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Mostrando postagens com marcador A Psicologia Coletiva como resposta ao problema da criminalidade das multidões: uma perspectiva histórica. Mostrar todas as postagens
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domingo, 16 de novembro de 2025

O publico e a imprensa (grafia original conservada)

 

FONTE: O publico e a imprensa. (1901, outubro 1). Diario de Pernambuco, 77(134), p. 1.

O publico e a imprensa

A psychologia póde ser estudada debaixo de dois pontos de vista: Debaixo do ponto de vista collectivo — psychologia inter-cerebral; debaixo do ponto de vista individual — psychologia intra-cerebral.

Na psychologia collectiva é preciso não confundir a psychologia das raças com a psychologia das multidões, confusão que tem dado logar aos mais lastimaveis erros na apreciação e direcção dos acontecimentos sociaes.

Nota Gustavo Le Bon que Napoleão I comprehendia a psychologia das multidões, mas ignorava a das raças. Taine, que desenvolveu tão brilhantemente sua theoria da raça, do meio e do momento historico, desconheceu a alma das multidões.

Occupando-nos com a psychologia collectiva, já tivemos occasião de escrever que não basta distinguir a psychologia das raças da psychologia das multidões, é preciso completar uma e outra com a psychologia dos sexos.

Sem o estudo profundo da psychologia dos sexos, dissemos, trabalho que está sendo feito com passo firme depois que foi desvendado pelos biologistas o segredo da fecundação, é impossivel a solução de certas questões, que estão na ordem do dia, e sobre as quaes se têm produzido as opiniões mais contraditorias e phantasiastas.

Entre ellas está a dos direitos da mulher, com os exaggeros de parte a parte, e o velho e gasto chavão de que todo o orgão, que não se exerce, se atrophia fatalmente.

É collocar mal a questão pôl-a sobre o terreno da falta de exercicio cerebral nas mulheres. Por este lado, para estabelecer o equilibrio, seria preciso refazer toda a historia natural da creação, e comprehende-se que «o que foi decidido entre os protozoarios prehistoricos, não póde ser annullado por um acto do parlamento».

Mas, quando mesmo fosse possivel dar ao cerebro da mulher a mesma modalidade do cerebro do homem, haveria vantagem em provocar semelhante transformação?

Sob a influencia de certas excitações as glandulas mammillares no homem podem produzir secreção lactea; porém nenhuma vantagem resultaria para o sexo masculino semelhante funcção.

O progresso dos costumes e instituições não apagará distincções, que existem ab ovo. O que vemos, pelo contrario, é que o desenvolvimento entre os individuos e as sociedades accentúa cada vez mais a divisão das funcções.

Seria desconhecer esta lei pretender assimilar os sexos ou restabelecer a superioridade de um sobre o outro.

«Os dous sexos, diz Alfredo Fouillée, em sua diversidade necessaria, são dependentes um do outro, e se valem um e outro.»

Ha uma psychologia das raças, uma psychologia das multidões, uma psychologia dos sexos; restava fazer a psychologia do publico.

Foi a tarefa, de que se encarregou G. Tarde, escrevendo seu interessante livro L’Opinion et la Foule.

O publico não se confunde com a multidão. Esta tem como condição essencial a aproximação, o contacto dos indivíduos, ao passo que aquelle é constituído por um todo mais extenso e mais disperso. Na multidão os indivíduos se influenciam uns sobre os outros pelo contagio dos corpos, póde-se dizer; no publico os indivíduos não se vêem uns aos outros, e cada um permanece sujeito a todas as influencias ambiantes.

Dahi a grande differença que vai entre o orador e o jornalista, entre o discurso e o artigo, exercendo o jornal influencia muito mais extensa e duradoura do que a tribuna.

Em regra se póde affirmar que um publico tem a imprensa que elle merece; mas isto não quer dizer que o jornalista não possa influir efficazmente sobre o publico.

Não raras vezes a injuria, a calumnia, a diffamação, a pornographia são condições de successo na imprensa, lisonjeando o jornal as paixões grosseiras do maior numero; mas o jornalista não deve elevar o consensus do vulgo á altura de linha de conducta no desempenho de sua tarefa.

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COMENTÁRIO


COMENTÁRIO 

Pois bem — a notícia realmente desperta interesse imediato, tanto pelo conteúdo quanto pela forma. Conservar a grafia original é um gesto de fidelidade; uma maneira de manter vivo o sabor da época. Quem me conhece sabe o valor que dou às fontes primárias. Mais do que registros, são testemunhos. No caso, trata-se da notícia veiculada em um jornal pernambucano de 1901. Ele circulava entre leitores específicos, pertencentes a um público que se reconhecia naquele discurso e que buscava, junto à imprensa, elementos que orientassem seu entendimento do mundo.

É isso que torna o texto ainda mais interessante. É a chegada de um novo século e de suas promessas — progresso, ciência, racionalidade — coexistindo, paradoxalmente, com a permanência: o conservadorismo, a resistência às transformações, o medo de rupturas. — Mas não é essencial agradar a todos os leitores? — A própria forma do argumento já nos revela essa tensão: o autor pretende situar-se “à meia distância”, longe dos “exaggeros” de um e de outro lado. Um velho artifício, por sinal. Dar-se a ver como um moderado é, frequentemente, uma forma de afetar certa autoridade.

Ah! Mas vejam a frase “o publico tem a imprensa que elle merece”. Escritor e leitor percebem-se reciprocamente, porquanto o jornal molda o público, mas também é moldado por ele. Sem falar do fato de o autor do artigo ter a si próprio em alta conta. Ele não se vê nem se apresenta como mero cronista. Vê-se como elemento ativo que intervém, orienta, educa. Mais que um observador, um verdadeiro agente da esfera pública. Seu artigo é, em si mesmo, um exercício de influência.

Sem dúvida, um homem culto, eis que leu Gabriel Tarde, que cita nominalmente. A distinção que faz entre público e multidão é tardiana. A preocupação em diferenciar a massa aglomerada da coletividade dispersa — influenciada não por “contágio dos corpos”, mas pela circulação de ideias — surge claramente da psicologia coletiva tal como se discutia nesse período. A presença de Le Bon também é explícita. Eis, portanto, as referências científicas que atuam como autoridades legitimadoras.

Sejamos sistemáticos: uma fonte primária como essa não vale apenas pelo conteúdo informativo. O que ela informa é importante, mas não é tudo. A informação deve ser lida sempre à luz de seu tempo e de suas circunstâncias. Fontes primárias revelam mais profundamente suas intencionalidades, seus pressupostos, suas hierarquias de valor, suas ausências. Sim. Se dizem aquilo que querem dizer, também revelam o que sequer supõem estar revelando.

Basta que imaginemos o leitor. Um morador de Recife que, em 1901, sentado em sua poltrona — talvez ainda à luz do lampião — folheou um exemplar idêntico desse jornal e ali encontrou, quem sabe, “psychologia”, “sciencia”, “progresso”, “advertências de ordem moral”. Como será que ele via essa questão dos sexos? Como reagia à ideia de que a mulher teria “direitos”? A palavra não esconde certo desconforto. E qual seria exatamente a autoridade da biologia para um juízo adequado? Note-se que a ciência, nesse contexto, é mobilizada para reafirmar limites, não para expandi-los. A distinção entre homens e mulheres é descrita como algo decidido pelos “protozoarios prehistoricos”. Sendo assim, estaria fora do alcance da política humana. A ciência legitimaria, portanto, uma ordem social naturalizada.

