domingo, 24 de maio de 2026

Podololatria


Em tempos de internet hipersegmentada, poucos temas despertam tanta curiosidade — e, ao mesmo tempo, tantos equívocos — quanto os fetiches humanos. Entre fóruns, plataformas especializadas, redes sociais e conteúdos produzidos para entretenimento adulto, a podolatria tornou-se um dos assuntos mais recorrentes quando se fala em sexualidade alternativa. O expressivo número de sites, comunidades e pesquisas dedicadas ao tema demonstra que o interesse não é marginal nem recente: trata-se de um fenômeno amplamente difundido, presente em diferentes culturas e períodos históricos.

Ainda assim, temas ligados à sexualidade exigem abordagem séria, responsável e livre de caricaturas. Fetiches frequentemente são tratados com deboche ou sensacionalismo, quando, na realidade, fazem parte de um campo complexo que envolve neurociência, psicologia, cultura, comportamento e subjetividade humana. Compreender esses fenômenos de maneira informada ajuda não apenas a reduzir estigmas, mas também a promover discussões mais maduras sobre diversidade sexual, consentimento e saúde emocional.

A podolatria — também conhecida como fetiche por pés — é uma das preferências fetichistas mais comuns, antigas e prevalentes da humanidade. Estudos indicam que ela pode representar quase metade dos casos reportados de fetichismo.

A palavra “podolatria” deriva do grego: podós (pé) + latreia (adoração ou veneração). Trata-se de uma atração sexual intensa por pés, tornozelos, dedos, unhas, formato, cheiro, textura ou até por elementos associados, como sapatos, meias e sandálias.

Ao contrário do que muitos imaginam, não se trata de um fenômeno recente surgido na era digital. Há registros históricos dessa preferência em diferentes sociedades. Na China antiga, por exemplo, a prática dos chamados “pés de lótus” valorizava pés pequenos e deformados como símbolos de beleza e erotismo. Já na Grécia e Roma antigas — e posteriormente na era vitoriana europeia — a mera visão de tornozelos femininos podia ser considerada altamente provocante.

Uma das explicações mais conhecidas para o fenômeno vem do neurocientista Vilayanur S. Ramachandran, autor de obras como The Tell-Tale Brain e Phantoms in the Brain. Segundo seus estudos, no córtex somatossensorial — área cerebral responsável pelo mapeamento das sensações corporais —, a região ligada aos pés localiza-se próxima à região relacionada aos órgãos genitais. Essa proximidade poderia favorecer “associações cruzadas” neurológicas, fazendo com que estímulos envolvendo os pés sejam interpretados pelo cérebro como sexualmente excitantes.

Ramachandran observou fenômenos semelhantes em pacientes com síndrome do membro fantasma, nos quais estímulos em determinadas regiões do corpo geravam sensações referidas nos pés ou nos genitais.

Outro estudo amplamente citado é o de Sexologia conduzido por Scorolli et al. (2007), publicado na revista International Journal of Impotence Research. Os pesquisadores analisaram milhares de preferências fetichistas descritas online e concluíram que fetiches relacionados a partes do corpo e objetos associados estão entre os mais comuns: aproximadamente 33% para partes do corpo e 30% para objetos relacionados.

Dentro desse universo, a podofilia apareceu em cerca de 47% dos casos analisados, indicando que o fetiche por pés está longe de ser raro ou “anormal”, constituindo uma das muitas manifestações possíveis da sexualidade humana.

Na prática, a podolatria apresenta diferentes níveis e formas de expressão. Em contextos mais leves, pode envolver apreciação estética, massagens, beijos ou interesse pelo cheiro dos pés. Em níveis moderados, incluem-se práticas como foot worship (adoração dos pés) e uso dos pés durante preliminares ou relações sexuais. Já em dinâmicas mais intensas, podem ocorrer práticas como footjobs, jogos de dominação e submissão envolvendo pés ou foco específico em determinados calçados, como saltos altos e meias.

Quando vivenciada entre adultos, com consentimento mútuo, higiene e ausência de sofrimento psicológico ou prejuízo funcional, a podolatria não é considerada um transtorno pela medicina contemporânea. Tanto o DSM-5 quanto a CID-11 diferenciam parafilias consensuais de transtornos parafílicos propriamente ditos.

