O comunismo é a antítese da anarquia. O individualismo, ao contrário, é o seu corolário, a sua quintessência — se assim posso me expressar; eis o que me proponho a demonstrar em uma série de artigos sucessivos.
Como é possível que o comunismo — esse sistema social autoritário, incompatível com os costumes libertários e com o espírito de progresso que nos envolve por todos os lados —, como é possível, pergunto, que há alguns anos essa palavra se encontre acoplada à palavra anarquia, para a maior alegria dos retóricos e dos políticos de todos os matizes? Ora, ora, por um mal-entendido!
Trata-se, portanto, de saber o que é, afinal de contas, o comunismo, essa utopia que já deveria ter sido esmagada há muito tempo sob a queda dos impotentes sentimentalistas de [18]48 e de [18]71.
O comunismo, em seu efeito menos despótico, é uma sociedade regida pela lei da maioria, ou melhor, é uma vasta máquina na qual cada indivíduo é uma engrenagem especial, solidária, ligada às outras engrenagens ou indivíduos, e que deve agir e funcionar não para si mesmo, mas para o bom andamento da máquina, da sociedade ou da maioria.
É a aniquilação completa do indivíduo. É o despotismo igualitário de Minos, Licurgo, Platão e Cabet.
De resto, já vimos isso pelas proclamações dos Iguais babouvistas [seguidores de Graco Babeuf], esses sectários que queriam, em seu furor pelo bem-estar comum e igualitário, não deixar subsistir nada do que constitui a alegria e o prazer do homem do século XIX: a arte, a ciência, a literatura e o luxo. E acaso Cabet não sonhava para os seus icarianos com uma culinária, um mobiliário, vestimentas e divertimentos decretados pelo Estado?
Sei muito bem que os anarquistas se distanciam muito dessas teorias governamentais; mas, enfim, já que se adornam com o rótulo, fatalmente precisam sofrer a sua influência; e é isso o que acontece. Vou provar citando apenas um fato, mas que tem, para aqueles que sabem observar, uma real importância.
Os jornais anarquistas não admitem que os autores dos artigos assinem seus nomes. Por quê? Ah, sim, por que esse anonimato, essa absorção do indivíduo na massa? O que faz o homem não é apenas a sua estrutura corporal, são, e sobretudo, as ideias, a força, os movimentos, o saber-fazer que ele traz consigo.
Pois bem! Essas ideias, essa força, esses movimentos, esse saber-fazer, é preciso que ele os manifeste com a consciência de sua individualidade, já que isso dela faz parte integrante; é isso o que distingue o indivíduo autônomo da engrenagem mecânica. Saibam disto: o poeta, o artista, o cientista, o pensador, o operário habilidoso que realizam uma obra-prima precisam ter a certeza de que a multidão, que se extasia diante do trabalho que o gênio deles executou, saiba que foram eles, Pedro, Paulo ou Tiago, que rimaram, cinzelaram, encontraram, inventaram ou fabricaram essa obra. É vaidade, vocês me dirão? Que seja, mas essa vaidade é natural e pode contribuir para o nosso bem-estar.
Portanto, o anonimato comunista, do ponto de vista social e natural, é contrário à liberdade e à natureza. Os anarquistas não são, logo, lógicos ao se tornarem seus propagadores.
Dito isto, retomo a minha tese: o comunismo só se pode conceber como uma aglomeração de homens cujo interesse comum passará sempre antes do interesse de um.
Não haverá, não poderá haver violências exercidas contra as pessoas, pois a violência só existe onde há opressão. De resto, se o movimento libertário, que nos conduz à autonomia individual, destruirá todos os poderes políticos e sociais, o poder moral não terá a mesma sorte, e é certo que tomará uma extensão que jamais teve até o presente.
Se me objetarem que as ferrovias, os correios, os telégrafos, etc., etc., não podem funcionar no individualismo, respondo: sim, a organização deles se fará, como para todos os ramos da produção, pela associação de interesses.
Concluo resumindo meu pensamento: sendo o comunismo, por sua própria essência, autoritário, os anarquistas devem rejeitar essa concepção, o último suspiro do socialismo utópico; que eles sejam e se proclamem abertamente individualistas, pois aí, e somente aí, serão lógicos.
O individualismo: apenas os ignorantes, os imbecis ou os fanáticos podem se tornar adversários dessa garantia do progresso, da arte e da ciência no futuro.
