava era a de uma mulher alegre, faceira, coquete, superficial a ponto de ninguém desconfiar de que conhecia profundamente a alma humana. As aparências enganam. Na verdade, ela já conhecia os segredos que as cartas lhe contavam. Sim, porque, afinal, as cartas não mentem jamais.

REVISTA VIDA BRASIL

segunda-feira, 10 de abril de 2023

A Terra Oca

Pois bem, agora que pouca gente ainda surfa na onda da Terra plana, por que não relembrar a história da Terra oca? Afinal, oca ou plana, a Terra, — nossa casa —, é vista dessas e de outras formas faz tempo. Conceber o que não se percebe em um primeiro olhar é o início do pensar filosófico. Por outro lado, filosofando ou não, nosso planeta dá muito trato à imaginação, esse verdadeiro alimento do espírito, me atrevo a dizer. Então, como já se fala menos de Terra plana, vamos à Terra oca.

Imagino eu que os leitores não ignoram a Teoria da Terra Oca, crença pseudocientífica que sugere que a Terra é oca por dentro e que seu interior é repleto de cavernas, oceanos e até mesmo de civilizações. Essa história teria começado no século XVII com o trabalho do astrônomo e matemático inglês Edmund Halley (1656-1742), que admitiu que a Terra fosse composta de várias esferas concêntricas, cada uma com sua própria atmosfera e habitada por seres inteligentes. Ah, Halley é, sim, o cara do cometa, que foi também matemático e amigo de Isaac Newton. Só não me digam por aí que ele defendeu a Teoria da Terra Oca tal e qual ela é difundida atualmente. Nada disso. Lembrem-se sempre de que parecido não é igual e devemos evitar generalizações pouco inteligentes, imprecisas e precipitadas.

Sim, a teoria moderna da Terra oca foi influenciada pelo trabalho do astrônomo e matemático inglês Edmund Halley. Halley foi famoso por suas pesquisas sobre cometas, mas também estudou outros fenômenos astronômicos e geofísicos, incluindo a estrutura interna da Terra. Halley, em seu livro “Synopsis of the Astronomy of Comets”, publicado em 1692, discutiu uma ampla gama de assuntos astronômicos, incluindo o movimento dos cometas e a estrutura do sistema solar, e apresentou sua teoria sobre a estrutura interna da Terra. Ela seria formada por várias esferas concêntricas, cada uma com seu próprio campo magnético. Quanto a ser habitada por seres inteligentes, eis uma hipótese plausível naquele tempo, se considerarmos as crenças populares da época sobre a existência de um mundo subterrâneo habitado. Mas que fique claro que Halley não defende a teoria da Terra oca da mesma maneira que os proponentes modernos dessa teoria.

Então, sejamos “precisos”, porque buscar a precisão é essencial à vida e à navegação, se é que me entendem: navegar é preciso… Nesse contexto, apesar de sua antiguidade e de sua popularidade em algumas correntes de pensamento esotérico, a Teoria da Terra Oca carece de base empírica ou científica. Muito ao contrário, a maioria das evidências geológicas, físicas e astronômicas sugere que a Terra é sólida e não possui grandes cavidades internas, infelizmente. Digo isso porque seria divertido excursionar pelo centro da terra e, por que não, fazer turismo pelas cidades perdidas. Tudo especulação. Eu mesma, sinceramente, adoro imaginar como seria dar uma voltinha por lá, encontrar o tal buraco de entrada, descer por ele e dar de cara com cidades perdidas, seres inteligentes, outras civilizações. Enfim, o que seria da vida sem a imaginação?

E a imaginação funciona. Com o tempo, a Teoria da Terra Oca foi se ampliando e ganhando adeptos, dentre eles, o famoso almirante Byrd. Já ouviram falar dele? Imagino que sim! Ele foi o cara! Richard E. Byrd teria realizado uma expedição secreta ao Polo Norte em 1947 para investigar a entrada para a Terra oca. Toda história teria sido registrada no diário do almirante Byrd, mas… Alguém adivinha? Pois é, dizem que o governo dos Estados Unidos teria confiscado o diário e ocultado a informação do público. Seja como for, Byrd fez várias expedições ao Ártico e à Antártica ao longo de sua carreira, mas não há evidências de que realizou uma expedição secreta ao Polo Norte em 1947 nem de que encontrou a tal entrada para a Terra oca. Pode-se também afirmar que, à época, a tecnologia disponível não seria adequada para uma expedição desse tipo. Mas confesso que é bom imaginar que, sim, o diário existe e alguém algum dia o trará para algum Arquivo, onde esse documento precioso poderia nos revelar tantos segredos. Eu mesma guardaria aqui em casa esse diário, sem problemas.

Todavia, não temos o diário nem sabemos se Byrd achou o buraco, ou melhor, a entrada para o mundo subterrâneo. Ainda assim, não custa nada procurar saber o que dizem os defensores dessa teoria, porque eles sempre costumam dizer coisas interessantes. Inacreditáveis, é verdade, mas, nem por isso, menos instigantes. De acordo com os defensores da Teoria da Terra Oca, o interior do planeta é habitado por seres inteligentes, que vivem em cidades subterrâneas e que se comunicam através de sistemas avançados de tecnologia. Tais seres descenderiam de uma civilização antiga que teria habitado a superfície da Terra antes da sua ocupação atual pela humanidade.

