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domingo, 16 de novembro de 2025

O publico e a imprensa (grafia original conservada)

 

FONTE: O publico e a imprensa. (1901, outubro 1). Diario de Pernambuco, 77(134), p. 1.

O publico e a imprensa

A psychologia póde ser estudada debaixo de dois pontos de vista: Debaixo do ponto de vista collectivo — psychologia inter-cerebral; debaixo do ponto de vista individual — psychologia intra-cerebral.

Na psychologia collectiva é preciso não confundir a psychologia das raças com a psychologia das multidões, confusão que tem dado logar aos mais lastimaveis erros na apreciação e direcção dos acontecimentos sociaes.

Nota Gustavo Le Bon que Napoleão I comprehendia a psychologia das multidões, mas ignorava a das raças. Taine, que desenvolveu tão brilhantemente sua theoria da raça, do meio e do momento historico, desconheceu a alma das multidões.

Occupando-nos com a psychologia collectiva, já tivemos occasião de escrever que não basta distinguir a psychologia das raças da psychologia das multidões, é preciso completar uma e outra com a psychologia dos sexos.

Sem o estudo profundo da psychologia dos sexos, dissemos, trabalho que está sendo feito com passo firme depois que foi desvendado pelos biologistas o segredo da fecundação, é impossivel a solução de certas questões, que estão na ordem do dia, e sobre as quaes se têm produzido as opiniões mais contraditorias e phantasiastas.

Entre ellas está a dos direitos da mulher, com os exaggeros de parte a parte, e o velho e gasto chavão de que todo o orgão, que não se exerce, se atrophia fatalmente.

É collocar mal a questão pôl-a sobre o terreno da falta de exercicio cerebral nas mulheres. Por este lado, para estabelecer o equilibrio, seria preciso refazer toda a historia natural da creação, e comprehende-se que «o que foi decidido entre os protozoarios prehistoricos, não póde ser annullado por um acto do parlamento».

Mas, quando mesmo fosse possivel dar ao cerebro da mulher a mesma modalidade do cerebro do homem, haveria vantagem em provocar semelhante transformação?

Sob a influencia de certas excitações as glandulas mammillares no homem podem produzir secreção lactea; porém nenhuma vantagem resultaria para o sexo masculino semelhante funcção.

O progresso dos costumes e instituições não apagará distincções, que existem ab ovo. O que vemos, pelo contrario, é que o desenvolvimento entre os individuos e as sociedades accentúa cada vez mais a divisão das funcções.

Seria desconhecer esta lei pretender assimilar os sexos ou restabelecer a superioridade de um sobre o outro.

«Os dous sexos, diz Alfredo Fouillée, em sua diversidade necessaria, são dependentes um do outro, e se valem um e outro.»

Ha uma psychologia das raças, uma psychologia das multidões, uma psychologia dos sexos; restava fazer a psychologia do publico.

Foi a tarefa, de que se encarregou G. Tarde, escrevendo seu interessante livro L’Opinion et la Foule.

O publico não se confunde com a multidão. Esta tem como condição essencial a aproximação, o contacto dos indivíduos, ao passo que aquelle é constituído por um todo mais extenso e mais disperso. Na multidão os indivíduos se influenciam uns sobre os outros pelo contagio dos corpos, póde-se dizer; no publico os indivíduos não se vêem uns aos outros, e cada um permanece sujeito a todas as influencias ambiantes.

Dahi a grande differença que vai entre o orador e o jornalista, entre o discurso e o artigo, exercendo o jornal influencia muito mais extensa e duradoura do que a tribuna.

Em regra se póde affirmar que um publico tem a imprensa que elle merece; mas isto não quer dizer que o jornalista não possa influir efficazmente sobre o publico.

Não raras vezes a injuria, a calumnia, a diffamação, a pornographia são condições de successo na imprensa, lisonjeando o jornal as paixões grosseiras do maior numero; mas o jornalista não deve elevar o consensus do vulgo á altura de linha de conducta no desempenho de sua tarefa.