E quanto ao feminismo nascente? Para esse leitor, possivelmente urbano, alfabetizado, pertencente às camadas que consumiam jornais, a luta dos sexos apareceria sob a forma de uma inquietação moderada: perigosa se levada ao extremo, tolerável se mantida dentro de fronteiras. O mesmo vale para a noção de “multidões”, tão temida na virada do século — multidões que podiam se revoltar, incendiar, subverter a ordem, mas das quais um “publico” razoável e disperso deveria distinguir-se.

Finalmente, há o comentário sobre o “sucesso” da imprensa: ele próprio relativizado ao “gosto” do público, que poderia se inclinar a paixões “grosseiras”, da injúria à pornografia. Aqui vemos claramente a tensão moral do período — e também a preocupação de um jornalista que se quer ético, mas que reconhece que a sobrevivência do jornal depende, em parte, dos apelos mais baixos do mercado.

Em suma, é só um pequeno texto, eu sei. Mas que rica janela ele nos abre para a cultura letrada da época! Por ele, podemos aferir o grau da crença no progresso científico em face de um conservadorismo travestido de equilíbrio. Ele também nos dá a ver a moral sexual e social de então, inseparável dos temores que atravessavam a virada do século.

Fontes primárias, sim. Gosto delas.

sábado, 6 de setembro de 2025

Uma greve em Paris (1907)

“Hoje, ao soar das cinco horas, apagaram-se as lâmpadas elétricas. As lojas, invadidas pela noite, abaixaram suas cortinas; os proprietários dos cafés correram em busca de velas; à noite, a Ópera e todas as salas de espetáculo, com raras exceções, permaneceram fechadas” (id., ibid). A descrição prossegue, falando dos bulevares parisienses que a escuridão tornara proibitivos, e que se enchiam de uma multidão de espectadores decepcionados que prolongavam a vigília refugiados, à luz de velas, nos cafés, mas rapidamente abandonando-os: “. . . à meia-noite, Paris, de ordinário tão viva e brilhante, rapidamente assume o triste aspecto de uma subprefeitura de terceira classe” (id., ibid.). A dramática descrição abre o artigo intitulado La greve des electriciens (1907, março 10), que aparece no Le Temps e, bem ao estilo deste último, lamenta o fato de a vontade de um sindicato haver mergulhado Paris nas trevas. Os interesses gerais seriam assim sacrificados aos interesses corporativos ou “à profundidade do egoísmo sindical” (id., ibid.). Argumentando sobre os prejuízos que teriam sido impostos pela greve aos pequenos artistas, aos cocheiros de fiacres, aos tipógrafos e outros, o artigo questiona como trabalhadores honestos não pensavam, antes de seguirem seus líderes, nos infelizes que padeceriam por conta de sua excitação. Haveria aí, — afirma o articulista —, “uma psicologia coletiva muito lamentável”. O artigo termina com um apelo — que soa patético, talvez —, e que diz: “A ordem está abalada, que ela seja restabelecida!” (id., ibid.).

Referência: La greve des électriciens (1907, março 10). Le Temps, ano 47, n. 16696, Paris, capa. 

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A notícia publicada pelo jornal Le Temps em 10 de março de 1907, sob o título La grève des électriciens, oferece um retrato ideologicamente carregado do impacto da greve dos eletricistas sobre a vida cotidiana parisiense. O tom dramático da matéria, que descreve uma Paris mergulhada nas trevas, operando à luz de velas e abandonada por sua vibrante vida noturna, revela mais do que uma simples preocupação com a normalidade urbana: escancara o medo burguês diante da força organizada da classe trabalhadora. A escuridão que toma Paris funciona como metáfora estratégia e retórica. Ao destacar que bulevares proibitivos, cafés esvaziados e a Ópera ficou fechada, o jornal descreve um verdadeiro colapso civilizacional. A cidade, símbolo da modernidade e do progresso, é devolvida à idade das trevas por conta da ação de um sindicato. Uma escuridão menos física do que simbólica representa, na visão editorial do Le Temps, o suposto perigo que o poder sindical representa para a ordem social.

A matéria acusa o movimento grevista de egoísmo sindical, expressão que inverte a lógica da ação coletiva. Os trabalhadores, ao reivindicarem melhores condições, não estariam, segundo o jornal, lutando por justiça social, mas sim prejudicando os pequenos artistas, os cocheiros, os tipógrafos — categorias evocadas com aparente compaixão, mas que servem, na verdade, como instrumento retórico para opor trabalhadores contra trabalhadores.

A ideia é patologizar a mobilização coletiva: uma “psychologie collective très fâcheuse”, que revela a maneira como a imprensa da época buscava deslegitimar a ação política da classe operária. O apelo final — “Que a ordem seja restabelecida!” — soa quase desesperado. Não é apenas um chamado à normalidade, mas à submissão. O Le Temps, porta-voz dos interesses da elite republicana e liberal, não admite sequer a possibilidade de negociação real com os sindicatos. A ordem que se deseja restaurar é aquela onde os trabalhadores produzem, consomem e obedecem — mas não falam, não param, e sobretudo, não apagam a luz.

Fundado em 1861 por Auguste Neffzer, Le Temps consolidou-se como uma das publicações mais respeitadas da França, seja pelo rigor jornalístico, seja pelo amplo e bem estruturado corpo de correspondentes internacionais. Conservador, defensor da República como regime político e comprometido com a manutenção da ordem social e dos valores burgueses, ao longo das décadas ele foi “l’organe officieux de la diplomatie française”, ou seja, o canal extraoficial por onde circulavam as ideias, os valores e os interesses do Estado francês, especialmente em assuntos de política externa, mas também em relação à política interna, como vimos na cobertura da greve dos eletricistas. O autoencerramento em 1942, durante a ocupação alemã da França, é altamente simbólico. Incapaz de continuar mantendo sua linha editorial sob o jugo nazista e as pressões do regime de Vichy, o jornal opta por desaparecer — um gesto que pode ser visto tanto como resistência quanto como o esgotamento de um projeto político-cultural de longa duração. O Le Temps não foi apenas um jornal: era um instrumento ideológico de hegemonia, no sentido que Antonio Gramsci poderia descrever. Quando lemos a matéria sobre a greve de 1907 sob essa luz, entendemos melhor por que a defesa da “ordem” era tão visceral: tratava-se da defesa do modelo de mundo ao qual o Le Temps servia — um mundo iluminado, sim, mas para poucos.


sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Clóvis Bevilacqua e a gradação da responsabilidade: sugestão e contágio nos crimes cometidos pelas multidões


O que importava determinar, para Clóvis, nos crimes cometidos pelas multidões exaltadas era “até que ponto a suggestão do grupo, até que ponto o contagio da emoções modificou a individualidade daquelles que foram impellidos ao crime” (1896, p.50).