Por que não sabemos disso “oficialmente”? Ora, porque a existência dessas cidades é mantida em segredo por governos e organizações poderosas, que não querem que a humanidade tenha acesso ao conhecimento e tecnologia que elas possuem. Naturalmente, vocês já ouviram falar de pelo menos duas dessas cidades, já consagradas por sua popularidade: Agartha e Shambala.

Os habitantes de Agartha, por exemplo, vivem em uma sociedade altamente tecnológica.  São seres pacíficos que ajudam a humanidade de maneira sutil, por meio de suas habilidades psíquicas. Não é improvável que os habitantes de Agartha controlem secretamente os destinos da humanidade. Quanto à Shambala, trata-se de um reino secreto habitado por seres iluminados que guardam a sabedoria espiritual e a tecnologia avançada. Que vontade me dá de flanar por essas cidades, quem sabe na companhia de Walter Benjamin? Não conheço ninguém melhor do que ele quando se trata de sair por aí, sem documento nem bagagem.

Excesso de imaginação? Sim, sem dúvida. Eu tenho muita imaginação, confesso. Imaginação e ceticismo de sobra por aqui, aliás. De minha parte, acho a Teoria da Terra Oca menos chata que a Teoria da Terra Plana. Gosto de imaginar como seria a tal entrada para o Mundo Subterrâneo e as mil aventuras que, verdadeiras ou não, pouco importa, são viagens inspiradoras e contagiantes, repositórios culturais, demasiadamente humanos, talvez. Afinal, como diz um querido amigo meu, meu materialismo não me limita, nem a minha imaginação. Não mesmo!

REVISTA VIDA BRASIL

 

sábado, 31 de julho de 2021

REVISTA VIDA BRASIL


ALBERTO, O MULHERENGO

Eu o conheci há mais de 20 anos. Não no sentido bíblico, bem entendido, mas como uma boa amiga do querido Alberto. É claro que o nome dele não é este, mas serve perfeitamente para designar alguém que me impressionou como o tipo clássico do mulherengo, absolutamente romântico e invariavelmente infiel. O mais interessante, todavia, é que vim a descobrir esse traço tão vívido de sua personalidade só alguns anos depois de conhecê-lo. A princípio, Alberto foi sempre um elegante e educado cavalheiro. E continua sendo, porque recentemente conversei com ele e pudemos recordar um pouco dos velhos tempos. Inspirada na conversa, surgiu-me a ideia de dividir com os leitores minhas impressões sobre o que considero um clássico mulherengo, dos quais Alberto, sem dúvida, é por excelência um bom exemplo.

Embora muitos (e muitas) se perguntem se um mulherengo precisa ser bonitão, estou para lá de certa que não absolutamente. Alberto, por exemplo, não era, creio que nunca foi nem é agora tampouco. Ao vê-lo pela primeira vez, nenhuma mulher iria suspirar, porque se trata de um homem comum. Nada de olhos verdes, sorriso perfeito, corpo atlético. Sem ser feio, não chegava a ser bonito. Todavia, uma vez estabelecidas as relações sociais, e ultrapassadas as devidas apresentações, sabe-se estar diante de um cavalheiro: alguém que ultrapassa em muito os parâmetros médios da boa educação e que, do ponto de vista feminino, trata todas as mulheres como damas, independente da idade ou da condição social delas.

É importante explicar a ênfase que estou emprestando ao termo clássico. É para deixar bem claro que existem os mulherengos comuns, nada interessantes. São tão óbvios, os coitadinhos. Passam cantadas, dizem bobagens, elogiam demais. Integram a tribo dos galãs de parquinho ou paqueradores de ocasião. São muito chatos. Abordam mulheres na rua e até quando fazem compras em supermercados. Dizem gracinhas completamente inoportunas e não é raro que sua conduta ultrapasse os limites da tolerância média, ainda que não se comportem necessariamente como assediadores sexuais. Os mulherengos clássicos se conduzem de outra maneira. Mostram-se tão discretos que a gente deveria sempre suspeitar que, na verdade, são sonsos. Conseguem deixar claro seu interesse sem recorrer aos lugares comuns utilizados pelo paquerador vulgar. Valorizam a mulher, sabem como prestigiá-la, de sorte a fazer com que elas o julguem interessante exatamente porque parece quase desinteressado. Em resumo: o mulherengo clássico é um jogador de cartas, que investe muito em apostas crescentes com sucessivas rodadas. O paquerador vulgar, em compensação, não passa de um apostador que não vai além dos caça-níqueis.