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COMENTÁRIO


COMENTÁRIO 

Pois bem — a notícia realmente desperta interesse imediato, tanto pelo conteúdo quanto pela forma. Conservar a grafia original é um gesto de fidelidade; uma maneira de manter vivo o sabor da época. Quem me conhece sabe o valor que dou às fontes primárias. Mais do que registros, são testemunhos. No caso, trata-se da notícia veiculada em um jornal pernambucano de 1901. Ele circulava entre leitores específicos, pertencentes a um público que se reconhecia naquele discurso e que buscava, junto à imprensa, elementos que orientassem seu entendimento do mundo.

É isso que torna o texto ainda mais interessante. É a chegada de um novo século e de suas promessas — progresso, ciência, racionalidade — coexistindo, paradoxalmente, com a permanência: o conservadorismo, a resistência às transformações, o medo de rupturas. — Mas não é essencial agradar a todos os leitores? — A própria forma do argumento já nos revela essa tensão: o autor pretende situar-se “à meia distância”, longe dos “exaggeros” de um e de outro lado. Um velho artifício, por sinal. Dar-se a ver como um moderado é, frequentemente, uma forma de afetar certa autoridade.

Ah! Mas vejam a frase “o publico tem a imprensa que elle merece”. Escritor e leitor percebem-se reciprocamente, porquanto o jornal molda o público, mas também é moldado por ele. Sem falar do fato de o autor do artigo ter a si próprio em alta conta. Ele não se vê nem se apresenta como mero cronista. Vê-se como elemento ativo que intervém, orienta, educa. Mais que um observador, um verdadeiro agente da esfera pública. Seu artigo é, em si mesmo, um exercício de influência.

Sem dúvida, um homem culto, eis que leu Gabriel Tarde, que cita nominalmente. A distinção que faz entre público e multidão é tardiana. A preocupação em diferenciar a massa aglomerada da coletividade dispersa — influenciada não por “contágio dos corpos”, mas pela circulação de ideias — surge claramente da psicologia coletiva tal como se discutia nesse período. A presença de Le Bon também é explícita. Eis, portanto, as referências científicas que atuam como autoridades legitimadoras.

Sejamos sistemáticos: uma fonte primária como essa não vale apenas pelo conteúdo informativo. O que ela informa é importante, mas não é tudo. A informação deve ser lida sempre à luz de seu tempo e de suas circunstâncias. Fontes primárias revelam mais profundamente suas intencionalidades, seus pressupostos, suas hierarquias de valor, suas ausências. Sim. Se dizem aquilo que querem dizer, também revelam o que sequer supõem estar revelando.

Basta que imaginemos o leitor. Um morador de Recife que, em 1901, sentado em sua poltrona — talvez ainda à luz do lampião — folheou um exemplar idêntico desse jornal e ali encontrou, quem sabe, “psychologia”, “sciencia”, “progresso”, “advertências de ordem moral”. Como será que ele via essa questão dos sexos? Como reagia à ideia de que a mulher teria “direitos”? A palavra não esconde certo desconforto. E qual seria exatamente a autoridade da biologia para um juízo adequado? Note-se que a ciência, nesse contexto, é mobilizada para reafirmar limites, não para expandi-los. A distinção entre homens e mulheres é descrita como algo decidido pelos “protozoarios prehistoricos”. Sendo assim, estaria fora do alcance da política humana. A ciência legitimaria, portanto, uma ordem social naturalizada.

E quanto ao feminismo nascente? Para esse leitor, possivelmente urbano, alfabetizado, pertencente às camadas que consumiam jornais, a luta dos sexos apareceria sob a forma de uma inquietação moderada: perigosa se levada ao extremo, tolerável se mantida dentro de fronteiras. O mesmo vale para a noção de “multidões”, tão temida na virada do século — multidões que podiam se revoltar, incendiar, subverter a ordem, mas das quais um “publico” razoável e disperso deveria distinguir-se.

Finalmente, há o comentário sobre o “sucesso” da imprensa: ele próprio relativizado ao “gosto” do público, que poderia se inclinar a paixões “grosseiras”, da injúria à pornografia. Aqui vemos claramente a tensão moral do período — e também a preocupação de um jornalista que se quer ético, mas que reconhece que a sobrevivência do jornal depende, em parte, dos apelos mais baixos do mercado.

