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domingo, 16 de abril de 2017

De Francisco para Maria


"Algumas vezes a carta faz o papel de cocaina pra alma, nas crises de saudade. Procurei essa cocaina inocente e agora estou sorvendo a calma branca como poeira da tua lembrança insistente entranhada no meu espirito e nos meus sentidos, de tal maneira que eu penso que ella se desprende do papel."

Trecho de carta da década de 19/04/1932.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A propósito do descarte



 Do próprio fato de se tratar de material descartado poder-se-ia deduzir que se está diante de algo inaproveitável, pois a utilidade (proveito) dos arquivos deveria ser encontrada, de regra, quase sempre à luz do prestigio de seus protagonistas, titulares ou sujeitos. Não sendo este o caso, consequentemente, as cartas de Francisco, ― bem como todo o resto do arquivo de Lysia ―, nada representariam, ao menos do ponto de vista da História Social. Isso é paradoxal. De um lado vê-se desaparecerem as hierarquias. Cada vez mais as diferenças são eliminadas e a igualdade se torna uma espécie de exigência política em termos de correção. Se todos são importantes, então tudo que lhes diz respeito é, da mesma forma, importante. À parte essa discussão a propósito do que é ou não relevante em matéria de arquivos pessoais, verdade é que muita coisa vem sendo acumulada, guardada com avidez, sob o pretexto de servir à memória.

 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Arquivo de Lysia




Por sua singularidade, o arquivo de Lysia não se presta a uma função sistemática, exceto aquela que, no passado, lhe imprimiu sua empreendedora e que persiste ainda em sua organicidade[1]. A questão, parece, poderia estar relacionada ao que Baudrillard observou com relação ao objeto marginal e ao objeto antigo, que escapariam a qualquer sistematização. Singulares, barrocos, folclóricos, exóticos, antigos ― enumera ele ― tais objetos contradiriam exigências de uma ordem funcional e responderiam a desejos de outra ordem: testemunho, lembrança, nostalgia, evasão. “Esses objetos ― acrescenta ― por diferentes que eles sejam, também fazem parte da modernidade, e tomam aí um duplo sentido” [BAUDRILLARD, Jean. Le système des Objets. Paris: Gallimard, 1968, p. 103]. Isso ocorreria, particularmente, quando viessem a integrar um sistema cultural diferente daquele que lhes deu origem. Passariam assim a responder a outras necessidades, num processo equivalente à supressão do tempo, ao menos na ordem do imaginário.





[1] “Organicidade é o termo que designa, na área arquivística, a qualidade segundo a qual os arquivos refletem a estrutura, funções e atividades da entidade acumuladora, em suas relações internas e externas” (CAMARGO, Ana Maria de Almeida. Os arquivos e o acesso à verdade. In: SANTOS, Cecília MacDowell et al. (org). Desarquivando a ditadura: memória e justiça do Brasil. São Paulo: Hucitec, 2009a, v.2, p.424-443).

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

domingo, 5 de abril de 2015

Falar, escrever, ler...

Bilhetes que integram o arquivo de Lysia. 

Speaking, writing, reading, and recordkeeping are all part of the most fundamental human activities. This has been the case for a few thousand years, and it continues to be the case even in the digital era, where the characteristics of the activities are changing rapidly (COX, J. Richard. Personal archives and a new achival calling: Redings, reflections and ruminations. Duluth, Minnesota: Litwin Books, LLC, 2008, p. X).

quinta-feira, 5 de março de 2015

Minha Querida Lysia

Publicação 2015
Trecho de uma das cartas de Maria. 
Minha Querida Lysia

TOMASINI, Maristela Bleggi. Minha Querida Lysia. In: FREITAS, Talitta Tatiane Martins. (Org.). Anais do VII Simpósio Nacional de História Cultural: Escrita, circulação, leituras e recepções, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. ISBN: 978-85-67476-12-4

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 22 de abril de 2011

As Cartas

Esta é uma história real que descobri através da correspondência escrita por Francisco para sua Maria, a mulher por quem ele se apaixonou ainda muito jovem. As primeiras cartas são dos anos 20. Eles ficaram noivos só em 1932, porque se tratou de um romance aparentemente contrariado. Todos os papéis que dão testemunho destes fatos estariam no lixo, não fosse um querido amigo meu encontrá-los e guardá-los durante muito tempo. Ele possuía uma loja de antiguidades que eu visitava quase todos os dias, pois ficava perto da minha casa. Tornamo-nos grandes amigos nesta época. Paulo Roberto, este meu querido amigo, trabalhava com antiguidades, porcelanas, cristais, livros e todas as tralhas que, em geral, vão parar nessas lojas. Um dia, quando estava por se mudar dali, ele me chamou: "Maristela, vem cá que tenho uma coisa pra ti", disse ele, muito sério. Fomos até a parte dos fundos da loja e ele, então, entregou-me uma sacola plástica empoeirada e amarrada, dizendo que ali havia coisas que ele não queria mais guardar, mas que achava que estariam melhor se ficassem em minhas mãos. Foi um presente dado com muito carinho. Não explicou mais nada na hora, mas sorriu para mim com ares certa cumplicidade. Em casa, mais tarde, abri a sacola com cuidado, curiosa para saber o que era aquilo. Descobri então que eram cartas, cartas de amor e, entre surpresa e emocionada, fui lendo e me encantando com uma história que aconteceu aqui em Porto Alegre. Impressionante constatar ainda o imenso talento deste Francisco como escritor e poeta, e o amor profundo que devotou à sua Maria durante tantos e tantos anos.
Foi a minha vez de guardar os papéis. Arrumei lugar para tudo: cartas, recortes de jornal, fotos, cartões, santinhos, telegramas, fitas e demais objetos que estavam na tal sacola, coisas que me inspiram um profundo respeito pelo que significaram um dia àqueles a quem pertenceram. Coloquei todas as datadas em ordem cronológica conforme as décadas. São dos anos 20 e 30, e há as dos anos 40 e 50 também, que envolvem pessoas próximas do casal. Há cartas sem data e muitas poesias. Um cartão de Natal de 1961 dá contas de que Francisco e Maria casaram-se.