 Conheci Alberto socialmente. A impressão deixada era de elegância, confiabilidade e discrição. Com o tempo, no círculo de amigos comuns, aos poucos ele foi revelando fatos sobre sua vida. Os laços de amizade se estreitaram, e ele jamais desmentiu aquela primeira impressão. Amigo de fé, absolutamente confiável nos negócios, excelente profissional e dono de um senso de humor capaz de transformar tardes de cafezinho no meu antigo escritório em grandes momentos sempre divertidos. Nosso pequeno e restrito grupo de amigos era, à época, bem fechado.

Com o passar dos anos, as tardes de café repetiam-se, e Alberto acabou falando mais de si próprio, no sentido íntimo mesmo, até que, em um dia qualquer que não tenho mais como precisar, o assunto recaiu nas coisas do coração. Até então eu tinha por certo que o pacato pai de família tivera uma vida comum, até porque vivia bem com esposa, filhos e um adorável poodle toy. Pensava eu que talvez houvesse casado como maioria, seguindo os protocolos: conhecer, apaixonar, namorar, noivar e casar. Depois é só seguir com a vida real e portar-se como todo mundo. Alberto não me pareceu nunca um tipo arrebatado. Quando me falou sobre amor e sobre uma paixão do passado, pensei comigo que se referia à mulher dele em tempos de namoro. Qual não foi porém a minha surpresa ao descobrir que a história ― uma longa e complexa história de paixão ― ele vivera com outra! O caso prolongou-se por muitos anos, mas houve desencontros e, por contingência, foram separados. No fim, ambos terminaram casados, com filhos, e mantiveram-se distantes, embora continuassem perdidamente apaixonados. Segundo Alberto, sofreram, choraram, mas mantiveram-se íntegros, como nos filmes de Hollywood, mesmo após um dramático reencontro que os colocou face a face.  Achei aquilo muito interessante, porque jamais teria imaginado um Alberto capaz de amores tão castos, quase heroicos.

Desde essa conversa, passei a prestar mais atenção àquele que começava a se revelar como um mulherengo, porém, a meu ver, do tipo clássico, porque, mesmo quando é infiel, não consegue ser cafajeste. Não! De modo algum! A traição deles é sempre compreensível, e acredito que mesmo a esposa o teria perdoado. Um mulherengo clássico é incapaz de uma traição. Ao contrário dos mulherengos comuns, ― que se confundem com os paqueradores vulgares e que chegam, no máximo, a cafajestes rodriguianos ―, os clássicos não mentem, não enganam nem simulam. Cafajestes, por exemplo, empenham-se muito na conquista da mulher só para abandoná-la depois. Gostam de lágrimas e se sentem homens quando fazem com que a mulher sofra. Agem como Dom Juan. Os mulherengos clássicos não. Eles sabem intuitivamente como evitar traumas, talvez porque seduzem sem mentir. Dizem a verdade, porque sentem de verdade aquilo que dizem, mesmo que seja mentira.

Nenhuma mulher se sente feia diante de um mulherengo clássico. Por algum feliz acidente que talvez só se explique pela combinação de planetas, eles gostam de mulheres e sabem bem como atiçar mesmo a mais inexpressiva das feminilidades. O romantismo é neles tão natural que a impressão que fica é a de que são os mais fiéis dos homens. Alberto revelou-se bem assim: fiel a todos os amores que colecionou ao longo da vida. Conquistava as mulheres, relacionava-se com elas, mas jamais permitia que a chama se apagasse. Para minha surpresa, aquele cavalheiro educado, respeitável pai de família, mantinha, além da esposa, vários relacionamentos amorosos, alguns com décadas já.  Apesar de surpresa, não havia como não rir daquela situação e da justificativa que ele dava ao seu comportamento: nunca se deve fechar uma porta atrás de si. Seja.

Contudo, apesar de cuidadoso, algo deu errado com seu casamento. Indiscretos comentários deram conta de que Alberto havia se separado da esposa, que o expulsara do lar conjugal, acusando-o de manter um caso com a mulher de um amigo da família recentemente falecido. Como eu soube do maldoso boato, na primeira oportunidade em que nos encontramos, não resisti à curiosidade e fui direto ao assunto:

― Então, Alberto. Ouvi dizer que você se separou. Fala sério! Verdade que você pegou a mulher de um amigo? ― perguntei.

Ao contrário do que se pode esperar da maioria dos homens, ele não estranhou a minha pergunta e tampouco se mostrou embaraçado com tamanha indiscrição. Apenas abriu seu sorriso mais simpático, balançou a cabeça e adotou a expressão da mais pura inocência:

― Mas eu jamais desrespeitaria a mulher de um amigo! Ainda mais a mulher do falecido João! Infelizmente, minha esposa — agora ex — se tornou uma mulher ciumenta e não entendeu o que nunca foi além de um gesto de solidariedade.

Embora achasse a história muito estranha, escutei a versão dele, que se sentia ainda injustiçado. A separação acontecera de modo dramático, com a expulsão de casa do suposto adúltero.

― Mas, então, e agora? Estás como? Morando onde?

― Estou morando com ela, respondeu-me.

― Com ela quem?