Em suma, é só um pequeno texto, eu sei. Mas que rica janela ele nos abre para a cultura letrada da época! Por ele, podemos aferir o grau da crença no progresso científico em face de um conservadorismo travestido de equilíbrio. Ele também nos dá a ver a moral sexual e social de então, inseparável dos temores que atravessavam a virada do século.

Fontes primárias, sim. Gosto delas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Gabriel Tarde, 1904


 Não apenas a multidão atrai e chama irresistivelmente seu espectador, como seu nome exerce uma prestigiosa atração sobre o leitor contemporâneo, e certos escritores são levados a designar, por esta palavra ambígua, toda sorte de agrupamentos humanos. Importa fazer cessar esta confusão e, notadamente, não confundir com a multidão o Público, vocábulo suscetível de diversas acepções, mas que tratarei de precisar. Diz-se: o público de um teatro, o público de uma assembleia qualquer; aqui, público significa multidão. Mas esta significação não é a única nem a principal e, enquanto sua importância decresce ou permanece estacionária, a idade moderna, após a invenção da imprensa, fez aparecer uma espécie de público totalmente diferente, que não cessa de crescer, e do qual a extensão indefinida é um dos traços mais marcantes de nossa época. Faz-se a psicologia das multidões. Resta fazer a psicologia do público, entendido neste outro sentido, qual seja, como uma coletividade puramente espiritual, como uma disseminação de indivíduos fisicamente separados e cuja coesão é totalmente mental. De onde procede o público, como ele nasce, como ele se desenvolve; suas variedades; suas relações com seus dirigentes; suas relações com a multidão, com as corporações, com os Estados; sua potencialidade para o bem ou para o mal e suas maneiras de sentir e agir: eis o que nos propomos a pesquisar neste estudo.

Nas sociedades animais mais inferiores, a associação consiste sobretudo em um agregado material. À medida em que se eleva sobre a árvore da vida, a relação social torna-se mais espiritual. Mas, se os indivíduos se distanciarem a ponto de não mais se verem, ou permanecerem assim distanciados além de um certo tempo muito curto, eles deixam de ser associados. Ora, a multidão, nisso, apresenta alguma coisa de animal. Não é ela um conjunto de contágios psíquicos essencialmente produzidos por contatos físicos? Mas nem todas as comunicações de espírito a espírito, de alma a alma, têm por condição necessária a aproximação dos corpos. Cada vez menos esta condição é suprida, quando se desenham, em nossas sociedades, as correntes de opinião. Não é nas reuniões de homens na via pública ou na praça pública que nascem e se desenvolvem essas espécies de rios sociais[1], essas grandes correntes que agora tomam de assalto os corações mais firmes, as razões mais resistentes, e que fazem consagrar leis ou decretos pelos parlamentos ou governos.  Coisa estranha: os homens que se deixam arrastar assim, que se sugestionam mutuamente ou, antes, que transmitem uns aos outros a sugestão vinda do alto, esses homens não se acotovelam, não se veem nem se ouvem.  Eles estão sentados, cada um em sua casa, lendo o mesmo jornal e dispersos sobre um mesmo território. Qual é, pois, a ligação que existe entre eles? Esta ligação é, juntamente com a simultaneidade de sua convicção ou de sua paixão, a consciência de cada um deles possui de que essa ideia ou essa vontade é partilhada, no mesmo momento, por um grande número de outros homens. É suficiente que ele saiba isso, mesmo sem ver esses homens, para que seja influenciado por aqueles tomados em massa, e não apenas pelo jornalista, inspirador comum, ele mesmo tanto mais fascinador quanto invisível e desconhecido for.

Gabriel Tarde, 1904.