De fato, até mesmo os monarquistas sinceros estão interessados no triunfo da anarquia, pois eles poderiam se agrupar e formar uma pequena realeza e, a partir do momento em que respeitassem os direitos dos outros indivíduos, não haveria razão alguma para não respeitar os deles.
Se alguém quiser se interpor, estará fazendo o papel de governante. Acautelem-se, camaradas; destruam seus preconceitos autoritários após a Revolução: liberdade, liberdade para todos e, em nome dessa liberdade, não a imponhamos aos infelizes que se recusarem a usá-la. Usemos dela, nós. Eis o individualismo, eis a anarquia.
Precisando esta teoria ser desenvolvida mais amplamente, este será o assunto de um segundo artigo intitulado: Federação ou autoridade.
G. DEHERME.
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Referência: DEHERME, Georges. L'Individualisme: Communisme et Individualisme. L'Autonomie Individuelle: revue mensuelle des ideias anarchistes, Paris, ano 1, n. 1, p. [páginas iniciais], mai. 1887.
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Esta é a tradução do artigo de abertura do primeiríssimo número da revista L'Autonomie Individuelle — A Autonomia Individual —, publicada em maio de 1887. O autor, Georges Deherme, foi uma figura importante do anarquismo e, posteriormente, do movimento de universidades populares na França. Neste texto, ele defende de forma muito apaixonada o anarquismo individualista em oposição ao anarco-comunismo, que ganhava muita força na época.
Georges Deherme (1870–1937). Na época dessa publicação (1887), Deherme era um jovem operário entalhador de madeira de forte engajamento anarquista e proudhoniano. Anos mais tarde, ele foi o principal idealizador das Universidades Populares — Universités Populaires — na França, a partir de 1899. Georges migrou do anarquismo combativo para um "positivismo pragmático" focado na emancipação intelectual e cultural da classe trabalhadora por meio do acesso à arte, à ciência e à literatura — elementos que ele já defendia nesse artigo de 1887. A referência aos “sentimentalistas de 48 e de 71" aponta para a Primavera dos Povos (Revolução de 1848) e à Comuna de Paris (1871). Para os anarquistas individualistas, essas revoluções falharam ou foram esmagadas porque ainda mantiveram estruturas centralizadoras, jacobinas ou "sentimentais" de governo, em vez de libertar o indivíduo de vez. Quando Deherme fala do “despotismo igualitário de Minos, Licurgo, Platão e Cabet": Deherme, ele traça uma linha histórica do que considera o "autoritarismo camuflado de igualdade". Ele cita os legisladores da antiguidade — Minos em Creta, Licurgo em Esparta e a República de Platão — como modelos de Estados que controlavam a vida privada. Ele se refere também a Étienne Cabet e aos Icarianos. Cabet foi um filósofo utópico francês que escreveu Viagem à Icária (1840). Ele propunha uma sociedade comunista onde o Estado determinava rigidamente as roupas, as refeições e as rotinas de trabalho. Para Deherme, isso era um pesadelo geométrico e cinzento. Quanto aos “Iguais babouvistas", eram os seguidores de Graco Babeuf, revolucionário da Revolução Francesa (Conspiração dos Iguais, 1796). Babeuf defendia um comunismo radical e a abolição da propriedade privada. Os críticos da época — e Deherme faz eco a isso — diziam que o projeto babouvista exigia uma "igualdade na pobreza" e o fim das belas-artes, pois a estética era vista por eles como um luxo burguês. No século XIX, a maioria dos jornais anarco-comunistas — como Le Révolté, de Peter Kropotkin — defendia que os artigos não deveriam ser assinados. O argumento deles era coletivista: a ideia pertencia ao movimento, não ao autor, e assinar geraria "vaidade burguesa" e cultos à personalidade. Deherme ataca frontalmente essa prática. Ele argumenta que o apagamento do nome do autor é uma violência cultural. Para ele, o patrimônio intelectual — a ideia, a técnica, a poesia — é a própria extensão da identidade do indivíduo. Tirar o nome de Pierre, Paul ou Jacques do rodapé de um poema ou de um texto político não é emancipação; é transformar o trabalhador cultural em uma "engrenagem mecânica" anônima, repetindo a lógica alienante da própria fábrica capitalista.