Temos aí, pois, um traço psicológico destacado pelo jurista, qual seja, uma espécie de suscetibilidade individual ao contágio, expressão, aliás, que se repete entre os autores. Indivíduos suscetíveis são identificados por Clóvis como os reconhecidamente perversos e os impressionáveis. Os primeiros “experimentados na pratica dos maleficios” (id., ibidem) se deixariam arrebatar  “até o delirio sanguinario” (id., ibid.); os segundos, “espiritos intensamente vibrateis, mas de conducta perfeitamente honesta, sentirão a vertigem do abysmo que se cava tenebroso em torno da mente agitada e nelle se precipitarão” (id., ibid.). Remetendo a exemplos citados por Sighele e Joly, que se adequariam a esses temperamentos, não deixa de fazer alusão à literatura, mencionando Là-Bas e fazendo referência à descrição grotesca de uma missa negra que se encontra nesta obra, sobre a qual comenta: “sordido sacrilegio e abjecta bacchanal, torcendo os espíritos, como se fossem frageis caniços e rojando os corpos no pó, revolvendo-os raivosamente na lama infecta de uma volúpia repellente” (id., p. 51).

Clóvis cita apenas o título: Là-bas. Em que pese não explicitar a autoria da obra, dificilmente não se trataria de outra que não o romance de Huysmans, publicado na França em 1891, que aborda o satanismo contemporâneo. A cena à qual faz referência é, muito provavelmente, esta:

Então Durtal sentiu-se estremecer, pois um vento de loucura sacudiu o salão. A aura de grande histeria seguiu o sacrilégio e curvou as mulheres; enquanto os meninos do coro incensavam a nudez do pontífice, algumas mulheres se precipitaram no Pão Eucarístico e, de rastros, agarraram-no, arrancaram-lhe pedaços úmidos, beberam e comeram essa divina imundície. [...] Era um barracão de hospício exasperado, uma estufa monstruosa de prostitutas e loucas. Então, enquanto as crianças do coro se aliavam aos homens, a dona da casa subia, retorcida, no altar, empunhando, com uma mão, a haste do crucifixo e, com a outra, o cálice, sob com as pernas nuas; ao fundo da capela, nas sombras, uma criança que ainda não se mexera, subitamente curvou-se para a frente e gritou até à morte, como um cão! (HUYSMANS, J.-K., 1895, p. 378-379)

Clóvis entende que a responsabilidade do que fosse dominado por uma multidão é menor do que a dos diretores de uma eventual ação criminosa que demandasse punição. Essa conclusão seria confirmada tanto pela ciência quando pelo bom senso popular. Tal responsabilidade, contudo, comportaria limites e gradações que poderiam ser encontrados mediante a aplicação da teoria da identidade e da finalidade. Importaria, pois, questionar se o indivíduo permaneceu o mesmo antes e depois do ato cometido, coordenado este com suas tendências. Sua responsabilidade então seria plena. Se, todavia, ele encontrasse na multidão apenas um estímulo, algo que agisse nele como, por exemplo, o álcool, ainda assim, ter-se-ia responsabilidade plena, embora não no mesmo grau da hipótese anterior. Já nos casos em que houvesse completa alucinação do agente, transformado pela ação violenta do meio circundante, a responsabilidade poderia ser inteiramente nula ou, conforme as circunstâncias, muito restrita. Mas, nos casos em que houvesse uma combinação de energias convergentes: de um lado, a sugestão de uma ação ilícita cinda do exterior; de outro, a consonância dessa finalidade ilícita com as tendências individuais, a responsabilidade do agente sofreria uma gradação, sendo “tanto maior quanto mais harmonica fôr essa consonancia, quanto mais conservar o homem a sua feição individual, a sua personalidade no torvelinho das paixões do grande numero” (id., ibid.).

Referências

Bevilacqua, C. (1896). Criminologia e Direito. Bahia: Livraria Magalhães.

Huysmans, J.-K. (1895). Là-bas. Paris: Tresse & Stock.

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Esta postagem é um recorte de pesquisa. Trata-se de saber como a chamada psicologia coletiva chegou no Brasil, quem se preocupou com ela, estudando seu funcionamento especialmente com relação aos crimes cometidos por multidões. Entender como se daria esse suposto "contágio", na ausência de vetores biológicos, físicos, concretos, que justificassem uma ação coletiva voltada para um fim ou objetivo específico. Enfim, perguntas sem resposta. O tema, contudo, é bem explorado por Clovis, especialmente porque se ocupa mais em saber quem seriam os suscetíveis, os mais sugestionáveis. 


sábado, 5 de março de 2022

INGREDIENTES DA HISTÓRIA: TEMPO, NARRATIVA E PAISAGEM (Recorte de pesquisa)


Mas então, eram outros os tempos e outros os cenários. Para apreciá-los adequadamente, contudo, é preciso ter presente que o tempo histórico não é simultâneo nem obedece à mecânica prosaica de um antes seguido de um depois. O tempo histórico, cujo caráter narrativo é eminentemente temporal, é tão complexo quanto o tempo dos homens. Ele pode tanto lançar-se às vanguardas como petrificar-se sobre o que passou, o que explica a simultaneidade de ideias em atrito que antecedem à formação de concepções, de conceitos e de categorias como tais, tanto quanto das verdades que lhes vão servir de alicerce.

Além disso, história e escrita acontecem simultaneamente, portanto, na temporalidade. Assim, com razão Jean Kaempfer & Raphaël Micheli (2005) que, para estudar a temporalidade narrativa, exploraram nossa noção de tempo, dividindo-a em cinco categorias. Haveria um tempo apriorístico, conceitual, filosófico, portanto. Haveria um tempo fenomenológico, o tempo de nossas emoções, fonte do passado memorável que guarda lembranças e recordações. Haveria um tempo antropológico, substrato rítmico que se alterna entre o sono e a vigília, organicamente obediente ao corpo e a ele condicionado. Haveria um tempo objetivo, medido por relógios e calendários e sinalado pelos antes e depois. Finalmente, um tempo linguístico, fundamento de um não-presente que tem por pressuposto um passado constituído, um momento de enunciação e uma posteridade situada além da escrita. Dessa sorte, a temporalidade seria uma dimensão fundamental da conduta narrativa, — da trama da história, observe-se —, conferindo à experiência humana um caráter temporal.

E não há também um tempo das paisagens? Um tempo das metrópoles, célere, apressado; um tempo das províncias, lento, resistente, de sorte que as datações, embora certas, porque impregnadas da objetividade dos números, é incerta e inconfiável sempre que servir de marco histórico.

E é diante desses ingredientes coletados in natura em discursos e retratos que se quer descobrir uma psicologia coletiva ainda nascente, embalada no berço, inconsciente de suas origens, sem dúvida, jurídicas, mas ainda e, sobretudo, psicológicas, sociológicas, biológicas e, consequentemente, políticas.

