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sexta-feira, 17 de julho de 2020

Répondez s’il vous plaît

Seja como for, cartas permanecem como um território aberto a todas as perspectivas, pois refletem a consciência humana. Simples ou complexas, formais ou informais, sua materialidade é cheia de sentidos que se oferecem à nossa decifração. 


domingo, 7 de abril de 2019

Morte de Scipio Sighele


Na sessão reservada às notícias internacionais, ao subtítulo de Italie, o conservador Journal des débats politiques et littéraires dedica espaço à Mort de M. Scipio Sighele (1913, outubro 24), apresentado como sociólogo e professor que morrera em Florença, aos 45 anos. Nascido no Trentino, ele passara sua juventude em Milão, onde seu pai desempenhava a função de Procurador Geral do Rei. Sua primeira obra fora La foule criminelle, sob o patrocínio de Cesare Lombroso, obra que, junto a alguns ensaios publicados no Mondo criminale italiano firmaram-lhe a reputação de psicólogo e de escritor. Seguiram-se ainda, entre outras, La copia criminalle, L’Inteligence de la foule, La complicité. Sighele foi um fervoroso adepto do nacionalismo, movimento que surge na Itália e que cresce com a guerra na África. Hostil à Áustria, chegou a ser proibido de ingressar no território daquele país. Em Florença, para onde fora por razões de saúde, a morte imprevista o surpreende. A notícia é finalizada com uma carta de Sighele, escrita de Turim, que teria chegado ao jornal no dia 22 de outubro, — a morte de Sighele é dada como ocorrida em 21 de junho de 1913 —, sob o título de “O irredentismo no Trentino”. Para uma melhor compreensão do homem que foi Scipio Sighele no contexto de uma criminologia nascente, sem falar em sua relevante, senão mesmo a mais fundamental, contribuição para com o nascimento da psicologia coletiva, a carta acima mencionada é traduzida na íntegra, tal como publicada no Journal des débats politiques et littéraires.

Ainda que estejam quase completamente absorvidos pelas eleições gerais, os jornais italianos de todos os partidos não negligenciam em registrar o dia a dia dos fatos que se desenrolam no Trentino e as perseguições das quais os elementos italianos são objeto. Esses fatos confirmam, aliás, os resultados e as previsões das pesquisas realizadas no local pelos enviados especiais de dois grandes jornais sempre desejosos de ver um bom acordo reinar entre as duas nações aliadas, o Corrieri della Sera e o Stampa, pesquisas que demonstram claramente que se tratava, da parte da Áustria, da realização de todo um projeto de desnacionalização. Os exemplares desses jornais foram sucessivamente sequestrados em território austríaco, da mesma forma que os jornais italianos que continham artigos que as autoridades do Tirol julgassem de natureza a excitar a opinião pública.
Enquanto quase não fala mais a respeito dos famosos decretos de Holenhole que permanecem intactos como se deveria esperar, notícias de Trento anunciam que reuniões populares tiveram lugar ontem e anteontem em toda a região do Trentino a propósito da eterna questão de uma universidade italiana na Áustria. Os diversos oradores pediram que Trieste fosse escolhida como sede da futura universidade. A agitação tende a estender-se. Ela terá, por certo, algumas repercussões na península.

Referência: Mort de Scipio Sighele (1913, outubro 24). Journal des débats politiques et littéraires, ano 126, n. 295, Paris, p. 2.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Cidades, eternamente