Sob a perspectiva psicanalítica, Maria Clarilene Medeiros Salvador Roberto, Marinalda Ferreira Augusto, Olcemir Bernardo da Rocha e Ivana Suely Paiva Bezerra de Mello, no artigo Estudo introdutório acerca do fetichismo (2009), discutem o fetichismo como um mecanismo relacionado à recusa da castração na teoria freudiana. Segundo essa abordagem, o fetiche funcionaria como um substituto simbólico capaz de preservar a ilusão do “falo materno”, surgindo como defesa psíquica diante da descoberta da ausência fálica.

Já o pesquisador R. J. de Oliveira Junior, em Homens, pés e desejo: notas etnográficas sobre a performance da adoração no fetiche da podolatria masculina (2020), analisou práticas de podolatria masculina em redes sociais no Brasil e nos Estados Unidos. A pesquisa acompanhou comunidades online entre 2019 e 2020 e avaliou 55 questionários de usuários brasileiros. Os resultados apontaram predominância de participantes residentes em São Paulo, com idade entre 18 e 29 anos, preferência por pés entre os tamanhos 40 e 44 e forte interesse por elementos como textura de meias e cheiro natural dos pés. O estudo também destacou a presença de dinâmicas de dominação e submissão na chamada “performance da adoração”, conectando experiências online e offline.

Na contemporaneidade, plataformas como OnlyFans e FeetFinder ajudaram a transformar o conteúdo relacionado à podolatria em um mercado significativo. Muitos criadores relatam ganhos financeiros expressivos, enquanto comunidades digitais passaram a discutir o tema com maior naturalidade, reduzindo parte do estigma historicamente associado ao fetichismo.

A sexualidade humana permanece um dos aspectos mais complexos e multifacetados da experiência humana. O que desperta desejo em uma pessoa pode não fazer sentido para outra — e isso, por si só, não representa qualquer anormalidade. O ponto central está sempre no respeito mútuo, no consentimento claro e na comunicação saudável.

Quando não envolvem compulsão, sofrimento ou ausência de consentimento, os fetiches integram a ampla diversidade das vivências humanas. Mais do que motivo para escárnio ou tabu, temas como a podolatria podem servir como oportunidade para refletirmos sobre comportamento, desejo, cultura e os múltiplos caminhos pelos quais a sexualidade se manifesta.

Referências

Oliveira Junior, R. J. de. (2020). Homens, pés e desejo: notas etnográficas sobre a performance da adoração no fetiche da podolatria masculina, no Brasil e nos Estados Unidos. Ponto Urbe, (27). https://doi.org/10.4000/pontourbe.8828

Ramachandran, V. S., & Blakeslee, S. (1998). Phantoms in the brain: Probing the mysteries of the human mind. William Morrow.

Ramachandran, V. S. (2011). The tell-tale brain: A neuroscientist’s quest for what makes us human. W. W. Norton & Company.

segunda-feira, 30 de março de 2026

PRECARIADO: A NOVA CLASSE PERIGOSA


Você já ouviu falar do precariado? A nova classe social considerada perigosa? Eu diria que existe até mesmo alguma chance de você se descobrir como um de seus integrantes. Aliás, este é o meu caso. Guy Standing, um economista bastante respeitado, lançou, em 2011, um livro intitulado The Precariat: The New Dangerous Class. É deste livro que vou falar, sobre as ideias e conceitos ali descritos há mais de uma década, observações e previsões de cenário que o tempo não desmentiu. O fenômeno é mundial. No Brasil, é aferível: 37,7% da população trabalha “na informalidade”, enquanto 39,4 milhões têm “carteira assinada”, segundo dados recentes do IBGE de 30/12/25. Portanto, saber reconhecer o precariado e avaliar os seus perigos pode nos ajudar a entender melhor essa nova classe à qual temos boa chance de pertencer.

Quem é o típico integrante do precariado? Eu diria que ele é alguém que está socialmente exposto, se não mesmo desprotegido. Não falo de miséria, mas de vulnerabilidade. Isso acontece por conta de vínculos cada vez mais flexíveis nas relações de trabalho, que o expõem às desigualdades produzidas por uma globalização econômica sistêmica e implacável.

Eu poderia dar muitos exemplos. Mas estou certa de que você tem amigos diplomados que hoje trabalham com aplicativos. Outros viraram entregadores. Conheço professores demitidos de universidades que não encontram mais emprego e que passaram a produzir conteúdo nas redes. Todos, como eu, se sentem “produzindo”, como de fato estão. Nenhum se considera “desempregado”. Trabalham mais do que antes, dormem menos e não sabem quanto receberão no fim do mês.