Seja como for, fato é que o XIX foi marcado pelo poder do saber, que superara o poder da crença, derrotando a fé, ao menos na prática. A razão, enfim, exultava. O mundo mudara sua face. A máquina mecanizava também o espírito e recriava as cidades. A velocidade encurtava as distâncias e, depois dos rios, as ferrovias exerceram também a missão civilizadora. A produção aumentava e, com ela, o consumo. Os homens se deslocavam. Arrancados aos lugares onde, por gerações, estiveram fixados, passam a habitar as periferias das cidades que se hipertrofiam. Mentalidades tornam-se outras. O próprio tempo se altera quando o apito das fábricas regula rotinas antes pautadas pelos sinos dos campanários. Escravos de Jó exercitam o zigue zigue zá na urbs, expostos não mais às forças da natureza, mas às econômicas, novas regentes dos poderes políticos que, cada vez mais, passam a sujeitar os homens, os reinos, os estados em suas novas bases. Porque as antigas fizeram-se saudosamente românticas, ao sabor de Rousseaus e de Beccarias já distantes. Era preciso repensar o mundo, destituindo-o — não sem grandes resistências — de todos os resquícios metafísicos herdados da velha escolástica. Era preciso expulsá-los das almas para poder-se apropriar dos corpos.

Insista-se nesse cenário. Ele é nossa introdução. É nosso fundo, ou o palco no qual vai entrar em cena essa psicologia que nos interessa estudar. É preciso fazê-lo sem perder vista que ela aparece no mundo suscitada pela emergência de multidões que assumiam um caráter ameaçador diante daqueles que detinham não apenas a oportunidade de observá-las, mas ainda a de descrevê-las e de analisá-las, como de fato o fizeram, deixando-nos um valioso legado documental, tesouro que nos mostra o nascimento de uma ciência para cuja formação contribuíram jornalistas e literatos, além de historiadores e cientistas, simplesmente porque o assunto interessava a todos.


Kaempfer J. & Micheli, R. (2005). La temporalité narrative. Lausanne: Université de Lausanne. Recuperado de https://www.unige.ch/lettres/framo/enseignements/methodes/tnarrative/tnintegr.html#tnsommar em 05/05/2019.

 


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Nota de Silvio Venturi

 

A Opinião de um Médico Alienista[1]

 

Nota de Silvio Venturi

 

A propósito da discussão entre Sighele e Ferri a respeito da inteligência da multidão, tenho a dizer que, em certo sentido, estou de acordo com um e com outro (mais com Sighele que com Ferri), mas eu quero dizer também que considero a coisa de um ponto de vista diferente.

Vou explicar-me.

O orador que fala a uma multidão encontra nesta multidão o eco exato de suas próprias palavras, quando ele não faz senão exprimir — e eu poderia dizer resumir e evocar — ideias e sentimentos que a multidão já possuía mais ou menos confusos ou inconscientes. Nesse caso, a coletividade encontra no orador, como no foco de um espelho, o ponto onde sua opinião se reflete e de onde ela se propaga com uma intensidade multiplicada.

Se, ao contrário, o orador manifesta ideias ou sentimentos que vão de encontro à opinião pública, ele não é aplaudido nem mesmo compreendido.

Quero lembrar, a propósito, a discussão que Mausdley fez entre os homens de gênio: existem, de um lado, aqueles que farejam e exprimem as tendências intelectuais e morais do momento histórico no qual eles vivem; existem, de outro, os precursores, aqueles que pensam com uma novidade e uma ousadia que chocam os hábitos comuns. Os primeiros podem obter a glória durante sua vida, mas esta glória não irá além de sua morte, porque eles são os homens de seu tempo e eles passam com ele. Os segundos terão uma glória de além-túmulo, quando se houver chegado a compreender o homem que havia previsto o amanhã.

Entre essas duas categorias de homens de gênio, existe aquela dos utopistas, ou seja, a dos homens que, ainda que tenham talento, tem tido a infelicidade de expor ideias às quais o progresso humano não aquiesce e que, em conseqüência, permanecem fora da celebridade.

Todos os dias nós assistimos a demonstração prática daquilo que acabo de dizer. Nas assembleias (sobretudo nas assembleias políticas) os oradores mais estimados e que dominam como déspotas o seu público são aqueles que, no fundo, não dizem nada de novo, mas que sabem se aproveitar das paixões e manejar as ideias fundamentais e comuns[2]. Ao contrário, os verdadeiros inovadores, os pensadores profundos e originais encontram, necessariamente, a hostilidade e a ironia.

Eis, pois, segundo penso, o erro da polêmica entre Ferri e Sighele. Este último, reconhecendo que os sentimentos podem se propagar e se adicionar numa multidão, parece não perceber que isso é devido ao fato de que os sentimentos são um patrimônio comum, e que o orador não os cria, mas tão-só os evoca. Em outras palavras, Sighele parece esquecer que, se o orador arrasta atrás dele o seu público, é porque ele diz... aquilo que o público já pensava.

Ferri, de seu lado, reconhecendo que não apenas os sentimentos, mas também as ideias se adicionam e se reforçam numa multidão, é, em minha opinião, — se ele se limita a constatar que as ideias dos indivíduos que formam o público se ampliam pela sugestão de um orador de talento, — porque eles consideram um problema qualquer de um modo menos unilateral e com muito mais de amplidão e de objetividade.

Após cada discussão pública, podem-se constatar dois fatos inegáveis: antes de tudo, que a ideia exposta pelo orador será modificada, e, em segundo lugar, que ela será modificada na opinião de cada um, no sentido de que não mais será uma ideia extrema e ousada, mas bem uma maneira mais exata e mais positiva, ainda que menos geral, de ver as coisas. Ela terá ganhado em extensão, quer dizer, em difusão, aquilo que perdeu em altura, ou seja, em genialidade.

Eis por que, — eu repito, — Sighele tem razão, quando diz que, em relação aos produtos intelectuais, a troca de idéias diminui a intensidade da ideia inicial; e, de outra parte, Ferri também tem razão, porque a discussão, eliminando o perigo das utopias, eleva e mesmo corrige a ideia inicial.

Após isso, eu penso que toda discussão entre sentimentos e idéias, — distinção feita por Sighele e aceita em parte por Ferri, — é inútil. Tudo depende do grau de cultura e de moralidade do público ou da multidão à qual o orador se endereça. Segundo esse grau, um sentimento ou uma ideia podem ser compreendidos ou não, podem criar o entusiasmo ou deixar os ouvintes indiferentes. Para limitar-me ao exemplo relatado por Sighele e Ferri, é evidente que Garibaldi pôde arrastar atrás dele seus compatriotas com a palavra mágica da “unidade da Itália”, porque, em 1859, essa idéia da unidade de nosso país tornara-se um sentimento comum. Alguns séculos antes, por exemplo, na época de Dante, e mesmo algumas dezenas de anos mais cedo, por exemplo, na época napoleônica, essa idéia não era senão o sonho de algumas individualidades geniais, e não teria conseguido inflamar o público.

A propósito, para melhor esclarecer meu pensamento, quero lembrar aqui a teoria do gênio que formulei alhures. O gênio, segundo penso, é um novo ramo que, de tempos em tempos, se desprende da árvore colossal da atividade humana. Do mesmo modo, cada variedade biológica provém de uma espécie preexistente e pode ser considerada como o ponto de partida de uma outra espécie que irá se desenvolvendo e que se afirmará no amanhã. É por isso que as idéias do gênio não podem ter um sucesso imediato, da mesma maneira que a variedade que se anuncia na ordem zoológica ou vegetal não pode ter imediatamente a honra de ser classificada como uma espécie[3].