"Tenho ido ao Pão dos Pobres, aos domingos e lá deixado o meu obulo, em teu nome. Me habituei com estas visitas dominicaes; de manhã saio, cheio de pensamentos evangelicos, olhando com ternura mystica pros homens e pras cousas, tomo o bonde como qualquer pacato, desço perto da ponte da Azenha. E vou andando, olho com enternecimento fransciscano para ervinhas que crescem entre as pedras da rua e para a agua do riacho. Vou rezando a minha oração lyrica. A poesia toma uma forma infinita, sem “formas”, dispersa em todo o universo, vou sorvendo o azul como expressão do indefinível. Vou sentindo Deus, vivendo a ideia divina. Depois, entro na igreja de Santo Antônio, e penso em ti. Eu só sei entender Santo Antonio atravéz da minha affeição por ti: Tua existencia se mistura com a existencia de Santo Antonio no altar. Rezando, eu converso também contigo, rezo pra ti, conversando com Santo Antonio. Santo Antonio está em nossa vida como um amigo invisível que só pode fazer bem. A gente tem desses amigos, habitantes do outro mundo" Trecho de carta de Francisco para Maria de 25/07/1933, Porto Alegre.


O fato de ser redutível a um espaço geográfico tangível não impede que a cidade abrigue imaginários, cuja força de expressão pode ser experimentada quando emerge dessas fontes. Mas tal leitura depende um pouco de nós, é verdade, de certa disposição de nossa vontade, de certa perversão de nossa razão, por contágio sugestivo, quem sabe... Ler esta carta e tentar acostumar-se a passear aos domingos por Porto Alegre, em 1933, descer de um bonde bem na ponte da Azenha, aquela onde começara a Guerra dos Farrapos há então quase cem anos, e seguir os passos do pacato Francisco até o Pão dos Pobres, entrando numa igreja onde Maria disputa lugar com Santo Antônio sobre o altar. Nada mais cotidiano e, paradoxalmente, nada mais extraordinário. Porque o dia a dia pode estar repleto dessa propriedade mágica que encanta suas ruas, seus rios, que diviniza altares, ainda que profanando-os, graças às eternas indulgências concedidas pelo amor. Cidades são, sim, fenômenos culturais por excelência e talvez seja preciso naturalizar-se porto-alegrense para alcançar essa cidadania. 


domingo, 16 de abril de 2017

De Francisco para Maria


"Algumas vezes a carta faz o papel de cocaina pra alma, nas crises de saudade. Procurei essa cocaina inocente e agora estou sorvendo a calma branca como poeira da tua lembrança insistente entranhada no meu espirito e nos meus sentidos, de tal maneira que eu penso que ella se desprende do papel."

Trecho de carta da década de 19/04/1932.

domingo, 12 de março de 2017

Carta de Arístocles a Alexandre, rei da Macedônia.

Que lhe perguntara o que havia de fazer para lograr honras e felicidade.
Guarda os segredos. Fala pouco. Usa de verdade. Não sejas ligeiro. Reprime a ira. Não te metas em pleitos. Não pagues adiantado a ninguém. Abstém-te de vinho. Lembra-te que és mortal. Sê compassivo. Não te associes com quem não conheces. Não sejas fácil em dar ouvidos ao que te dizem. Não te fies no inimigo reconciliado. Pelas coisas perdidas e que se não podem recuperar, não te amofines. Não te alegres com a desgraça alheia Não contendas com o mais forte do que tu. Não confies nunca teus segredos a tua mulher nem a teus filhos; porque mulheres e meninos só calam o que não sabem. Coisa que se não pode alcançar não desejes alcançá-la. O que é incrível nunca o creias. Se desejas honras e fortuna, guarda o que acabo de dizer- te. Tem saúde para acrescentamento das ciências.

ROQUETE, J. I. Novo Secretário Portuguez ou codigo epistolar contendo regras e advertências para escrever com elegancia toda sorte de cartas. Paris: J-P. Aillaud, Molon e Cia., 1860, p. 56.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Cartas

"Ce qui me semble beau, ce que je voudrais faire, c'est un livre sur rien, un livre sans attache extérieure, qui se tiendrait de lui-même par la force interne de son style, comme la terre sans être soutenue se tient en l'air, un livre qui n'aurait presque pas de sujet ou du moins où le sujet serait presque invisible si cela se peut" (Flaubert, Carta a Louise Colet de 16/01/1852).