― Com ela…

Esse ela veio acompanhado de um sorrisinho, de sorte que compreendi então que a esposa efetivamente teve lá os seus motivos para enciumar-se. Ele, elegantemente, foi peremptório. Negou qualquer envolvimento com a mulher do amigo ao tempo da separação. ― Um cavalheiro jamais comprometeria uma dama! ― Passado algum tempo, porém, Alberto não teve como não se mostrar solidário com a viúva do amigo. Muito compreensível, naturalmente. Dessa solidariedade, então, teria nascido o novo relacionamento. Ou seja: ele permanecia inocente. Alberto e a viúva do amigo João foram ambos injustiçados. Se terminaram juntos, foi culpa do destino. Afinal, Deus sabe o que faz.

Assim, o irrepreensível cavalheiro mostrava enfim outros aspectos de sua personalidade. Devo confessar que me sentia absolutamente privilegiada. Afinal, eram confidências vedadas ao mundo feminino em geral. O mais interessante era observar que ele conseguia sempre permanecer com pleno domínio das circunstâncias: não se contradizia nunca, não se embaraçava nem se constrangia. Seu discurso, porém, sempre impecável, dava a entrever que se divertia muito entre amores e amadas.

O tempo passou. Minha vida mudou e também mudaram os amigos. Nesse ínterim, porém, aconteceu de nos encontrarmos uma vez apenas, e isso, seguramente, há uns oito anos atrás. Alberto ocupava então um cargo importante. Perguntei onde estava morando e ele me respondeu estar sem endereço certo, porque morava, simultaneamente, com três namoradas que não sabiam umas das outras e na casa das quais ele dormia. Elas acreditavam que ele viajava muito e que só dispunha de um, no máximo dois ou três dias de amor por semana. Com esse engenhoso arranjo, ele era sempre esperado por suas namoradas, uma por vez, em clima de romantismo e de saudade a cada retorno das cansativas viagens de trabalho. Mais uma vez me senti privilegiada. Afinal, um mulherengo não costuma se revelar com tanta clareza. A lamentar que não nos encontramos desde então, até alguns dias atrás, quando conversamos virtualmente durante um encontro com amigos. Conversa divertida sobre os velhos tempos que recaiu, naturalmente, sobre o assunto mulheres.

 ― Então, Alberto? Ainda com três namoradas? Não, disse ele, rindo.

Pelo que pude perceber, agora são apenas duas namoradas que dividem pacífica e insuspeitadamente a posse do glamuroso Alberto. Sorte dele que residem ambas em cidades, na verdade em estados diferentes.  Desde então venho me perguntando quem são as mulheres que os mulherengos conseguem deslumbrar ou mesmo cegar por completo? Belas adormecidas talvez, que o mulherengo faz sonhar. Assim como os libertinos, os mulherengos ― os clássicos notadamente ― são tipos em franca extinção. Com eles, vão desaparecer também as belas adormecidas, os cavalos brancos, o glamour dos envolvimentos amorosos, os cavalheiros gentis que entregam seu coração, jurando amor ardente. E enquanto tudo isso aos poucos cai no esquecimento, à medida que desaparecem os mulherengos e suas amadas, a vida lá fora corre apressada, com relógios, compromissos, prazos e boletos. 

Da conversa sobre os velhos tempos, uma bela impressão. Ao me ver pelo vídeo, Alberto não me poupou do clássico: você não mudou nada nesses anos todos. Na despedida, uma promessa de vir a Porto Alegre. Parece que ele virá em algumas semanas. Mulherengos! Eu, hein?


DISPONÍVEL NA REVISTA VIDA BRASIL

 

 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

REVISTA VIDA BRASIL

Solidão incomoda

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Solidão incomoda, é verdade. Mas, seguramente, não aos solitários. Incomoda aos outros. Gente que, não conseguindo aceitar o fato de que há quem prefira ficar só, procura com inacreditável persistência inventar mil motivos para o que entendem como uma espécie de patologia social daquele que, sim, gosta de ficar sozinho. Inclusive no Natal. Inclusive no Ano Novo. Inclusive no próprio aniversário. Inclusive quase sempre.

