Você já ouviu falar do precariado? A nova classe
social considerada
perigosa? Eu diria que existe até mesmo
alguma chance de você se descobrir como um de seus integrantes. Aliás, este é o
meu caso. Guy Standing, um economista bastante respeitado, lançou, em 2011, um
livro intitulado
The Precariat: The New Dangerous Class. É
deste livro que vou falar, sobre as ideias e conceitos ali descritos há mais de
uma década, observações e previsões de cenário que o tempo não desmentiu. O
fenômeno é mundial. No Brasil, é aferível: 37,7% da população trabalha “na
informalidade”, enquanto 39,4 milhões têm “carteira assinada”, segundo dados
recentes do IBGE de 30/12/25. Portanto, saber reconhecer o precariado e avaliar
os seus
perigos pode nos ajudar a entender melhor essa
nova
classe à qual temos boa chance de pertencer.
Quem é o típico integrante do precariado? Eu diria
que ele é alguém que está socialmente exposto, se não mesmo desprotegido. Não
falo de miséria, mas de vulnerabilidade. Isso acontece por conta de vínculos
cada vez mais flexíveis nas relações de trabalho, que o expõem às desigualdades
produzidas por uma globalização econômica sistêmica e implacável.
Eu poderia dar muitos exemplos. Mas estou certa de
que você tem amigos diplomados que hoje trabalham com aplicativos. Outros
viraram entregadores. Conheço professores demitidos de universidades que não
encontram mais emprego e que passaram a produzir conteúdo nas redes. Todos,
como eu, se sentem “produzindo”, como de fato estão. Nenhum se considera
“desempregado”. Trabalham mais do que antes, dormem menos e não sabem quanto
receberão no fim do mês.
Particularmente, não consigo reduzir tanta gente a
estatísticas. Estas, contudo, confirmam, de forma categórica, que doutorado não
paga contas. Estou nessa lista? Devo admitir que sim. Não me lembro do que são
férias nem viagens e meu sonho de felicidade hoje é ver todos os meus boletos
pagos antes do dia 10.
Como compreender essa nova classe em formação? Por
que ela surge e o que a produz? Quais são seus impactos sociais e econômicos?
Que respostas de natureza política poderiam ser formuladas diante de um
fenômeno com efeitos econômicos, sociais e culturais amplos? E, sobretudo,
estaremos mesmo diante de uma “classe perigosa”?
O precariado é uma classe social emergente, portanto,
nova. Não se trata mais do velho proletariado tradicional, que ocupa as páginas
de velhos compêndios de economia. Tampouco se trata da fila do desemprego, que
reunia jovens sem qualificação e sem experiência. A precariedade da qual falo
inclui atividades laborais temporárias, baixa remuneração, trabalho a tempo
parcial forçado e a ausência de direitos trabalhistas sólidos.
O precariado cresceu significativamente nas últimas
décadas. Por quê? Por conta de um mercado de trabalho cada vez mais flexível,
da terceirização, dos efeitos de um capital investido com o objetivo de
baratear custos da mão de obra e, ainda, de uma cultura alienante do ponto de
vista político e social. Vivemos “cada um por si”. E esta é a fórmula clássica
que mais estimula a competitividade. Em compensação, a solidariedade é cada vez
mais desestimulada. Não há pertencimento coletivo. O velho proletariado
funcionava de modo diferente. Firme no chão da fábrica, o orgulho sindical
gerava e fortalecia a consciência de uma classe formada por quem não dispunha
nem de crédito nem de máquinas — apenas da própria força de trabalho. Moviam-se
informados pela rádio peão, desafiavam patrões e alguns até sabiam
quem era Marx.
O precariado, porém, não nasce da solidariedade,
mas da dispersão. Seus integrantes têm formações e habilidades variadas e vêm
das mais diferentes camadas sociais. Vendem seu tempo e sua força de trabalho
de modo individual e competitivo. No precariado não há nós,
mas eus à deriva, ora voltados a mobilizações progressistas,
ora extremistas.
A insegurança constante ― medo de perder o trabalho
ou o status social ― gera estresse diário e deslocamento interno. O precariado
não tem tempo. Vive sob pressão. Sem raízes nem pautas previsíveis, essa
pressão individual produz frustração acumulada. Quando atinge grupos inteiros,
provoca anomia social que se alastra sem laços sólidos de pertencimento.
A fragmentação destrói vínculos identitários. Isso
ocorre quando o velho orgulho coletivo de uma conquista comum desaparece. No
lugar dele, surge a necessidade de validação individual pelo consumo, que
alivia temporariamente a vulnerabilidade emocional, mas também estimula o
isolamento e o descompromisso político. Coletivamente, a massa precarizada
oscila entre a apatia e os extremismos, porque não tem referências materiais ou
culturais compartilhadas.
Essa interrelação mostra que o precariado não é
apenas uma questão econômica. É um fenômeno social, psicológico e cultural, que
exige respostas nos planos da economia, da saúde e da política.