Hoje ninguém saberia entusiasmar uma tribo de hindus com a palavra igualdade. Esta mesma palavra encontrou muitos obstáculos, quando foi pronunciada pelos primeiros cristãos e, ao contrário, ela sublevou o mundo, quando foi proclamada pela Revolução Francesa; todavia, ela era o símbolo de uma ideia, assim como hoje. Mas, anteriormente, era a ideia de alguns precursores, ideia estranha e mesmo desconhecida do público; a seguir, esta ideia tornou-se comum e mais: a ideia foi transformada em sentimento.

Sílvio Venturi.



[1] SÍLVIO VENTURINI, o distinto médico alienista italiano, acreditou, quando da polêmica entre SIGHELE, TARDE e FERRI, dever intervir no debate por um artigo publicado na Critica Sociale de 1º de dezembro de 1894. SIGHELE resumiu esse artigo que contém novos apanhados.

[2] Ver a respeito SIGHELE, Psychologie des sectes, Giard et Brière, Paris, 1898, p. 195 e seg.

[3] VENTURI, a seguir, desenvolveu essa idéia em seu livro Le mostruosità dello spirito, Milão, 1899.­­

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Recorte de Pesquisa

Uma palavra sobre o batismo

 Em que pese reivindicado por Ferri, o batismo da expressão psicologia coletiva comporta outras referências anteriores a 1884. Pode-se encontrar menção a ela em obra publicada em 1845, fora, todavia, do contexto das multidões e da criminologia, contexto em que Ferri, em tese, aparece como percussor de seu emprego.

Foi Littré (1845) em sua obra intitulada Analyse raisonnée du cours de philosophie positive de M. Auguste Comte quem abordou o assunto, bem antes de Ferri, portanto. Émile Littré, reconhecido dicionarista francês, segundo Petit (2016, passim), já era um autor conhecido quando leu o Cours de philosophie positive de Comte, que aparece em 1839, inaugurando a sociologia. Entusiasmado a princípio, Littré se afastou depois dessa doutrina, de sorte que, em 1852, deixa a sociedade positivista que havia ajudado a fundar quatro anos antes. Todavia, enquanto entusiasta, publicou a pequena obra acima referida, de apenas sessenta e duas páginas. Nela, a expressão psicologia coletiva aparece em contexto ligado à concepção comtiana da sociologia, que Comte via como totalizante, como algo essencial à compreensão da causa e do objetivo de todas as ciências preliminares, — as demais —, comparáveis a “afluentes sucessivos na grande corrente da história” (id., p. 46). Comte pretendia chegar a uma concepção geral de todos os fenômenos, tanto na ordem objetiva como subjetiva, tanto na ordem cósmica como social, ou seja: uma filosofia positiva, com razões plausíveis. Tais razões, contudo, nem a filosofia teológica nem a filosofia metafísica poderiam fornecer. Estas últimas — “aos olhos da filosofia positiva” (id., ibid.) —, teriam “sua origem nas condições essenciais da psicologia coletiva e da evolução histórica” (id., p. 46-47). Elas conduziriam ao erro, porque resultariam de uma perversão do espírito, sem descartar, contudo, resultassem elas — quem sabe? —, de “uma permissão da Providência, cujo julgamento é impenetrável” (id., p. 47). Enfim, o contexto aponta para uma psicologia coletiva que aí aparece apenas como condicionante que bem poderia resultar da própria negação que Comte fez psicologia como tal, que considerava inútil, como afirmou claramente em pelo menos duas ocasiões no segundo volume de seu Cours de philosophie positive.

Comte (1894, p. 652-653) encontrava “uma profunda inanidade necessariamente inerente à psicologia moderna". Isso se deveria, não só a uma “absurda alucinação que caracteriza necessariamente seu modo especial de exploração interior” como ao fato de ela se propor a realizar, “em relação aos mais complexos fenômenos, esse grau inoportuno de análise elementar que se está disposto a eliminar dos mais simples estudos, sem que tenha conseguido apenas conduzir essa inútil investigação até o nível das noções inspiradas de todos os tempos, nesse sentido, pela experiência vulgar” (id., p. 652-653). Mais adiante, não deixa de registrar que a psicologia moderna já deveria ter sido “radicalmente condenada”, assim como ele já teria demonstrado, “seja por sua viciosa instituição do sujeito, seja pelo evidente absurdo de seu principal modo de exploração”, modo este que estaria destinado a fazer uso com um gênero de análise elementar, relativamente aos fenômenos mais complexos, “cujo equivalente foi sabiamente descartado dos estudos mais simples como quimérico e perturbador” (id., p. 691).

Mais tarde encontraremos ainda outra menção à psicologia coletiva, com Nefftzer (1859) que, a propósito de um exame acerca da construção da história, — a morte de Toqueville ocorrera pouco antes — formula uma crítica dirigida justamente à obra de Littré a que nos referimos. Faz isso em sua Chronique parisienne, publicada na Revue Germanique que ele mesmo fundou. Segundo a crônica, Toqueville teria sabido entender a complexidade da história. O patriotismo e os sentimentos pessoais tenderiam a certo exagero, que uma filosofia da história deveria moderar, evitando, pela imparcialidade, cair naquilo que ele chama de um otimismo vulgar (id., p. 233). A palavra progresso, por sua vez, também assumiria sentidos universais, projetando-se em doutrinas, que subjugariam o pensamento. A propósito destas, menciona Littré, que escrevera um opúsculo, obra da qual Nefftzer omite o título, mas que, pelas citações literais que faz, não pode ser outra senão a acima citada, a respeito de Comte. A doutrina positiva seria uma dessas que subjugariam o pensamento, por levar longe demais as especulações humanas.

Eis, assim, o contexto em que a expressão psicologia coletiva aparece anteriormente a Ferri e ao emprego que fez em sua obra sobre Processo Penal. Sem dúvida, a expressão já existia, todavia, — ao menos ao longo do que se pôde apurar até agora na pesquisa — ainda não relacionada ao contexto das multidões que é justamente aquele que nos interessa aqui.  Dessa sorte, Ferri bem poderia permanecer, — como ele mesmo insiste — como o responsável por esse batismo.


Comte, A. (1894). Cours de philosophie positive, 5ed, T. 2. Paris: Au siège de la Société Positiviste.

Littré, E. (1845). Analyse raisonnée du cours de philosophie positive de M. Auguste Comte. Utretch: Kemink & Zoon.


Nefftzer, A. (1859). Chronique parisienne. Revue Germanique, t. VI. Paris: Bureau de la Revue Germanique, pp. 232-285.