quinta-feira, 5 de março de 2015

Minha Querida Lysia

Publicação 2015
Trecho de uma das cartas de Maria. 
Minha Querida Lysia

TOMASINI, Maristela Bleggi. Minha Querida Lysia. In: FREITAS, Talitta Tatiane Martins. (Org.). Anais do VII Simpósio Nacional de História Cultural: Escrita, circulação, leituras e recepções, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. ISBN: 978-85-67476-12-4

sábado, 17 de janeiro de 2015

Fernando Pessoa

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

Fernando Pessoa, in 'Carta a Mário de Sá-Carneiro (1915) '

Fonte: Citador

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Informação

Seguramente, um envelope que passou pelos correios nos fornece um indício seguro de sua origem. Torna-se verossímil, confiável e - por que não? - histórico.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Minha Querida Lysia

Pretendemos ficar aqui até o dia 10.
Breve enviar-te-ei mais noticias. Foste ao prado?
Hotel [Timbre]
QUITANDINHA, 1° de abril de 1950
Minha querida Lysia.
Escrevo-te a lápis, porque a Parcker está com
o Francis, que se encontra neste momento, na
1ª reunião preparatória do Congresso. Graças
a Deus tudo até agora tem corrido bem. Fize-
mos uma ótima viagem de avião; chegámos
ao rio, exatamente 4 horas após a nossa saída
de Porto Alegre, e encontrámos um calor, ver-
dadeiramente carioca! Calcula tu, querida, eu
de casaco de camurça, boina de veludo e ca-
pa de peles!... Hospedamo-nos no Hotel OK

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Porto Alegre Imaginada. Cidade, Cartas de Amor e Poesia

Porto Alegre Imaginada. Cidade, Cartas de Amor e Poesia é uma coletânea iconográfica que aborda a cidade a partir do imaginário de um apaixonado. Baseada em referências contidas em cartas de amor, documentos autênticos pertencentes a um arquivo pessoal, em mapas, em fotografias e em pinturas que têm por tema a cidade, a autora construiu imagens, recriando-as a partir dessas referências. Agora editado  como livro, o trabalho foi publicado pelo IPMS - Instituto de Pesquisa em Memória Social, e disponibilizado em Literatura.

domingo, 17 de março de 2013

Lembrança Floral

Foi um hábito. Mandar por entre as páginas de uma carta, especialmente uma carta de amor, uma "lembrança floral". Este gesto, por certo, deveria encontrar seu fundamento no suposto alívio da saudade entre apaixonados que, por força das circunstâncias, se encontrassem distantes um do outro. A foto mostra parte de uma carta escrita por Francisco para sua Maria, documento  datado de 25 de novembro de 1932. O status atual deste objeto é, no entanto, profundamente diverso daquele no qual ele aparece no mundo, como carta de amor. Ele integrava então um contexto primário ao qual sobreviveu. Naturalmente, não é documento que sirva de "prova" do amor de Francisco por Maria; contudo, informa-nos sobre um hábito epistolar e contribui para nos esclarecer sobre como funcionavam as sensibilidades e as sociabilidades do passado. 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Cartas


E eu estou convencido: entre dois seres que se buscam, não deve ser discutido o amor. Dante aconselhava: non raggionare da loro. Eu sei o que é o amor, conheço a sua expressão humana, não desconheço a sua significação natural, sou sensato, não exijo mais do que a mulher pode dar, tenho certeza de que não existe o absoluto, sei que no continuo está incluido o descontinuo, que no inconsciente dorme muita cousa que não devemos saber (porem que hoje já se póde descobrir, felizmente ou infelizmente!) e que tudo na vida é um jogo interessante e universal e tu, meu amor, o mais bonito brinquedo que a vida me deu[1].



[1] Carta de Fracisco para Maria, de 13 de dezembro de 1932. Conservada a grafia da época.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Bem...

