Ele tinha 104 anos, muito a dizer e muitos a inspirar. Talvez não seja exagero afirmar que as Ciências Sociais devem bastante a esse pensador que insistia sempre na importância da multiplicidade de olhares. Seu amigo Jean-François Dortier escreveu-lhe uma carta, publicada na revista Sciences Humaines e traduzida a seguir.
Meu querido Edgar,
Todo mundo acredita que você está morto. Mas nós dois sabemos, você e eu, que isso não é — inteiramente — verdade.
Desde seu primeiro grande livro, O Homem e a Morte (1951), você tinha apenas trinta anos e já carregava toda uma vida. Nele, explicava que os seres humanos não se distinguem apenas pela consciência da morte — aquela de que falava Heidegger —, mas por sua capacidade de negá-la.
Primeiro, por meio da religião, que promete à alma uma sobrevivência. Você não acreditava realmente nisso, embora... Quando Edwige, sua segunda esposa, morreu, a dor o levou até um xamã, na tentativa de restabelecer contato com ela.
Depois, pela medicina, pela ciência, pela técnica, por todos os esforços que os humanos fazem para empurrar para mais longe os limites de sua existência. Você olhava com ceticismo para os delírios transumanistas: o essencial, dizia, não é fabricar um homem aumentado, mas um homem melhor.
E, quando falávamos de tudo isso, você gostava de lembrar que o grande mistério não é a morte — é a vida.
Também me recordo do pacto que havíamos feito. Quando você partisse desta para melhor — naquela noite —, continuaríamos em contato assim mesmo. Sei que seu fantasma continuará vagando ao meu redor por muito tempo.
Muitas de suas ideias me alimentaram e são fundadoras da aventura de Sciences Humaines e de L'Humanologue. Essa é uma lição de nossa “humanologia”: os seres humanos são seres complexos, que combinam um corpo vivo com espíritos invisíveis — ideias, sonhos, saberes — e personagens fantasmáticos que os habitam durante toda a vida.
Por muito tempo seu fantasma irá me assombrar. Continuaremos a conversar, discutir, rir e cantar como fazíamos juntos
É notável como a questão clássica da morte se inverte aqui. A continuidade da existência nas consciências alheias, nas ideias transmitidas e nos vínculos construídos parece conferir sentido ao desaparecimento, permitindo uma forma de permanência na memória e na cultura.
Isso era muito próprio de Morin: recusar separações rígidas entre razão e imaginação. Mesmo diante da morte, ele não via aí apenas um fato biológico, mas também um fenômeno humano atravessado por afetos, símbolos, memórias e narrativas. Talvez por isso seu amigo pudesse escrever-lhe uma carta após sua partida — e talvez por isso ela faça tanto sentido.
Dortier, J.-F. (2026, 30 de maio; atualizado em 1 de junho de 2026). Edgar Morin n'est pas mort ! Sciences Humaines. https://www.scienceshumaines.com/edgar-morin-pas-mort
