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sábado, 12 de abril de 2025

O Topo e o Pântano das Redes: o que o Fenômeno MrBeast diz sobre nós?

A cada duas semanas, minha caixa de entrada ganha um presente: a newsletter da L’Humanologue, uma revista francesa que se propõe a explorar o humano em suas múltiplas facetas. Com uma abordagem que mistura antropologia, psicologia e cultura, ela busca entender o que nos move, o que nos define, sem jamais cair em respostas simplistas. Fundada com o objetivo de iluminar as complexidades do comportamento humano, a L’Humanologue entrega conteúdos que, em regra, valem o tempo investido na leitura. É o caso da história de MrBeast, o youtuber que reina absoluto com mais de trezentos e setenta milhões de seguidores nas redes sociais.

Aos 27 anos, MrBeast – ou Jimmy Donaldson, seu nome verdadeiro – é o maior fenômeno do YouTube. Bilionário, ele construiu um império com vídeos que capturam a atenção global. A chamada do artigo é: “Avec plus de 370 millions de followers sur les réseaux sociaux, MrBeast est le youtubeur le plus connu au monde ! Son business florissant a fait de lui un milliardaire. À 27 ans seulement.” Sim, você leu corretamente. São 370.000.000 de seguidores. Trezentos e setenta milhões. Cito literalmente, porque, não fosse a seriedade da fonte, eu duvidaria. Mas o que, afinal, atrai tantos olhares? A curiosidade sobre seus conteúdos é inevitável. Tudo começou com desafios tão absurdos quanto magnéticos: contar de um a cem mil, gravar-se olhando tinta secar por uma hora, fazer um pião girar por um dia inteiro (sem sucesso, aliás). Com o tempo, a escala cresceu. Ele passou a filmar noites na savana africana, protegido por uma jaula de metal, ou a dirigir caminhões em estradas montanhosas à beira de precipícios. Seus desafios também envolvem voluntários em provas que testam limites: ficar dias numa sala branca e vazia por uma grande quantia em dinheiro, escolher entre dividir prêmios com a equipe ou traí-la pelo lucro solitário. De vídeos amadores, MrBeast criou uma máquina de entretenimento, digna de grandes realities.

Mas há um outro lado, menos brilhante, que o artigo da L’Humanologue revela. Apesar da fama e da fortuna, MrBeast confessou estar infeliz. Ele trabalha 15 horas por dia, sem pausas, preso à engrenagem que ele mesmo construiu. A liberdade? Evaporou-se. Sua agenda é ditada por empresas, produções e expectativas alheias. Some-se a isso as críticas: seus desafios, por vezes, são vistos como cruéis, remetendo a experimentos psicológicos duvidosos, como forçar pessoas a dançar até a exaustão por uma recompensa. Há quem o acuse de explorar os limites físicos e morais dos participantes, o que lhe rende insultos e até ameaças de morte. E, no meio disso tudo, ele lida com a doença de Crohn, uma condição inflamatória que traz dores abdominais e fadiga crônica. Riqueza e sucesso, ao que parece, não o blindaram contra o sofrimento.

É fácil, nesse ponto, cair na tentação de julgar as redes sociais como um pântano de conteúdos rasteiros. Afinal, quem nunca tropeçou em vídeos de conspirações malucas, dramatizações exageradas, produções de gosto duvidoso ou amadorismo gritante? Essas são as terras baixas da internet, onde o mau gosto e a polêmica reinam soberanos. Mas e o topo? O que dizer dos conteúdos que, como os de MrBeast, escalam milhões de visualizações e dominam o pódio digital? A questão não é apenas sobre ele, o produtor que, feliz ou infeliz, chegou ao cume de um certo Olimpo virtual. Tampouco é sobre sua vulnerabilidade, exposta aos olhos de quem o segue. A verdadeira pergunta recai sobre o número expressivo de pessoas que o seguem: sua majestade, os espectadores. Quem são esses milhões que param para assistir a uma pintura secar, a um homem preso numa sala branca, a dilemas que testam a ganância ou a resistência? Quem valida, em escala global, esses conteúdos? E por que o faz? Porque outros também o fazem e a chave disso estaria na imitação? Na adesão pela adesão? No “eu também”?

Os vídeos de MrBeast, com sua mistura de absurdo, tensão e espetáculo, são um espelho do nosso tempo. Eles não apenas entretêm – eles revelam. Revelam que a curiosidade é insaciável, que extremos atraem, que o trivial e o grandioso tem mais em comum do que se imagina. Mas o que isso acrescenta? Um momento de distração? Uma pausa na rotina? O que essa escolha – de dedicar tempo ao que é efêmero – diz sobre esses públicos e sobre a vulnerabilidade dos critérios implicados em suas escolhas? Seja como for, indiscutivelmente, são elas, as maiorias. Rendamo-nos, pois, aos seus caprichos; mas  compreendê-los, parece-me fundamental.