Ao escrever qualquer carta, num minuto de alegria ou de sofrimento, o homem não procura disfarces para ocultar seu pensamento. Se está a sangue frio, pode, evidentemente, polir a frase ou esconder, com discrição, as ideias. Quando, porém, se encontra sob o domínio de sentimentos mais ou menos fortes ou intensos, já o caso muda de figura. O indivíduo é levado a abrir a sua alma. A dor não lhe permite fazer literatura. O estilo implica artificialismo, e com ele não se compadecem os sentimentos veementes e sinceros.VIANA, Mário Gonçalves. Cartas do Padre Antônio Vieira. Porto: Domingos Barreira Editor, sem data, p. 8.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Cartas de Amor como Bens Culturais

Cartas de amor encerram palavras vivas. Com isso quer-se dizer que não se tratam de vocábulos restritos às definições que se encontram nos dicionários, esses códigos reguladores de limites. Emoções não se transmitem pelas palavras, apenas ideias. Ninguém ousaria jamais afirmar que a pauta musical, embora escrita com precisão, seja a própria música, pois o que vai ali é tão-só uma ideia. A música propriamente dita, aquela que se dirige à audição, tampouco seria ela encontrável num gráfico que pudesse traduzir sua escala em decibéis. No entanto, uma música pode, não transmitir, mas despertar emoções, acionando a memória afetiva de quem a escuta, obviamente se estiver relacionada a determinadas vivências individuais ou mesmo sociais, como tão comumente encontramos naquelas canções que se diz serem do nosso tempo. Existe aí uma pertinência eminentemente cultural pelo compartilhamento de elementos simbólicos que também identificam gerações, diferenciando uma da outra, por exemplo. De forma semelhante, com palavras, trata-se, pois, de ir além, de descobrir, em cartas de amor, o poder da linguagem, não no que ela pura e simplesmente esclarece, mas no que ela encobre na lógica absurda das paixões, no que elas têm de mais paradoxal e, por isso mesmo, de mais inspirador...
Em Cartas de Amor como Bens Culturais: Interpretando Linguagem e Memória.

sábado, 26 de novembro de 2011

Cartas: desafio metodológico

Debruçar-se assim sobre muitas dezenas de cartas, escritas uma por uma ao longo de anos e anos, e sempre dirigidas a uma mesma mulher, é percorrer as folhas do diário da viagem íntima de uma alma que vai na direção de outra, presa de um encanto que contagia e fustiga a imaginação. É a curiosidade que deseja refazer este cenário, montando o palco onde esse amor foi sentido, como foi visto, de que lembranças foi feito, esboçando assim seus protagonistas, não em sua verdade histórica, mas em sua manifestação existencial. Francisco é um homem feito de palavras e, de suas palavras, extrai-se o osso que dará forma a Maria, esse feminino onde coexistem Santa Teresa e Capitu, universo de contradições e conflitos, onde ponderações entre o querer e o dever atuam como determinantes de um comportamento inserido em contexto tempo e de lugar determinados. Impõe-se desvelar essa sociedade, iluminar os elementos que compõem esse todo a partir da propositura de um método que, sem repudiar a ortodoxia, não coloque em risco os conteúdos humanos, que não devem sofrer coisificação em sua subjetividade profunda, ou seja, aderir à proposta de uma visão sistêmica, não fragmentada, mas integradora de elementos aparentemente desconexos.

sábado, 15 de outubro de 2011

Da Finalidade da carta

..."tratando de altas questões, que seja grave; de matérias medíocres, harmoniosa (concinna); de matérias humildes, correta e agradável; que, na brincadeira, ela seduza por seu humor e sua graça; no elogio, por sua pompa (apparatu); que, na exortação, seja veemente e apaixonada; na consolação, carinhosa e afetuosa; para persuadir, grave e rica de pensamentos; na narração, clara e descritiva (graphice); para pedir, discreta; para recomendar, solícita; nas circunstâncias felizes, cumprimentadora; na tristeza, séria". ERASMO DE ROTTERDAM
Anônimo de Bolonha; Rotterdam, Erasmo; Lípsio, Justo. A Arte de Escrever Cartas, org. Emerson Tin. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2005, p. 55.