[1] Observemos que essas comparações hidráulicas vêm naturalmente sob a pluma, cada vez que se trata das multidões como dos públicos. Nisso eles se parecem. Uma multidão em marcha, uma noite de festa pública circulam com lentidão e diversas agitações que lembram a ideia de um rio sem leito preciso, porque nada é menos comparável a um organismo que uma multidão, a não ser um público. São, de preferência, cursos d’água cujo regime é mal definido.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Das idades da Vida

Não são apenas os diversos sexos, são as diferentes idades da vida que disputam entre si a preeminência. Esta luta incessante não se resolve sempre nem em toda parte da mesma maneira; suas soluções sucessivas não se seguem sempre e em todo lugar na mesma ordem. Eu admiro aqueles que pretendem regrar de antemão a sorte desses combates.  Ora, ― e este é o caso ordinário ―, o sexo masculino domina; ora, raramente, o sexo feminino; mas a subordinação deste último é mais ou menos completa e varia muito, num sentido ou noutro, segundo as ideias e as paixões dominantes no curso da civilização.  Do mesmo modo, ora a idade madura, ora a juventude, ora a velhice tem o governo dos negócios.  Pode-se dizer que a gerontocracia é muito freqüente entre os povos primitivos, sem todavia ser constante, que a efebocracia é exceção, e que o reino dos homens maduros, no vigor da idade, ―  o que se poderia chamar antropocracia ―,  é o regime normal, o que não quer dizer habitual.  Não houve jamais uma sociedade em que as crianças comandassem como senhores?  Por uns tempos, é possível.  Mas se esta singularidade houvesse existido, seria fundamento para pretender que a pedocracia é uma fase necessária da evolução social, um dos anéis dessa longa corrente?  Eu não vejo mais razão para atribuir esta mesma importância ao matriarcado, à ginecocracia.

Gabriel Tarde (As Transformações do Direito)

domingo, 22 de janeiro de 2023

Prefácio de "L'Opinion et la Foule" de Gabriel Tarde (1904)

A expressão psicologia coletiva ou psicologia social é frequentemente compreendida num sentido quimérico que importa, desde logo, descartar. Tal sentido consiste em conceber um espírito coletivo, uma consciência social, um nós que existiria fora ou acima dos espíritos individuais.  Não temos qualquer necessidade, segundo nosso ponto de vista, dessa concepção misteriosa, para estabelecer, entre a psicologia ordinária e a psicologia social — que chamaremos interespiritual — uma distinção bastante nítida. Enquanto a primeira, com efeito, liga-se às relações do espírito com a universalidade dos outros seres exteriores, a segunda estuda, ou deve estudar, as relações mútuas dos espíritos, suas influências unilaterais e recíprocas — unilaterais primeiro, recíprocas depois. Logo, existe entre ambas, a psicologia ordinária e a psicologia social, a diferença do gênero à espécie. Mas a espécie, aqui, é de uma natureza tão singular e tão importante que deve ser destacada do gênero e tratada por métodos que lhe sejam próprios.

Os diversos estudos que se vão ler são fragmentos da psicologia coletiva assim entendida.  Um estreito liame os une. Pareceu necessário reeditar aqui, para colocá-las em seu devido lugar, o estudo sobre as multidões que figura em apêndice no final do volume[1]. O público, com efeito, objeto especial do estudo principal, é uma multidão dispersa, onde a influência dos espíritos, uns sobre os outros, torna-se uma ação à distância, a distâncias cada vez maiores. Enfim, a Opinião, resumo de todas essas ações de perto ou a distância, é, para as massas e para os públicos, aquilo que o pensamento é, de qualquer sorte, para o corpo. E se, entre essas ações das quais ela resulta, se procurar qual é a mais geral e a mais constante, percebe-se, sem dificuldade, que é esta relação social elementar: a conversação, inteiramente negligenciada pelos sociólogos.

Uma história completa da conversação entre todos os povos e em todas as épocas seria um documento de ciência social do mais alto interesse, e não é duvidoso que, malgrado as dificuldades de um tal assunto, se a colaboração de numerosos pesquisadores conseguisse superá-las, resultaria dessa aproximação dos fatos recolhidos sob esse ponto de vista nas mais diferentes raças, um número considerável de ideias gerais próprias a fazer da conversação comparada uma verdadeira ciência não longe da religião comparada ou da arte comparada ou mesmo da indústria comparada, ou seja, da Economia Política.

Mas, bem entendido, não pude pretender, em algumas páginas, traçar o desenho de semelhante ciência social. À falta de informações suficientes mesmo para esboçá-la, pude apenas indicar seu lugar futuro, e ficaria feliz se, lamentando esta ausência, sugerisse a algum jovem trabalhador o desejo de preencher esta grande lacuna.