Petit, A. (2016). ‪Comte revu et corrigé : le cas Littré‪. Revue européenne des sciences sociales, 54-2(2), 69-88. Recuperado de https://www.cairn.info/revue-europeenne-des-sciences-sociales-2016-2-page-69.htm em 23 de junho de 2019.


quarta-feira, 15 de julho de 2020

Recortes de Pesquisa


"É a besta humana, em toda parte presente, tipo inalterável da espécie. São precisamente essas atitudes, essas tendências, esses fundos comuns de ideias simples, de impressionabilidade excessiva de homens primitivos que são suscetíveis de se adicionarem, de se somarem nas multidões, e que constituem a psicologia desses seres coletivos; porque as altas qualidades do coração e do espírito, pelas quais os homens se distinguem, pelo próprio fato da diferença de suas direções e de suas tendências, se opõe e se neutralizam mutuamente." (Anonyme, 1892, p. 181).

Anonyme. (1892). Causerie Bibliographique. Revue Scientifique, a. 29, t.I. Paris: Bureau des Revues.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Recorte de Pesquisa


Há ainda uma relação interessante e digna de registro que nos vem de um artigo publicado por La Grasserie (1908, p. 225). Ele relaciona a psicologia coletiva à psicologia linguística. O termo psicologia linguística, não obstante exato, seria inusitado, ainda que poucos, porém importantes pensadores, tais como Sayce, Max Müller, Darmesteter, Whitney, Humboldt, Steinthal, tenham se dedicado ao seu estudo. Essa psicologia linguística, todavia, ainda não desfrutaria de uma autonomia nítida, por tratar-se de uma “ciência mista situada entre a psicologia propriamente dita e a linguística”(id. ibid.) razão pela qual teria o que chama de uma inferioridade provisória. Aos psicólogos gerais, pareceria muito técnica e, aos linguistas profissionais, menos nítida que os elementos morfológicos e fonéticos aos quais se deveria a evolução das palavras, das formas e mesmo das ideias. Seu objeto, contudo, teria considerável extensão, extensão esta que nem o psicólogo nem o linguista aprofundaram, razão pela qual demandaria novas investigações que pediriam a colaboração de outros ramos da psicologia. A psicologia, por sua vez, em um plano abstrato e já bem antigo, estudaria o espírito humano em geral. Ela seria antiga e a única psicologia clássica (id., p. 226).  Ao lado dessa psicologia clássica estaria a psicologia individual, concreta, que, ao contrário da primeira, abordaria um dado ser, colocado ao alto da escala biológica, porém distinto de todos os outros. Ele estaria presente nos romances e nas biografias, mas, fosse real ou imaginário, seria sempre individual. Entre essas duas psicologias, estaria a psicologia coletiva, recente e mais ampla do que aquela voltada ao estudo de um único indivíduo, porém mais restrita que a outra, coletiva do gênero humano, limitando-se “grupos mais ou menos extensos e de diversos tipos: psicologia étnica, aquela das classes, aquela das profissões, aquela das raças, aquela das multidões” (id. ibid.). Seriam essas psicologias coletivas às quais a psicologia linguística de relacionaria, abordando porém fatos já separados de seu produtor. Nesse sentido, seria uma psicologia coletiva, voltada a grupos de homens, ao produto de seus pensamentos. A linguagem, conclui Grasserie (id., p. 255), em seus mais variados aspectos, desde sua forma mais elevada que seria a versificação até a mais inferior, a gíria, seriam objeto dessa psicologia linguística, nova, mas nem por isso menos importante no campo da linguagem.

Grasserie, R. de La (1908) De l'ensemble de la psychologie linguistique. Revue philosophique de la France et de l'étranger, t. LXV a. 33. Paris: Félix Alcan, éditeur, pp. 225-255.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Sobre René Worms


Sociólogo francês nascido em Rennes em 1869, segundo o Larousse du XXe. Siècle, foi auditor do Conselho de Estado, ensinou Direito em Caen (1897-1902) e no Instituto Comercial (1902). René fundou o Instituto Internacional de Sociologia. Suas obras filosóficas são: Précis de philosophie e Elements de philosophie scientifique (1891), um estudo sobre a moral de Espinoza, Morale de Spinoza (1892). Além de diversas obras sobre Direito e economia política, ele escreveu uma Philosophie des sciences sociales.
Sob o título de “Organismo e Sociedade” (1896, junho 26, p. 2), aparece, no conservador Le Constitutionnel : journal du commerce, politique et littéraire, menção à obra de mesmo nome então recentemente publicada por René Worms, diretor da Revue Internationale de Sociologie. Tratava-se, segundo a notícia, de livro que teria causado surpresa no mundo intelectual, visto que ali o autor teria desenvolvido uma tese bizarra, ao comparar a sociedade a um corpo humano, extraindo daí um paradigma anatômico que serviria para demonstrar a identidade entre o corpo social e o individual. A psicologia coletiva é também mencionada como “lembrando muito exatamente a psicologia do ser isolado” (id., ibid.), tudo demonstrado em uma obra cujo método, descrito como perfeito, e cujo raciocínio, tido por rigoroso, às vezes pareceria desconcertante, mas “apenas para aqueles que temem um paralelo entre as unidades do corpo social com as células do corpo humano . . . ” (id., ibid.). O articulista identifica aí uma arma valiosa colocada à disposição do coletivismo moderno, conduzindo o leitor pelos labirintos da sociologia, aliás, — afirma —, “tão imperfeitamente iluminados pelos Fouillé, os Spencer, os Durkheim” (id., ibid.). Outra significativa ilação se encontra na conclusão do artigo, que entende como dever dos sociólogos barrar a ascensão “dos pseudo socialistas que, embalados em utopias, querem tomar de assalto o poder” (id., ibid.), algo que viria em desfavor de povos e repúblicas.

Organismo e sociedade (1896, junho 26). Le Constitutionnel : journal du commerce, politique et littéraire, ano 82, n. 29.794, Paris, p. 2.
Mais sobre René Worms em: 
Revue des livres. Tarde, Les Transformations du Droit, par René Worms. Extraído da Revue internationale de Sociologie, 1º. ano, n° 1, janeiro-fevereiro de 1893, p. 101-104. Disponível em Les Classiques des Sciences Sociales. Tradução: Maristela Bleggi Tomasini.

Como citar esta postagem estilo APA

Tomasini, M. (2020). Sobre René Worms. [Blog] Memória Social e Bens Culturais. Disponível em: https://bensculturais.blogspot.com/2020/01/sobre-rene-worms.html [Acesso em: 22 jan 2020].

domingo, 5 de maio de 2019

A propósito


Logo após a morte de Gabriel Tarde, em 13 de maio de 1904, Henry de Varigny (1904, julho 20, p. 3) publica no Le Temps artigo intitulado Les bases de la Sociologie d’aprés Tarde, no qual estimava não ser tarde demais para falar daquele que qualifica como engenhoso filósofo e homem galante, o “sábio gascão que se servia de sua palavra e de sua pluma . . . para prestar serviço à psicologia e à sociologia simultaneamente” (id., ibid.). Ele teria feito ver que a psicologia coletiva, na ordem sociológica, inseria suas bases na psicologia, eliminando assim a noção de entidades sociológicas que o articulista tem por místicas, fazendo menção, a propósito, à participação de Tarde na Conferénse sur l’inter-psychologie, 1903, ocasião em chamara a atenção de todos sobre “a necessidade de estudar a interpsicologia, a ação psicológica de um homem sobre outro homem” Id., ibid.).