Solidão incomoda


Bem, há quem duvide. Parecem convictos de que o solitário sofre. Ou porque merece ou porque se ressente do mundo e, egoísta, isola-se. São os que se ofendem com a solidão dos outros. Ficam irritados pelo fato de alguém não se encantar diante da sedutora pirotecnia social que se abre ao tal mundo melhor e não parecer nem um pouco maravilhado com o ruidoso espetáculo das cores brilhantes da meia-noite. Sentem-se pessoalmente hostilizados com uma escolha que lhes é incompreensível, embora alheia. E, como se trata de gente que faz dos próprios valores a medida do mundo, o melhor é deixá-los crer no pior acerca de nós. Aliás, considero uma sorte tremenda ser vista por gente assim, no mínimo, como uma pessoa esquisita e excêntrica. Gente mais chata! Pensam que são pessoas tradicionais quando, na verdade, cultuam apenas um conservadorismo rançoso que coroa uma visão de mundo rasa e simplista. Jamais entenderiam que as verdadeiras tradições são muito mais profundas do que a superficialidade de gestos copiados e repetidos. É mesmo bem o contrário do que eles pensam: apenas aquele que é seguro de sua pertinência no mundo, seguro de sua própria identidade, de sua originalidade irredutível, — como diz Gabriel, um querido amigo meu —, é que pode, sim, preferir a solidão.
Mas nem todos duvidam. Há os que se explicam a solidão do próximo. Quando afirmo que solitários não apenas gostam, mas até preferem a solidão, eles discordam veementemente. Alguns entendem que se trata de conformismo. Por sua lógica concluem que o coitado que ficou sozinho não tinha para onde ir. Mostram-se mesmo penalizados e querem parecer compreensivos. Eles tentam sinceramente entender a razão pela qual alguém opta por ficar em casa, mesmo podendo estar na praia, por exemplo, jogando-se contra sete ondas, vestindo branco por cima e amarelo por baixo, espremendo-se na multidão, comendo lentilhas, bebendo, apreciando os fogos! Como assim não gostar de tudo isso? Daí, — por respeito e não sem algum custo emocional —, insinuo que vou para algum lugar que não posso revelar. Dou a entender que tenho um encontro e peço discrição. Pronto. É como mágica. Sempre funciona. Trocamos olhares cúmplices e tudo se resolve da forma mais educada possível.

Mas entre os que duvidam e os que pensam que explicam a solidão dos outros, há ainda os raros simpatizantes que fazem o mesmo ou que certamente o fariam se pudessem. Aqueles que, enfim, invejam o solitário. Nem todos podem se dar ao luxo da solidão. O mundo tem seus tentáculos. Ele não é apenas cheio de gente, mas ainda repleto de significados, entremeado de símbolos. Há uma semiologia comportamental, um dever ser que funciona à maneira do trânsito: com sinais abertos, fechados, multas e desastres. O solitário é aquele que vai pelos atalhos, quando não move montanhas, não necessariamente pela fé. Afinal, obstáculos se contornam ou se explodem mesmo. Assim como para seguir em relativa segurança em meio ao trânsito é preciso conhecer os sinais, para viver socialmente também é preciso compreender tanto as regras gerais como ainda perceber, individualmente, os demais. Tarefa, aliás, desafiadora. Compreender o mundo e observar os outros. Inspirar-se até em tantos personagens que podem ser muitas vezes encantadores, outras vezes, até desconcertantes. A fauna e a flora social vicejam por séculos e mais séculos sob o firmamento desse mundo que, recentemente, parece que não teve outra opção que não a de se achatar. Eu mesma não esperava viver para ver a Terra ficar plana. Mas parece que ficou. Isso, entre outras novidades, ainda tem sobre mim um efeito impactante que, felizmente, a solidão abranda.
E não se enganem. Só porque o solitário consegue perfeitamente bem e, aliás, com algum sucesso, circular por aí, tal não significa que ele prefira viver socialmente. Solidão é escolha ou deverá ser lida como abandono. Solidão é algo que se conquista, e é preciso investir pesado para obter esse habeas corpus, verdadeira alforria da qual nasce a liberdade, condição criadora não compartilhável, berço da inspiração.

Experimentar o silêncio e a solidão, homenagear o tédio, mesmo quando o mundo lá fora festeja qualquer coisa, é estar perto de si. Escutar-se. Escrever e ler. Porque escrever é, por certo, socializar-se no tempo e no espaço, muito além do bairro, da paróquia, da vizinhança. É compartilhar certezas e confessar incertezas. Ler é deliciar-se com a presença de outros que trazemos para muito perto de nós. Há ainda a música. E assim, aos poucos, porta trancada atrás da gente, todo o espaço da casa sossega. As janelas fechadas deixam passar apenas o mínimo de claridade. As luzes indiretas das luminárias antigas encarregam-se dos detalhes. O relógio parado não bate mais nem à meia-noite nem ao meio-dia. Os livros, todos e cada um, desfilam suas lombadas, e eu hesito sobre com qual deles vou passar as próximas horas mágicas.

Sim, porque é feriado. O mundo lá fora está ocupado com comida, bebida, roupas, ruídos, a loteria, as simpatias, os relógios, o branco, o amarelo, os santos e os orixás, as dívidas, os créditos, as promessas, o grande amor que não era o verdadeiro e o próximo que virá, para sempre, no ano que vem. É preciso ser visto feliz e sorrindo na companhia dos amores e dos amados. A sagrada família precisa se mostrar unida. Que assim seja. Enquanto eles se embriagam dessa felicidade ostensiva, eu, sozinha, me vejo cercada do requintado conforto que pude honestamente conquistar. Honestamente, porque tudo aqui é de verdade: a minha Coca Zero estocada aos litros para que eu não precise sair por pelo menos 48 horas, Balzac na saleta em companhia de Maupassant que já despertam do sono eterno para terem comigo por horas de leitura. Há o café especial para quando este calor aplacar e também alguma comida na geladeira para quando der fome. Há também tintas, lápis de cor e nanquim para que eu possa brincar de rabiscar desenhos inacabados que um dia terei outra vez a paciência de terminar. Enfim, o perfeito kit de sobrevivência para que eu consiga, mais uma vez, chegar ilesa ao ano que vem.