O precariado difere radicalmente das antigas
categorias estudadas pela psicologia das multidões, como anarquistas,
sindicalistas e outros grupos tradicionalmente marginalizados. Entender esse
fenômeno emergente ajuda a interpretar a dinâmica social e psicológica que
define o nosso tempo: uma contemporaneidade em que a insegurança não se limita
à economia, porque se projeta coletivamente e afeta identidade, solidariedade e
estabilidade social.
Entre as respostas no campo político, Standing
defende a proteção do trabalho e a instituição de uma renda básica universal.
Em termos mais amplos de projeto social, ele propõe o fortalecimento de uma
democracia deliberativa capaz de estimular a solidariedade.
Desde a publicação da obra em 2011, muitas das
previsões e análises de Standing sobre o precariado se confirmaram e
tornaram-se evidentes no cenário global. A precarização do trabalho não para de
crescer, seja pela flexibilização dos vínculos laborais, seja pela expansão do
trabalho temporário, pela informalidade, pela pejotização ou pela
terceirização.
As desigualdades socioeconômicas se intensificam
cada vez mais.
Uma classe perigosa? Será?
Standing pensa que sim.
O precariado convive com a insegurança econômica,
social e identitária. Coletivamente, da mistura desses três ingredientes surgem
estados de ansiedade, alienação e frustração. Ansiedade porque o tempo não se
traduz mais em horas trabalhadas e pagas. Há tarefas a cumprir em prazo certo.
A alienação é óbvia e circunstancial, porque não há nada além da meta. A
frustração completa o quadro: para cada meta cumprida, há outras a cumprir.
Os membros do precariado sobrevivem em um limbo
laboral. Muitos deles possuem competência, inclusive acadêmica. Contudo, sem
estabilidade e garantias mínimas, tornam-se mental e politicamente vulneráveis.
Expostos à exclusão, desenvolvem ressentimentos. Não é raro que manifestem
aversão a migrantes e a outros grupos vulneráveis. Além disso, podem ser
suscetíveis a apelos extremistas. Para Standing, é aí que reside o perigo:
trata-se de uma classe potencialmente reacionária, cuja fragmentação interna
pode levar à hostilidade.
Standing observa que o precariado é, muitas vezes,
um denizen: alguém com direitos limitados, e não um citizen,
um cidadão com garantias legais, sociais e políticas. Como denizen,
ele vive à margem do reconhecimento formal, sem segurança plena ou identidade
estável. Sem políticas públicas, essa classe, exposta ao descrédito e à
desesperança, pode alimentar crises sociais e políticas significativas.
Como vimos, não se trata mais dos desempregados
tradicionais. O precariado inclui trabalhadores qualificados, que sustentam uma
performance constante e enganosa, trabalhando sem descanso em sucessivos ciclos
de esgotamento e ansiedade. Contudo, nem sempre há a percepção da exploração.
Standing afirma que o sistema — vamos chamá-lo assim — convence os integrantes
do precariado de que são competentes, ativos e produtivos. Essa convicção gera
a sensação de que estão no controle: uma ilusão performativa proporcional à sua
vulnerabilidade intelectual e emocional, que os torna suscetíveis ao consumo de
ideias e favorece sua adesão a narrativas extremistas, tanto políticas quanto culturais.
Não há revolta aberta, mas o orgulho de dar
conta de tudo, de antecipar metas, à luz da liberdade de não ter patrão. A
experiência do poder abissal está em ser produtivo até a dor, eficiente até a
enxaqueca. O precariado internaliza o sistema, porque ele vai além da
aceitação. O que foi imposto de fora passa a ser reproduzido por dentro. A
submissão é percebida como autonomia, resultando daí um novo tipo de alienação:
consciente e solitária, porém perigosa coletivamente. Ele internaliza a
disciplina e a autovigilância. Fiscaliza a si mesmo, cobra-se resultados, mede
o próprio valor pelo desempenho. Exaustão é prêmio. Descanso é culpa. Pense
nesse padrão psicológico, reproduzido em larga escala, e você terá como
resultado uma sociedade que faz da ansiedade a própria força de trabalho.
Transformar o sofrimento em virtude gera sobrecarga identitária.
O precariado não se rebela. Ele produz. E, disso
tudo, surge uma refinada forma de alienação, que dissolve um conflito criando
outro, que funciona pelo lado de dentro das pessoas. Quando uma coletividade
inteira começa a operar exatamente como opera o algoritmo que a oprime, há
perigo social. O esgotamento deixa de ser um sintoma individual e passa a
configurar um modo coletivo de funcionamento.
Enfim, não se trata apenas de conceitos ou
tendências políticas.
O precariado não nasce de uma escolha individual.
Ele é fruto de um sistema que desloca, fragmenta e desgasta. Há sempre alguém
ali — com medos, desejos e urgências que não encontram respostas nas
instituições nem nos discursos tradicionais.
Penso que compreender o nosso tempo é um passo
inadiável. Mais do que temer o precariado, importa entender o que ele significa
nessa nova sociedade que todos nós, querendo ou não, integramos e ajudamos a
criar. Se o precariado é ou não uma classe perigosa, a história dirá. A meu
ver, importa, sobretudo, que ele seja consciente. Enquanto isso, seguimos
produzindo, performando e pagando nossos boletos antes do dia 10.
REVISTA VIDA BRASIL