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sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Enamorar-se


“Alguém disse que o enamoramento é a sobrevalorização das diferenças marginais que existem entre uma mulher e outra (ou entre um homem e outro)”.

GINZBURG, Carlo. Huellas. Raíces de un paradigma indiciario. In: Tentativas. México: Universidade Michoacana de San Nicilás de Hidalgo, 2003, p. 93-155, p. 154.

 

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Uma palavra sobre Hobbes e o Leviathan


O pacto entre os homens, ao contrário do que ocorre com os animais, seria artificial, pensava Hobbes, concluindo daí a necessidade de um estado de sujeição para que o pacto fosse duradouro. Um poder que inspirasse o medo teria surgido a partir dessa necessidade, originando a religião e o Estado. Sujeição, reverência, medo que se equilibram pela imaginação de inspiração religiosa. O Leviatã se ergueria assim, a partir do artifício, sujeitando o homem que se torna, ele também, homem artificial.

GINZBURG, Carlo. Medo, reverência, terror. Quatro ensaios de iconografia política. Trad. de Federico Carotti, Joana Angélica d’Avila Melo e Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

domingo, 9 de outubro de 2016

Medo, reverência, terror

"Vivemos num mundo em que os Estados ameaçam com o terror, exercitam-no e às vezes o sofrem. É o mundo de quem procura se apoderar das armas, veneráveis e potentes, da religião, e de quem empunha a religião como uma arma. Um mundo no qual gigantescos Leviatãs se debatem convulsamente ou ficam de tocaia, esperando. Um mundo semelhante àquele pensado e investigado por Hobbes.

Mas alguém poderia sustentar que Hobbes nos ajuda a imaginar não só o presente, como também o futuro: um futuro remoto, não inevitável, e contudo talvez não impossível.48 Suponhamos que a degradação do ambiente aumente até alcançar níveis hoje impensáveis. A poluição do ar, da água e da terra acabaria por ameaçar a sobrevivência de muitas espécies animais, inclusive aquela denominada Homo sapiens sapiens. A essa altura, um controle global, minucioso, sobre o mundo e seus habitantes se tornaria inevitável. A sobrevivência do gênero humano imporia um pacto semelhante àquele postulado por Hobbes: os indivíduos renunciariam às próprias liberdades em favor de um super Estado opressor, de um Leviatã infinitamente mais potente que os passados. O grilhão social estreitaria os mortais num nó férreo, já não contra a “ímpia natureza”, como escrevia Leopardi em La Ginestra [A giesta], mas em socorro a uma natureza frágil, deteriorada, precária.

Um futuro hipotético, que esperamos não se verifique jamais."

GINZBURG, Carlo. Medo, reverência, terror. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Disponível em: < https://pt.scribd.com/document/233115318/Carlo-Ginzburg-Medo-Reverencia-e-Terror >. Acesso em: 09/10/2016.