 

G. Tarde

 

Maio de 1901

 

 



[1] Na Revue des Deux Mondes, em dezembro de 1893; depois, na Mélanges Sociologiques (Storck & Masson, 1895). Os outros estudos apareceram em1898 e1899 na Revue de Paris.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Reflexão

Em toda parte e sempre, a vitória é dos otimistas, dos povos ou dos indivíduos que acreditam a priori que a verdade é bela e que a vida é boa. Toda a Antiguidade clássica teve deuses sorridentes; o próprio Egito, a mais grave das nações antigas, teve fé no triunfo final da luz sobre as trevas e no reino do bem. Ora, para assegurar-se de que o otimismo é um erro, é suficiente, parece-me, imaginar a duração infinita dos tempos passados. A vida universal é uma busca impaciente. Mas o que é um objetivo sempre perseguido e jamais alcançado, após quase uma eternidade de tentativas, senão uma quimera? E o que é uma perseguição sem objetivo, a não ser a pior das maldições? A própria duração do universo atesta, pois, a impossibilidade de seu feliz desfecho. Dizer que o mundo é um grupo imenso e uma eterna série de evoluções seguidas, invariavelmente, de dissoluções é dizer que tudo não é, em toda existência, senão esperança e decepção, fluxo incessante de esperança seguido de um inevitável refluxo. E é muito tarde para supor que surgisse jamais, enfim, em meio a tudo isso, algum esforço vitorioso, algum elã não enganoso, alguma vontade não decepcionante!

Gabriel Tarde

domingo, 5 de maio de 2019

Bom lembrar

“Os historiadores, em geral, fazem história sem levar em conta esses grandes furacões de imitação fervorosa que, de tempos em tempos, se erguem inevitavelmente e rompem ou deformam todos os costumes à sua passagem. Seria o mesmo que tentar fazer meteorologia sem falar dos ventos.”
Gabriel Tarde

A propósito


Logo após a morte de Gabriel Tarde, em 13 de maio de 1904, Henry de Varigny (1904, julho 20, p. 3) publica no Le Temps artigo intitulado Les bases de la Sociologie d’aprés Tarde, no qual estimava não ser tarde demais para falar daquele que qualifica como engenhoso filósofo e homem galante, o “sábio gascão que se servia de sua palavra e de sua pluma . . . para prestar serviço à psicologia e à sociologia simultaneamente” (id., ibid.). Ele teria feito ver que a psicologia coletiva, na ordem sociológica, inseria suas bases na psicologia, eliminando assim a noção de entidades sociológicas que o articulista tem por místicas, fazendo menção, a propósito, à participação de Tarde na Conferénse sur l’inter-psychologie, 1903, ocasião em chamara a atenção de todos sobre “a necessidade de estudar a interpsicologia, a ação psicológica de um homem sobre outro homem” Id., ibid.).

Referência: Varigny, H. (1904, julho 20). Les bases de la Sociologie d’aprés Tarde. Le Temps, ano 44, n. 15.738, Paris.

Observação: A propósito, data venia às subjetividades, eu, particularmente, gosto da ideia de encontrar em Gabriel Tarde um homem galante. 

sábado, 9 de setembro de 2017

Tarde e Durkheim

A propósito, o polêmico confronto que aconteceu entre Durkhaim e Tarde do qual se tem o resumo extraído da Revue Internationale de Sociologie, 1904, 12. A conferência teve lugar na École des Hautes Études Sociales, à Paris, no início do ano escolar 1903-1904, e foi reproduzido em: Émile Durkheim, Textes. 1. Éléments de théorie sociale, pp. 160 à 165. Paris: Éditions de Minuit, 1975, 512 pages. Collection: Le sens commun. Em apertada síntese, Durkheim defendia que a Sociologia deveria abandonar seu caráter filosófico, aproximando-se da realidade concreta. Afirmava também que os fatos estudados por ciências sociais distintas teriam um caráter comum, eis que sociais, tendo a Sociologia, por objeto, justamente o estudo do fato social em sua abstração. Comparando os fatos sociais, ver-seia que eles teriam em comum os caracteres gerais da socialidade. Já Gabriel Tarde, ainda que admita a importância de leis gerais extraídas de uma metodologia comparativa, persegue, em paralelo, outro método que se serviria de « de cette microscopie sociale qu'est la psychologie intermentale ». Ele afirma ainda ser desnecessária a formulação de leis para a constituição definitiva das ciências, mas, sim, uma ideia diretriz nas pesquisas. Porque as ciências sociais, argumenta ele, não seriam devedoras de regras de métodos objetivos, mas realizaram seu desenvolvimento no sentido da psicologia : na vida social não haveria senão atos de indivíduos a indivíduos. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Émile Durkheim. Confrontation avec Tarde