Autor: Maristela Bleggi Tomasini

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

REVISTA VIDA BRASIL

Imaginação

sábado, 14 de dezembro de 2019

Quando caminhávamos juntos não era exatamente pelas ruas que seguíamos. Porque o entorno, em que pese fosse real, enfeitava-se magicamente à nossa passagem. Nunca era exatamente uma rua ou outra paisagem qualquer em si, porque esses lugares todos se carregavam de algum tipo de emoção só comparável àquela de um sonho realizado.

Imaginação




“Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras”
         Jacques Brel
  



Confesso que não posso dizer ―, nem teria mesmo como afirmar ―, que minhas lembranças sejam todas reais, mas pouco importa que não tenham elas qualquer conexão com o mundo concreto, se é que ele existe.
Quando mergulho em minhas lembranças, penso que o real é para os conformistas e para os conformados. Os primeiros já nascem tendendo sempre aos ismos, por meio dos quais exercem uma espécie de poder totalizador, generalizando suas decepções e fracassos. Os segundos, ainda que a contragosto, acabam por ceder. Conformam-se com o que o mundo lhes entrega já embrulhado e etiquetado. Simplesmente não discutem. Nem ao menos abrem o pacote para conferir o conteúdo.
Penso que não é imperativo conformar-se.
Pode-se criar um real particularmente nosso apenas com a imaginação.

Por isso eu sei, sim, que quando caminhávamos juntos, as paisagens cediam aos caprichos de nossas vontades. Quem poderia negar que fôramos nós os felizes proprietários daquele castelo, palacete que um dia tivera suas portas esculpidas em madeira maciça enfeitadas com maçanetas de porcelana francesa, com tantas sacadas abertas à cidade que se descortinava inteira diante delas, com mármores e enormes banheiras. E havia ainda o deslumbrante lustre de cristal, imponente, que ficava invisível a olhares vulgares, mas que iluminava as nossas refeições. O serviço de copa era quase perfeito. E o castelo, tão aristocrático quanto decadente, foi, afinal, uma de nossas mais saudosas residências. De bom, que assustava a maioria dos curiosos que por ali passassem, como se secretamente aquela velha construção soubesse o quanto é importante disfarçar o próprio contentamento de se estar aqui ou ali.

E quando íamos visitar cemitérios, ― que tais lugares muito têm de atraentes ―, encantava-nos mais que o luxo dos túmulos a agilidade dos gatos que passeavam por ali, observando-nos com a discreta curiosidade tão peculiar aos felinos. Passeávamos por entre os túmulos e nos entregávamos a especulações acerca dos nomes, às vezes conhecidos, e das saudades tão reafirmadas nos dizeres sempre mais ou menos os mesmos.
E havia os parques. Pipocas. Pavões. Gatos. Pandorgas. Até dragões que, tímidos, talvez se escondessem, temerosos, à nossa passagem. Havia sabores deliciosos e exóticos também, singularmente colhidos em recantos inesperados, como a Yakissoba saboreada nos confins da Avenida São João, no bar suspeito, por debaixo do Minhocão que escondia também toda a suntuosidade do antiquário da simpática Dona Ciça, lugar mágico e repleto de tesouros.

Nossos caminhos não deixaram trilhas.
De nós não há registros nas paisagens que nos serviram de cenários.
Como se deixássemos tudo igual como era antes no depois de nós. Talvez as paisagens só se revelem realmente ao olhar da imaginação. Não estaria nela o ingrediente fundamental que facultasse a plenitude do percebido? Não sei. Isso é apenas especulação, e minha racionalidade cética se ressente em ler o que acabo de escrever. Contudo, no fundo, por mais que me conforme ao real, quando não há outro remédio, persiste em mim aquela saudável dúvida quanto à absoluta certeza de que não há bruxas, em que pese a induvidosa realidade de sua existência.
A arte só é arte quando é paradoxal.
E uma ideia maravilhosamente anárquica me surge quando me dou conta dessa deliciosa habilidade que consiste em poder crer, mesmo duvidando da crença, possuindo integralmente o que não se possui, apesar do real.


Autor: Maristela Bleggi Tomasini

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Revista Vida Brasil

Modo viagem

domingo, 15 de setembro de 2019

Recentemente voltei de uma viagem com amigas.Além de aproveitar cada momento, o assunto principal foi saber se teríamos algo a dizer sobre viagens, quando já estamos, todas três, naquela idade na qual, delicadamente, se referem a nós como meninas. Foi mesmo divertido, quando o colaborador da companhia aérea, — um bonitão, aliás —, olhou para nós e, depois de conferir os check-ins, deu um sorriso irresistível e saiu com essa:

Modo viagem

  — “Então, as meninas vão juntas passear pelo Nordeste? ” — “Vamos sim” —, respondemos quase em coro, notando o quanto pode ser divertido o fato de sermos percebidas como senhorinhas, eufemisticamente, meninas.

