Em 2 de maio de 1925, o Diário de S. Luiz publicou uma curiosa notícia. Os fatos aconteceram em Berlim, mas repercutiram entre os leitores ludovicenses. A princípio, era um mistério: várias moças procuraram a polícia para comunicar ter sido abordadas por um misterioso desconhecido que lhes cortara as tranças à força. Uma tragédia, sem dúvida, pois ninguém ignora a relação entre a vaidade feminina e uma bela cabeleira.
Todavia, diante da “tragédia”, era necessário ceder ao inevitável. A solução que restava às vítimas do misterioso ladrão era “remediar” o mal aparando os cabelos à la garçonne — ou seja, replicar o corte que estava no auge da moda. Contudo, o mistério terminou quando uma das vítimas foi flagrada com a própria trança guardada na bolsa. As outras “vítimas” continuaram a afirmar sua inocência, mas a história já não convencia mais ninguém. O jornal, com bom humor, encerrou o caso com a frase: “Quando a mulher quer…”.
A história, ao mesmo tempo engraçada e reveladora, provoca reflexões sobre a moda e os mecanismos da imitação: o contágio das ideias no meio social e sua propagação, nunca isenta de resistências. Mesmo em uma cidade como São Luís, ainda distante dos grandes centros cosmopolitas, um fato vindo de longe virava notícia — sinal de que o desejo de aderir ao novo modelo feminino que impactou a década de 1920 suscitava interesse no público feminino e, não menos, no masculino.
Quem se der ao trabalho de buscar mais informações sobre como essa novidade — que encurtou as tradicionais e longas madeixas femininas — repercutia, encontrará, no mesmo Diário de S. Luiz de 27 de setembro de 1924 (alguns meses antes), uma notícia intitulada “Respingos”. O texto tratava da repercussão do protesto de estudantes mexicanos revoltados com o corte de cabelos, tratado pelo jornal como essa “brincadeira de muito mau gosto posta em prática pela mulher”.
O tom dos comentários não poupava das piores críticas aquelas que cederam ao modismo, especialmente as “mais velhas”, tidas como “descompensadas”. O jornalista, depois de confessar sua perplexidade, afirmava não compreender a mulher sem cabelos. Ele admitia, porém, que, assim como havia quem gostasse de café sem açúcar, não era improvável que dois ou três moços pudessem tolerar um pescoço raspado.
O Diário de S. Luiz, contudo, não contou que os protestos ocorridos no México, em frente à Escola de Medicina, não foram exatamente uma “brincadeira”. Segundo A Folha do Povo (também do Maranhão, edição de 17 de setembro de 1924), as moças de cabelos curtos que passavam pelo local foram ameaçadas de ter suas cabeças raspadas. Houve gritos, ameaças e água jogada sobre elas, sendo necessária a intervenção policial para conter os manifestantes.
Essa ansiedade masculina diante de mulheres de cabelos curtos traduzia bem mais um desconforto frente a uma promessa de emancipação do que uma simples rejeição à moda. Há registros de que, em uma assembleia da Wholesale Beauty Trade Association de Nova York, realizada em Atlantic City, Charles Nestle — então vice-presidente da entidade — declarou “com ardor e debaixo da maior convicção”, diante de um numeroso auditório feminino, que as mulheres que continuassem a adotar a cabeleira à la garçonne não deveriam se admirar se vissem, em breve, crescer-lhes barba como nos homens, por força de “um deslocamento da atividade do sistema capilar”. Trata-se de um pseudo-argumento científico que buscava, por meio da biologia, conferir autoridade a concepções tradicionais sobre os papéis de gênero.
Todo esse contexto sugere mulheres entusiasmadas e homens perplexos. Não é para menos. Historicamente, a feminilidade esteve associada aos cabelos compridos, a ponto de o tema render uma das frases mais célebres — e hoje francamente misógina — de Schopenhauer, que definiu as mulheres como “criaturas de cabelos longos e ideias curtas”. O simbolismo dos cabelos, afinal, é marcante na história: vai da força de Sansão às tranças de Rapunzel, passando pela tradição cristã — com a pecadora de Betânia lavando os pés de Jesus e secando-os com suas madeixas.
Na sociedade brasileira da Primeira República, o cabelo comprido funcionava quase como um código social. Meninas podiam usá-lo solto ou trançado; a moças e senhoras, recomendava-se prendê-los com elaboração e criatividade — em coques, penteados complexos ou sob chapéus (que figuravam quase como item obrigatório). Uma senhora de cabelo longo e solto em público sugeria algo inconveniente ou fora do lugar.
Minha avó, nascida em 1899, já era casada e mãe em 1925. Ela pertencia exatamente àquela geração que assistiu à chegada da moda à la garçonne com uma mistura de fascínio e cautela. Para muitas mulheres casadas e “respeitáveis” da época, o corte era visto como uma ruptura inaceitável em contextos conservadores. Minha avó nunca ousou adotar o corte à la garçonne, é verdade; mas, em relação às filhas pequenas, não hesitou. Prova disso é a fotografia que ilustra esta postagem, tirada em 1927, em Livramento, interior do Rio Grande do Sul: o casal acompanhado de três meninas, duas das quais já exibem o corte “da moda”.
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Diário de S. Luiz. (1925, 2 de maio). O que a mulher quer... Os mysteriosos cortadores de cabellos. Ano V, n. 400.
Folha do Povo. (1924, 17 de setembro). Respingos. Ano III, n. 166.
Folha do Povo. (1925, 10 de julho). Cabellos à la garçonne. Ano III, n. 158.