Referência: Varigny, H. (1904, julho 20). Les bases de la Sociologie d’aprés Tarde. Le Temps, ano 44, n. 15.738, Paris.

Observação: A propósito, data venia às subjetividades, eu, particularmente, gosto da ideia de encontrar em Gabriel Tarde um homem galante. 

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A Fascinação do crime

Sob o título provocante de La fascination du crime: la jeunesse est pourri, a edição dominical do extremista e provocador Le Matin publica uma entrevista realizada com Scipio Sighele (1908, maio 5), então de passagem por Paris para o lançamento de sua Littérature et criminalitté. O entrevistado começa por expor preliminarmente que ainda havia quem se espantasse com o fascínio que o público dedicava às narrativas criminais, delas buscando detalhes nos jornais com mórbida curiosidade dia a dia crescente. “Todavia — adverte o entrevistado —, um observador calmo e sincero da psicologia coletiva não partilha dessa opinião, que se pretende moral, mas que é apenas ingênua” (id., ibid.). Para Sighele, seria já conhecida a atração que a alma humana experimentava quando diante do que chamou de o espetáculo do mal e por tudo aquilo que havia nisso de terrível e de perverso, muito mais do que se mostrava atraída pelo que havia de simples e honesto no mundo, confirmando a lenda bíblica segundo a qual os frutos da árvore do mal seriam bem mais saborosos que aqueles da árvore do bem. E mesmo a história pouco se deteria sobre as pessoas obscuramente calmas, tranquilas, admiradas em silêncio talvez, mas não sem “esta leve tinta de ironia com a qual se observa no mundo aquilo que é simples, normal e são” (id., ibid.). Porque — explica —, a monotonia dessas figuras prosaicas não provocava nossa imaginação, em busca de figuras mais ousadas, mais singulares, audazes, que provocassem “por seu renome, a inveja; ou, por sua audácia, o frisson do medo; ou, por sua perversidade, o espasmo do horror” (id., ibid.). Não se deveria, contudo, deplorar esse fenômeno, mas antes estudá-lo, — recomenda —, buscando aí uma razão nem mórbida nem vulgar para esse prestígio do mal, para esse apaixonado interesse, ávido de detalhes, que despertam as narrativas criminais. Sighele aí encontra um sentimento inconfessado que se teria ao estudar os crimes, porque nestes estudaríamos a nós mesmos, tudo porque os crimes iluminariam a alma de cada época, refletindo a vida e os costumes vigentes, como “símbolo patológico de tudo aquilo que hurra no fundo de nosso coração, de tudo aquilo que freme nas células de nosso cérebro” (id., ibid.). Bastaria, para convencer-se, comparar a criminalidade antiga com a moderna para encontrar, nos culpados de cada tempo, as influências de cada época manifestas na própria infâmia de seus crimes. Assim, — explica —, as civilizações primitivas baseadas na força comportavam crimes violentos; as que se desenvolviam na base da astúcia estimulavam os embustes; as que se erguiam sobre o domínio econômico, sobre o poder do dinheiro, desenvolveriam uma criminalidade antes cerebral que muscular, procedendo “por meios insidiosos e obscuros: o roubo, a fraude e a falsidade” (id., ibid). De modo que não seriam apenas os meios materiais que mudariam com a criminalidade no tempo: mudaria também sua orientação moral. As tintas religiosas que coloriam os delitos medievais cometidos sob o terror inspirado pelo além, revelavam tendências criminais de desequilibrados e loucos. Disso, porém, não se deveria concluir, — “como ousaria pretender algum míope reacionário” (id. ibid.) —, pela responsabilidade da teologia ou da Igreja. Antes seria mister constatar que “por um fenômeno natural e universal de mimetismo, o crime conforma-se às diferentes épocas e às diferentes atitudes do pensamento humano e sofre a influência das condições do meio histórico” (id., ibid.). Feitas tais observações, Sighele se propôs a responder à pergunta do Le Matin, que consistia em saber qual era, naqueles dias, a característica mais evidente da criminalidade. Ele respondeu que vinha a ser, para ele, não apenas na França como também em todo o mundo tido por civilizado, o enorme e inacreditável aumento da delinquência de menores, verdadeiro exército criminal composto de crianças com menos de dezoito ou de vinte anos que aumentava dia a dia naquele início de século. Afirmou: “É a juventude que está doente! É a juventude que apodrece! É essa doença que se apodera de nossas crianças e que não se manifesta apenas no crime, mas também no suicídio” (id., ibid). A última colocação se explicaria pelo incremento do suicídio infantil, quando aos quinze, aos dez, e mesmo aos seis anos essa prática crescente denunciava o indelével sofrimento daquelas almas levadas a uma ação fatal. Sighele coloca não lhe ser possível, em um artigo de jornal, examinar detidamente as causas desse fenômeno. A mais importante delas, contudo, seria o fato de as crianças entrarem muito cedo na vida, vivendo como adultos, desde logo experimentando o que chamou de contragolpes do destino, experimentando preocupações de deveriam ignorar. Tudo enfim —, diz —, lhe parecia abreviar-se no mundo físico e no mundo moral, de sorte que a própria infância abreviava-se também debaixo da que seria a nossa lei soberana: a pressa. Abolir o máximo possível e no que possível fosse “esses antigos obstáculos que se chamam tempo e espaço, eis o objetivo rumo ao qual corremos vertiginosamente, eis o ideal do qual nos orgulhamos” (id., ibid). E completa dizendo que estaríamos “a caminho de abolir ou, no mínimo, castrar a infância” (id., ibid). E assim como os adultos estariam ficando velhos antes do tempo, também as crianças estariam se tornando homens cedo demais: impulsionadas por sensações superiores à sua idade, “faziam-se homens pelos desejos e pelas paixões, não pela força e pela constância” (id., ibid). Tal a antinomia que, para Sighele, afetava a alma infantil, predispondo-a ao suicídio e ao crime em um século, — afirma — onde não se teria mais tempo de ser jovem.

Referência: Sighele, S. (1908, maio 5). La fascination du crime: la jeunesse est pourri . Le Matin : derniers télégrammes de la nuit, ano 25, n. 8860, Paris, capa.

Imagem: BNF

domingo, 7 de abril de 2019

Morte de Scipio Sighele


Na sessão reservada às notícias internacionais, ao subtítulo de Italie, o conservador Journal des débats politiques et littéraires dedica espaço à Mort de M. Scipio Sighele (1913, outubro 24), apresentado como sociólogo e professor que morrera em Florença, aos 45 anos. Nascido no Trentino, ele passara sua juventude em Milão, onde seu pai desempenhava a função de Procurador Geral do Rei. Sua primeira obra fora La foule criminelle, sob o patrocínio de Cesare Lombroso, obra que, junto a alguns ensaios publicados no Mondo criminale italiano firmaram-lhe a reputação de psicólogo e de escritor. Seguiram-se ainda, entre outras, La copia criminalle, L’Inteligence de la foule, La complicité. Sighele foi um fervoroso adepto do nacionalismo, movimento que surge na Itália e que cresce com a guerra na África. Hostil à Áustria, chegou a ser proibido de ingressar no território daquele país. Em Florença, para onde fora por razões de saúde, a morte imprevista o surpreende. A notícia é finalizada com uma carta de Sighele, escrita de Turim, que teria chegado ao jornal no dia 22 de outubro, — a morte de Sighele é dada como ocorrida em 21 de junho de 1913 —, sob o título de “O irredentismo no Trentino”. Para uma melhor compreensão do homem que foi Scipio Sighele no contexto de uma criminologia nascente, sem falar em sua relevante, senão mesmo a mais fundamental, contribuição para com o nascimento da psicologia coletiva, a carta acima mencionada é traduzida na íntegra, tal como publicada no Journal des débats politiques et littéraires.