Referência: L’Humanologue. (2025, 9 avril). Riche, célèbre et… malheureux. https://lhumanologue.fr/riche-celebre-et-malheureux/

segunda-feira, 15 de julho de 2024

A propósito

Na escrita de uma história, o passado se desdobra em narrativas que se entrelaçam, assinando-nos a tarefa de reconstruir narrativas a partir de fragmentos dispersos no tempo e no espaço. Cada palavra, cada fonte, cada personagem deve ser tomado, portanto, como uma peça crucial desse quebra-cabeça historiográfico. Nossa bússola é a consciência da relatividade e da parcialidade inerentes a essa empreitada. Nosso compromisso não se limita à verdade. Ele vai além dela, quando se preocupa com a integridade do difícil processo de capturar a essência das experiências humanas, das incertezas e complexidades que as permeiam.

 

segunda-feira, 10 de julho de 2023

A propósito

 


Baudrillard tem toda razão quando diz que nossa realidade histórica passa pelo crivo da mídia, inclusive os acontecimentos trágicos do passado. E é tarde demaias para compreendê-los "historicamente". Nossa consciência moral e coletiva também são efeitos midiáticos. Mesmo acontecimentos e ideias são substituíveis, assim como a história, porque tudo pode, simplemente, não ter existido.

sábado, 17 de novembro de 2018

Imprensa como fonte


A utilização de fontes produzidas pela imprensa ― revistas e jornais, dentre outras ― tem como regra a prévia análise da linha editorial. O que orienta os temas daquela determinada publicação que se pretende usar? É possível descobrir ali uma estética editorial? Caso positivo, o que ela nos informa ou quer significar como visão de mundo ali refletida? Considere-se ainda que qualquer publicação impressa se dirige a um público determinado: um sujeito leitor. Esse conjunto de fatores nos fornece as condições de produção daquele material, algo que pode revelar tendências ditadas pelos interesses ali implicados e seu maior ou menor poder de influência. Tais tendências, se e quando corretamente identificadas, podem mesmo ultrapassar em importância os fatos registrados. Há um ideário que atravessa a produção impressa. Ele se mostra tão segmentado quanto os sujeitos leitores, que podem manter pertinências entre eles, interesses comuns. O resultado desse ideário é o aparelhamento da informação que se relativiza. O historiador, se souber ficar atento a essa relativização, colhe dela mais do que o fato revelado, podendo alcançar o próprio interesse ali implicado.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Hora de Despertar

Já não é hora de despertar alguns livros que dormem por aí nas estantes? Com exceção das minhas onde estão bem despertos. 
É que reina silêncio sobre muitos autores que só são examinados em função do descrédito no qual caíram, efeito fatal de que dificilmente escapa qualquer pensamento colocado por escrito.
Porque em lugar de se pensarem tantas novas teorias, talvez o exame de velhas propostas, não obstante o bolor que contenham, nos esclareça mais acerca de nosso presente do que eventualmente retratem ou expliquem o passado ao qual supostamente pertencem. Em que pese objetiva, toda datação é uma artificialidade. A medida do tempo importa apenas aos homens e, no campo dos saberes históricos, a subjetividade prevalece.

domingo, 21 de outubro de 2018

Novas perspectivas

Abordar campos do saber inovadores que, por sua própria natureza, possuem efeito deletério sobre muitos ícones culturais tidos por imutáveis, permanentes, mesmo eternos, não é sem certa inquietação. Acostumados à zona de conforto propiciada pela estabilidade que conferimos às coisas, pensar o mundo a partir do que ele apresenta de essencial em sua concretude requer, sim, uma disposição especial de espírito. Além disso, as ditas fronteiras mantidas entre as disciplinas acabam por gerar apropriações de termos que terminam por não significar mais nada além de meras palavras ou expressões. Presos a uma codificação rígida, congelam, e esta mesma rigidez termina por inviabilizar o pensamento, sobretudo, o pensamento criativo, que reclama liberdade e flexibilidade.
O terreno artístico é fecundo e comporta ousadias.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Como assim, humanidade?