A idade sugere aos outros que nos vejam a partir de uma suposta fragilidade, de sorte que passam a cuidar de nós. É claro que, tempos atrás, quiséramos antes que o colaborador bonitão nos sorrisse por outros motivos, mas o que importa é que ele sorriu. A velha história do é o que temos. Lembrei-me então de quando Rogério me confessou que estava na fila comum de embarque, quando viu aproximar-se dele uma linda jovem que o olhava fixamente e sorria. Ela, sem pedir licença, tomou-o pelo braço e, persuasiva, disse-lhe: — O senhor vem comigo aqui —, enquanto o conduzia para a fila preferencial.
 
Pois é. Viajar. Quem sabe até eu — que viajo pouco e que nem mesmo gosto de sair de casa —, não tenha alguma coisa a dizer sobre isso. O mundo está cheio de gente que simplesmente adora viajar, que mal chega em casa e já quer sair outra vez. Gente que vive em função de estar fora e que faz o mundo inteiro, — mais o Facebook e o Instagram —, saber onde estão, com quem estão e fazendo quê. Fora aqueles que possuem blogs de viagem, que dão dicas, palpites, opiniões, sugerem destinos e que sabem tudo sobre viajar.

Não é o meu caso. Imagina! Eu? Não. No entanto, pensando bem, talvez justamente por eu ser alguém bem ao estilo não passageira, o que tenha a dizer sobre viajar acabe por ser útil a outras criaturas tão caseiras e rotineiras quanto eu.

Inspirada nessa possível utilidade do que teria a dizer sobre viagens uma não viajante, sentei-me aqui para me divertir um pouco e compartilhar com leitores o que chamo de o meu modo viagem. Entro nele sempre que é preciso deixar para trás minha zona de conforto: meu doce lar, que adoro habitar, repleto de livros, de quadros e de outras velharias além de mim.

Com o tempo, acabei adquirindo manias. Não como qualquer coisa nem durmo em qualquer lugar. Tenho uma série de hábitos que tornam minha pacata vidinha um tanto quanto complicada, ao menos quando penso em sair de uma casa repleta de objetos pessoais. Sem hora para muita coisa, dormindo quando tenho sono, comendo apenas o que gosto e só quando sinto fome, não sou exatamente uma pessoa disciplinada. Some-se a isso certa irreverência, não muita simpatia frente a novidades, e atividades profissionais que exigem de mim muita concentração e solidão. E como gosto de morar só e de ficar só a maior parte do tempo, viajar não é, para mim, uma atividade atraente.

Mas, não obstante todos os meus não poucos defeitos, às vezes eu saio da toca. Quando, por exemplo, viajo para namorar Rogério presencialmente. Também quando viajo por conta de compromissos profissionais. E ainda quando viajo com amigas, absolutamente maravilhosas, que me convocam. Disse convocam, porque nem se trata de convite. Tipo assim, do dia tal ao dia tal, é com a gente. Vais para tal lugar. Então eu vou, é claro. Hora de me desentocar. Desligar a versão cotidiana e passar para o que chamo de o meu modo viagem, alguma coisa que posso sistematizar em quatro mandamentos que compartilho a seguir com os meus leitores.

No modo viagem, meu primeiro mandamento é comer qualquer coisa e dormir em qualquer lugar. Cheia de manias com relação à alimentação, para começar, detesto peixes em geral. Odeio comidas “da moda”. É que eu adoro os pratos que eu mesma preparo para mim e sou extremamente crítica com o que chamo de as porcarias franqueadas cada vez mais onipresentes. Sou chata com comida. Só gosto mesmo é da minha. De modo geral, o que não faz parte do meu cardápio não me interessa. Sou fã da deliciosa comida italiana que eu mesma preparo. Viajando, porém, eu não apenas sou capaz de comer qualquer coisa, mas ainda me atrai provar tudo o que não faz parte do meu cardápio. E até gosto! Nada como tomar água de coco, no coco, olhando para o mar. Os sabores confundem-se com os cenários e ganham até colorido. Não se trata de julgar, mas de experimentar. Além disso, também posso modular meu sono. Consigo relaxar nas longas esperas que eventualmente deva enfrentar e mesmo dormir em outras camas não tão confortáveis quanto a minha.

Meu segundo mandamento ordena só levar comigo itens que representem conforto e simplicidade.  Preparo-me para deixar de lado todas as coisas que fazem parte do meu dia a dia. Tipo usar três toalhas de banho e um roupão, fora todos os shampoos e cremes, dezenas de potinhos que estão em toda parte pelo meu banheiro e pelo meu quarto. Se fosse levar comigo todas as coisas que uso diariamente, precisaria viajar com um séquito de carregadores, bem como naqueles filmes antigos, de aventuras pela África, com elefantes em caravana, carregados de baús de viagem das heroínas. Mas como não é esse o caso, no meu modo viagem, tudo o que preciso cabe em uma bolsa e uma sacola, ou, em vez desta última, em uma mala pequena de rodinhas que, depois de feita, pesa no máximo, sete quilos. Roupas? Ah! Nem pensar em levar comigo tudo aquilo que abarrota minhas gavetas e meus guarda-roupas, sem falar que, como boa centopeia, jamais confessaria o número exato de pares de sapatos que possuo, sem contar as bolsas e os cintos que combinam com eles. Tenho receio de chocar meus pobres leitores. No entanto, acreditem, no modo viagem, as peças das quais preciso são pouquíssimas. Em uma bolsa de bom tamanho mais uma sacola média cabe tudo o que preciso. Na bolsa, itens que me permitem sobreviver até mesmo sem a sacola de viagem. Celular, carregador, documentos e dinheiro reunidos em uma bolsa menor que pode ser levada junto ao corpo.