Ainda que estejam quase completamente absorvidos pelas eleições gerais, os jornais italianos de todos os partidos não negligenciam em registrar o dia a dia dos fatos que se desenrolam no Trentino e as perseguições das quais os elementos italianos são objeto. Esses fatos confirmam, aliás, os resultados e as previsões das pesquisas realizadas no local pelos enviados especiais de dois grandes jornais sempre desejosos de ver um bom acordo reinar entre as duas nações aliadas, o Corrieri della Sera e o Stampa, pesquisas que demonstram claramente que se tratava, da parte da Áustria, da realização de todo um projeto de desnacionalização. Os exemplares desses jornais foram sucessivamente sequestrados em território austríaco, da mesma forma que os jornais italianos que continham artigos que as autoridades do Tirol julgassem de natureza a excitar a opinião pública.
Enquanto quase não fala mais a respeito dos famosos decretos de Holenhole que permanecem intactos como se deveria esperar, notícias de Trento anunciam que reuniões populares tiveram lugar ontem e anteontem em toda a região do Trentino a propósito da eterna questão de uma universidade italiana na Áustria. Os diversos oradores pediram que Trieste fosse escolhida como sede da futura universidade. A agitação tende a estender-se. Ela terá, por certo, algumas repercussões na península.

Referência: Mort de Scipio Sighele (1913, outubro 24). Journal des débats politiques et littéraires, ano 126, n. 295, Paris, p. 2.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Carta de Henri Bergson a Gustave Le Bon


Leon Dauded (1923, setembro 14), na época em que era diretor político do nacionalista e antirrepublicano L'Action française, que circulou de 1906 a 1944, publicou um virulento artigo onde acusou Henri Bergson de parvoíce, utilizando-se de uma carta que este último escrevera a Gustave Le Bon, a propósito da obra Le déséquilibre du monde publicada naquele mesmo ano. Na carta, Bergson, embora questione o pessimismo de Le Bon, reconhece a considerável contribuição que ele teria aportado na fundação da psicologia coletiva.
Eis o documento traduzido na íntegra:

Escrevo-vos para dizer com que interesse li “O desequilíbrio do mundo”. O livro não é encorajador, ah, não! Não se poderia traçar um quadro mais impressionante das dificuldades da hora presente e da aparente impotência dos homens para superá-las. Não se poderia, não mais, mostrar com mais força a principal causa dessa impotência, que é o desconhecimento das condições materiais e morais da vida dos povos. O amanhã será bom, com efeito, para a psicologia coletiva, esta ciência para a qual tanto haveis contribuído para fundar. Resta saber se vós não levastes o pessimismo um pouco longe. Na raiz de vossa argumentação, eu creio perceber a ideia de que a humanidade não muda, de que os esforços que ela parece fazer há alguns anos para se modificar, para se “racionalizar” estão condenados à impotência: sois severo, por exemplo, para com a Sociedade das Nações. Estimo, aliás, como vós, que a humanidade não mudou até aqui senão bem pouco e muito lentamente. Mas quem sabe um grande esforço de vontade realizado em condições materiais inteiramente novas não daria resultados muito mais rápidos e consideráveis! Limito-me a colocar a questão. Não gastamos muito tempo lendo-vos, porque vosso livro (e este é o maior elogio que se pode fazer a um livro) obriga o leitor a pensar.
Deixai-me, caro amigo, endereçar-vos meus cumprimentos, com a expressão de meus sentimentos afetuosos.

Henri Bergson
da Academia Francesa

Referência: Bergson, H. (1923, setembro 14). Carta a Gustave Le Bon. In: Dauded, L. (1923, setembro 14). La nouvelle ídolo: Bergson-Nigaudinos. L'Action française : organe du nationalisme integral, ano 16, n. 256, Paris: capa.

A preguiça e a lei do menor esforço


Bordeau, J. (1914, janeiro 24) comenta, no Journal des débats politiques et littéraires,  edição então recente da Revue Philosophique, comandada por Ribot, que reunira, em um único número, uma série de ensaios dedicados à vida inconsciente e movimentos em psicologia. O destaque editorial foi dado ao artigo intitulado La paresse et le moindre effort. Obter a maior soma de prazer e bem estar com o mínimo de esforço possível consistiria na tendência ao menor esforço, seja no sentido da preguiça, seja no da economia de forças a serem despendidas na consecução de objetivos. O artigo diferencia a preguiça, que resulta da apatia e que se relacionaria aos tipos fleumáticos, daquela que vira a ser o resultado de uma ação fatigante, mas que jamais levaria alguém a morrer de fome. Deixando de lado as implicações de ordem moral, do ponto de vista da psicologia, Ribot teria aí procurado explicar a preguiça sem julgá-la. Ela seria, em geral, uma espécie de velhice antecipada. A inércia do preguiçoso, todavia, seria congênita; a do velho, adquirida: feita de causas anatômicas, da decadência física, do enfraquecimento da memória, do estreitamento da vida afetiva, do empobrecimento da imaginação, da submissão ao jugo de outrem, — enumera —, porque — explica: “O velho se incrusta no hábito” (id. ibid). O hábito, todavia, importa, porque é nele que se sustenta a lei do menor esforço, não apenas em relação à preguiça, mas ainda à economia. O hábito, atenuando o esforço, favoreceria a atividade humana, transformando o voluntário no involuntário, e até as virtudes — diz ele — seriam hábitos adquiridos. Todavia, — e aí vem o que nos importa referir aqui —, essa tendência quase universal nos indivíduos não se encontraria nas massas, onde o menor esforça se manifesta menos que nas individualidades. Daí o empenho da psicologia coletiva em estudar as tendências impulsivas, as boas e as más, as úteis e as inúteis, nas revoluções, revoltas, tumultos, lutas, assim como nas assembleias e suas deliberações. 

Nota: O Journal des débats politiques et littéraires , fundado por Baudouin em 1789, ocupava-se dos debates da Assembleia nacional. Dez anos depois, com os irmãos Bertin, torna-se o Journal de l'Empire, mas reencontra seu nome depois. Conservador, caracterizou-se pela qualidade da redação e pela diversidade de temas que iam da política à literatura. Circulou até 1944. (Fonte: Galliga, BNF).

Fonte: Bordeau, J. (1914, janeiro 24). Revue Philosophique. La paresse et le moindre effort, Journal des débats politiques et littéraires, ano 126, n. 23,  Paris, capa-2.