CARTOMANTE ROMANA
MADAME MODESTA
Tendo praticado em Roma, Napoles e no Rio de Janeiro, nas capitaes
platinas e com os melhores professores de occultismo arranja todos os negócios,
dá toda felicidade da vida, tanto em amores como em casamentos difficeis e
contrariados das familias, e a unica que tira a sorte com as 78 cartas
egyptianas. Chama a attenção dos seus clientes que tem de Roma, breves de
Talismans que servem para toda a felicidade da vida e também para ganhar no
jogo. Faz também qualquer trabalho que a pessoa desejar. Dão-se
passe e também cura qualquer doença de senhora. Vendem-se as legitimas
pedras de servar estrangeiras. Roma. Attende diariamente em sua residencia á
rua Ramiro Barcelos n. 209, Bondes E e C encarnado. Casa de familia. Porto
Alegre.
Descubro o anúncio no periódico
semanal Città di Caxias, fundado em 1913 e voltado à comunidade italiana. Na
edição n° 446, de 26 de abril de 1922, ao lado de reclames que exaltavam as
propriedades do xarope Bromil e da beberagem conhecida como “A Saúde da Mulher”,
remédio que prometia regular o ciclo menstrual e outros males que afetavam “as
senhoras”, eis que me aparece Madame Modesta, alguém cuja autoridade nos vem validada
do exterior. Ela é de Roma, de Nápoles, é
do Rio de Janeiro e das capitais platinas. Um currículo internacional nada
incomum entre cartomantes, magnetizadores e ocultistas da época. Na origem, um
prestígio que se pretendia indesmentível.
A oferta, porém, é tentadora. Madame Modesta arranja
negócios, traz felicidade amorosa, soluciona casamentos difíceis, reconcilia
famílias. Afinal, ela lê as 78 cartas egípcias, vende talismãs e pedras preciosas, ajuda a ganhar
no jogo, faz “trabalhos”, dá passes, cura “doenças de senhora” ― males que não afligem
as moças, bem entendido.
Não a procura quem não quer. Há endereço e a linha
do bonde está indicada. Esse anúncio retrata
bem o imaginário da época, revelando medos, desejos e expectativas. A frase: "a única que tira a
sorte com as 78 cartas egyptianas" é puro marketing de
1922 que funciona até hoje.
Entre talismãs romanos, cartas
egípcias e promessas de felicidade, Madame Modesta anunciava também a venda das
"legítimas pedras de cevar estrangeiras". A expressão, hoje quase
esquecida, designa a magnetita, pedra naturalmente magnética que, segundo a
tradição popular e esotérica, deveria ser "cevada" — alimentada com
limalha de ferro — para conservar e ampliar seu poder de atrair prosperidade,
proteção e boa fortuna. O anúncio revela como ciência, magnetismo e magia
conviviam naturalmente no imaginário urbano das primeiras décadas do século XX.
Parece que muita coisa não mudou com
o tempo.
A sociedade ainda organiza
simbolicamente a esperança diante das três grandes fragilidades da vida: ser
amado, permanecer vivo e encontrar meios para continuar existindo. E os
anúncios, nesse contexto, deixam de ser curiosidades, para darem testemunho da
permanência de uma economia simbólica.
A questão intuitiva nem é tanto
"intuição". É leitura de cenário. Saúde, dinheiro ou amor ou as três
se estampam nos semblantes e nos gestos. A ansiedade da incerteza. A
necessidade de reforço da esperança. Porque amar sozinho é desesperador; porque
viver sem dinheiro é impossível; e porque a doença aterroriza, ameaça,
reescreve destinos. São também desconhecidos mistérios que queremos sempre
sondar. Crer em todos os sinais que confirmem o amor e desviar daqueles que o
desmentem. Porque a validação do outro é essencial, é parte do espelho que
confirma quem somos. A pressão do mercado, é também sobrevida, porque não ter é
não ser na sociedade de mercado. E o dado secreto da moeda saúde/doença não é
menos moeda do mercado que anuncia saúde e juventude ao alcance do bolso. O
papel social desses traficantes da esperança só é menos expressivo e mais
modesto do que o mercado da salvação, bem mais ambicioso até, contando de
colocado para além das exéquias. Todavia, os mestres do oculto, as cartomantes,
videntes e outros são traficantes desse além. É a vida presente que importa,
porque o sacrifício do corpo e dos desejos parece injusto quanto mais que ao
descompasso da plenitude do além.
Cem anos depois, o endereço na rua Ramiro Barcelos pode ser outro e os bondes já não passam por lá. Contudo, a fila de clientes desse mercado continua dobrando a esquina. Madame Modesta renasce em cada promessa de amor, saúde e fortuna fácil — produtos cobiçados que consumimos diariamente. Afinal, ela não vendia apenas o que estava escrito no jornal. Madame Modesta vendia esperança.
FONTE: Città di Caxias. (1922, 26 de abril). Ano X (N. 446). Caxias, Rio Grande
do Sul, Brasil. URL
Imagem gerada pelo GEMINI