No nécessaire, só o que for absolutamente indispensável para estar limpa e saudável: higiene pessoal e remédios. Roupas? Só o que for confortável, que não limite movimentos, que não aperte e que não amasse. Roupas com as quais eu possa passar horas sentada sem parecer amarrotada. Optar por itens que apresentam simplicidade e conforto não implica em usar qualquer coisa de qualquer jeito. As melhores roupas são aquelas que têm alguma qualidade e que nos caiam bem, evitando o frio e o calor excessivos. Todas as peças devem combinar entre si. Por incrível que pareça, nisso, eu acho que acerto mais do que a maioria. Minha bagagem é leve, reduzida, mas composta de itens bem escolhidos. Tenho ali tudo de que preciso, incluindo uma câmera fotográfica. Fico assustada só de ver o tamanho da bagagem de pessoas que viajam até mesmo por poucos dias. Pior que não é incomum constatar não serem poucas as mulheres que viajam maquiadas como quem vai a uma festa, de saltos muito altos, às vezes até com roupas reduzidas, que expõem o corpo ao frio do ar condicionado. Não deve ser nada bom sentir dor nos pés e frio, mesmo em viagens de poucas horas. Daí eu sempre optar pelo conforto. Nessas horas, é mais elegante usar tênis, jeans de bom corte, camisa, blazer e um belo lenço. Óculos escuros e, no máximo, batom, permitem até dormir sem acordar com olhos borrados, como quem despertasse em plena manhã de uma quarta-feira de cinzas. Viajar é menos.

O terceiro mandamento é encarar tudo com bom humor e disponibilidade. Particularmente, não sou simpática a nada que altere os meus sagrados hábitos e não costumo estar disponível. Odeio atender telefone. Não gosto de conversar. Odeio gente que fala de gente, que comenta gratuitamente o tempo, se chove ou se não chove, de frios e de calores. Gente que aluga os outros para dar, sem que se lhe peça, a sua opinião sobre isso ou aquilo. Nem precisa. São óbvios. Antes mesmo que abram a boca já se sabe o que dirão. Por conta disso, tenho pouquíssimos amigos. Só gente legal, contudo, todos meio excêntricos, com manias, e mesmo malucos estilo beleza. Nenhum deles muito normal, porque, afinal, se fossem pessoas normais não iam querer me ter como amiga. Passo a maior parte do tempo concentrada em conteúdos de ordem intelectual, reconhecidamente chatos. Assumidamente sou uma pessoa pedante: eu até sei a diferença entre próclise, mesóclise e ênclise. Além disso, sou pouco sociável: o mundo se divide entre os meus poucos e muito queridos amigos e os outros que, em sua maior parte, me irritam ou me entediam, quando não me exasperam.  No modo viagem, contudo, dificilmente me incomodo com os outros. Diria mesmo que, bem ao contrário, a maioria me agrada e me surpreende positivamente, mesmo nas diferenças que podem até me divertir e enternecer. É fácil sorrir para quem não veremos outra vez.

Finalmente o último mandamento que consiste em resumir-se. Não causar, reclamar o menos possível, estar preparada para atrasos, para surpresas, saber esperar, saber aceitar, saber ouvir e entender o que esperam da gente, de preferência a impor nossas regras e hábitos em territórios onde estamos de passagem, como passageiros mesmo. Resumir-se frente a novas perspectivas de mundo e de visão nas quais não somos mais os protagonistas. Nesse contexto, os outros são todos amigos, até porque, ainda que sejam uns chatos, não vamos precisar aturá-los além do necessário. E, sendo assim, sua chatice é perfeitamente contornável. Riso pronto: sempre um bom dia, tarde ou noite. Sempre com licença, por favor e muito obrigada. Ceder lugar, ceder espaço, deixar acontecer e olhar tudo como novidade. Tolerância para com todos.

Eis, enfim, o que eu teria a dizer a quem, como eu, não gosta de sair de casa e é pouco sociável. Não é muita coisa, mas tem dado certo comigo. E agora, após oito dias afastada dos queridos ácaros da minha biblioteca, cá estou eu, de volta para casa, cercada da poeira dos séculos, retornada aos meus velhos hábitos, até que alguma coisa aconteça e eu tenha, outra vez, de deixar para trás o meu pequeno e solitário reino, ligar o modo viagem e passar a ser a passageira provisória, a passante imprevisível.
 


Autor: Maristela Bleggi Tomasini