"A sociologia deve continuar a ser uma especulação filosófica que abraça a vida social em uma fórmula sintética? Deve ela, ao contrário, fragmentar-se em diferentes ciências e, se ela deve especializar-se, como esta especialização se faria? A sociologia puramente filosófica repousa inteiramente sobre esta ideia de que os fenômenos sociais estão submetidos a leis necessárias. Os fatos sociais têm entre si ligações que a vontade humana não pode arbitrariamente romper. Essa verdade supunha uma mentalidade avançada e não podia ser senão o fruto de especulações filosóficas. A sociologia é a filha do pensamento filosófico, ela nasceu no seio da filosofia comtista e não é dela senão o coroamento lógico. Mas, para Comte, a sociologia não consiste na pluralidade de problemas definidos que os sábios estudam separadamente; ela atém-se a um problema único e deve abraçar, num instante indivisível, a seqüência do desenvolvimento histórico para perceber a lei que o domina em seu conjunto. Os estudos de detalhe são perigosos, dizia Comte, porque eles desviam a atenção do sociólogo do problema fundamental que é o todo da sociologia. Os fatos sociais são solidários, e não se pode estudá-los isoladamente, senão que em alterando gravemente sua natureza. Os discípulos de Comte não fazem senão reproduzir o pensamento do mestre, e as mesmas fórmulas têm sido repetidas sem que a sociologia tenha progredido. Mas por que a sociologia consistiria em um único problema? A realidade social é essencialmente complexa, não ininteligível, mas apenas refratária às formas simples. A sociologia não é uma ciência unitária e, ainda que respeitando a solidariedade e a interdependência dos fatos sociais, ela deve estudar cada categoria separadamente. Todavia, a concepção que conduz a sociologia a um só e único problema é ainda a mais geral, mesmo entre os autores contemporâneos. Trata-se sempre de descobrir a lei geral da sociedade. Todos os fatos estudados pelas ciências sociais distintas teriam um caráter comum, pois que sociais, e a sociologia teria por objeto estudar o fato social em sua abstração. Em comparando os fatos sociais, ver-se-ão quais são os elementos que se encontram em todas as espécies e destacar-se-ão os caracteres gerais da sociabilidade. Mas onde e como alcançar essa abstração? Os fatos dados são concretos, complexos; mesmo as civilizações mais inferiores são de uma extrema complexidade. Como destacar o fato elementar com seus caracteres abstratos, se não se começa por estudar os fenômenos concretos onde ele se realiza? Se, pois, a sociologia quiser viver, ela deverá renunciar ao caráter filosófico ao qual ela deve sua origem e aproximar-se das realidades concretas por meio de pesquisas especiais. Há interesse em que o público saiba que a sociologia não é puramente filosófica, e que ela pede precisão e objetividade. Mas isso não quer dizer que as disciplinas especiais não devam, — para se tornarem ciências verdadeiramente sociológicas, — senão permanecerem aquilo que elas são atualmente. Elas não têm sido ainda suficientemente penetradas pelas idéias que a filosofia social destacou. Elas têm necessidade de se transformar, de orientarem-se em um sentido expressamente sociológico. No momento atual, não se pode senão formular o problema".

Fonte: Citação extraída da edição eletrônica realizada a partir de um texto de Émile Durkheim (1903), La sociologie et les sciences sociales. Confrontation avec Tarde. Texto disponível na coleção produzida por Jean-Marie Tremblay, Professor de Sociologia em Chicoutini, Les classiques des sciences sociales. 
Foto: Wikipedia Creative Commons.