O estatuto biológico é insuficiente para conferir humanidade. Tampouco a Criação, a condição de obra que porventura refletisse imagem e semelhança de um Criador. Nosso tempo é aquele que condiciona nossa humanidade a um aval político, porque ela é mera concessão, um favor que nos é conferido ou negado pelo Estado.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Reflita-se

A chamada "moralidade" se formaria "naturalmente"? Estaria ela sujeita à mesma naturalização que se pode atribuir à formação de nossa individualidade, produto histórico do ambiente no qual o homem se socializa?  A saber se haveria, em qualquer distante
horizonte, uma idealidade ética em cada consciência individual, não obstante a diversidade dos ambientes que originam, por certo, tantas variedades individuais.
É que a ética preocupa.
Sobretudo no momento atual, quando sua relativização se tornou absolutamente indisfarçável.

domingo, 26 de agosto de 2018

Nossa humanidade


Separar problemas de ordem moral de problemas de ordem científica ou técnica é quase um requisito, o mais básico talvez, para o exercício da arte de pensar. O problema da igualdade dos homens, este, sobretudo, talvez seja o que mais atenção demanda. Se o Direito, em sua longa trajetória, já superou a questão igualitária ao menos no campo teórico, e se busca cada vez mais afirmá-la em sua prática, na medida em que realiza os seus ideias, a ciência, por sua vez, no decorrer de sua história, coloca-se diante de uma realidade de não pouca complexidade, porque nela a igualdade entre os homens não resulta de um decreto ou de uma convenção. O caráter empírico das ciências põe cobro a muitas expectativas, dentre as quais a de um belo supostamente intrínseco à natureza. A Psicologia, cujo objeto não refoge ao estudo do indivíduo, procura saber, não estimar. Daí tratarem-se de campos distintos de onde os sentimentos, embora sempre inspiradores, devem ser abstraídos. Assim os homens, eles mesmos como parte da natureza que integram, puderam ser tomados como objeto de uma ciência empírica. Essa apropriação, que o século XIX praticou abertamente e sob o aval da cientificidade, não foi sem consequência. Dividido entre corpo e alma, o homem foi e permanece sendo disputado, ora como filho de deus, ora como mero produto natural. Esse mesmo homem, social e individual, ― porque ser humano é ostentar simultaneamente essas duas condições ―, é ora indivíduo, ora coletividade; ora é portador de uma consciência individual, ora coletiva.

sexta-feira, 23 de março de 2018

A propósito


Seguramente os países são como as suas leis. Porque o Direito, assim como as demais estruturas sociais, aparece como um amálgama de interesses cuja prevalência de uns sobre outros varia ao ritmo das políticas. O Direito, assim, toma as cores do poder e satisfaz a vontade do mais forte. Compreender os mecanismos desse poder e o funcionamento da sociedade, inclusive em suas manifestações de ordem cultural, hábitos e costumes, leva à compreensão de Direito aí vigente. Explica-o, através de elementos significativos dessas fontes heurísticas, tão valiosas quanto as bibliográficas.
Imagem: Vitral que representa São Luis fazendo a justiça. Igreja de Saint Médart, Thouars. Fonte: Wikimedia Commons.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Lugares de Memória



Antes de abordar a questão dos lugares de memória, quero dizer que a melhor parte deste meu espaço é sua descontinuidade. Não pretendo criar nada linear, até porque o tempo, esta matéria prima da vida, é coisa que disputo aos relógios. Vou simplesmente tecer recordações com palavras. A temática da duração sugere que se ultrapasse, que se transcenda a concepção contínua, seja do tempo, seja da memória, e isso nos acontece se conseguirmos nos fixar no instante. Memórias haverá tantas quanto grupos há, porque a história é uma operação eletiva, que requer intelecto, daí pertencer a todos em geral e a ninguém em particular. Memória Social se desencontra da História, no sentido clássico do termo, justamente aí, onde não se emprega o intelecto, mas os sentimentos, as emoções, que outorgam significado àquilo que vivemos. Todavia, é a História que reconhece os lugares de memória que as sociedades constroem para com isso tentar reparar ou inviabilizar perdas. Lugares de memória dão ensejo a rituais onde as memórias se prendem e se integram, não sem desprestigiar a paisagem urbana. Lugares de Memória são materiais e, simultaneamente, simbólicos.  Nessa funcionalidade, conectam perdas e aquisições. Porque na medida que se perdem memórias, adquirem-se  museus, bibliotecas, praças, bem como ritos, comemorações que buscam compensar o abandono de alguma coisa que foi significativa para o coletivo. Não é o indivíduo que escolhe ou elege um lugar de memória, lugar este que dará, por sua vez, lugar a ritos, onde o grupo se subtrai à linearidade do tempo comum. Emerge daí uma indiscutível sensação de nostalgia, que cresce com a saudade, que aumenta nesses espaços, fazendo reviver uma experiência, uma recordação.
A foto foi tirada na Pinacoteca de São Paulo.