Particularmente, não consigo reduzir tanta gente a estatísticas. Estas, contudo, confirmam, de forma categórica, que doutorado não paga contas. Estou nessa lista? Devo admitir que sim. Não me lembro do que são férias nem viagens e meu sonho de felicidade hoje é ver todos os meus boletos pagos antes do dia 10.

Como compreender essa nova classe em formação? Por que ela surge e o que a produz? Quais são seus impactos sociais e econômicos? Que respostas de natureza política poderiam ser formuladas diante de um fenômeno com efeitos econômicos, sociais e culturais amplos? E, sobretudo, estaremos mesmo diante de uma “classe perigosa”?

O precariado é uma classe social emergente, portanto, nova. Não se trata mais do velho proletariado tradicional, que ocupa as páginas de velhos compêndios de economia. Tampouco se trata da fila do desemprego, que reunia jovens sem qualificação e sem experiência. A precariedade da qual falo inclui atividades laborais temporárias, baixa remuneração, trabalho a tempo parcial forçado e a ausência de direitos trabalhistas sólidos.

O precariado cresceu significativamente nas últimas décadas. Por quê? Por conta de um mercado de trabalho cada vez mais flexível, da terceirização, dos efeitos de um capital investido com o objetivo de baratear custos da mão de obra e, ainda, de uma cultura alienante do ponto de vista político e social. Vivemos “cada um por si”. E esta é a fórmula clássica que mais estimula a competitividade. Em compensação, a solidariedade é cada vez mais desestimulada. Não há pertencimento coletivo. O velho proletariado funcionava de modo diferente. Firme no chão da fábrica, o orgulho sindical gerava e fortalecia a consciência de uma classe formada por quem não dispunha nem de crédito nem de máquinas — apenas da própria força de trabalho. Moviam-se informados pela rádio peão, desafiavam patrões e alguns até sabiam quem era Marx.

O precariado, porém, não nasce da solidariedade, mas da dispersão. Seus integrantes têm formações e habilidades variadas e vêm das mais diferentes camadas sociais. Vendem seu tempo e sua força de trabalho de modo individual e competitivo. No precariado não há nós, mas eus à deriva, ora voltados a mobilizações progressistas, ora extremistas.

A insegurança constante ― medo de perder o trabalho ou o status social ― gera estresse diário e deslocamento interno. O precariado não tem tempo. Vive sob pressão. Sem raízes nem pautas previsíveis, essa pressão individual produz frustração acumulada. Quando atinge grupos inteiros, provoca anomia social que se alastra sem laços sólidos de pertencimento.

A fragmentação destrói vínculos identitários. Isso ocorre quando o velho orgulho coletivo de uma conquista comum desaparece. No lugar dele, surge a necessidade de validação individual pelo consumo, que alivia temporariamente a vulnerabilidade emocional, mas também estimula o isolamento e o descompromisso político. Coletivamente, a massa precarizada oscila entre a apatia e os extremismos, porque não tem referências materiais ou culturais compartilhadas.

Essa interrelação mostra que o precariado não é apenas uma questão econômica. É um fenômeno social, psicológico e cultural, que exige respostas nos planos da economia, da saúde e da política.

O precariado difere radicalmente das antigas categorias estudadas pela psicologia das multidões, como anarquistas, sindicalistas e outros grupos tradicionalmente marginalizados. Entender esse fenômeno emergente ajuda a interpretar a dinâmica social e psicológica que define o nosso tempo: uma contemporaneidade em que a insegurança não se limita à economia, porque se projeta coletivamente e afeta identidade, solidariedade e estabilidade social.

Entre as respostas no campo político, Standing defende a proteção do trabalho e a instituição de uma renda básica universal. Em termos mais amplos de projeto social, ele propõe o fortalecimento de uma democracia deliberativa capaz de estimular a solidariedade.

Desde a publicação da obra em 2011, muitas das previsões e análises de Standing sobre o precariado se confirmaram e tornaram-se evidentes no cenário global. A precarização do trabalho não para de crescer, seja pela flexibilização dos vínculos laborais, seja pela expansão do trabalho temporário, pela informalidade, pela pejotização ou pela terceirização.

As desigualdades socioeconômicas se intensificam cada vez mais.

Uma classe perigosa? Será?

Standing pensa que sim.

O precariado convive com a insegurança econômica, social e identitária. Coletivamente, da mistura desses três ingredientes surgem estados de ansiedade, alienação e frustração. Ansiedade porque o tempo não se traduz mais em horas trabalhadas e pagas. Há tarefas a cumprir em prazo certo. A alienação é óbvia e circunstancial, porque não há nada além da meta. A frustração completa o quadro: para cada meta cumprida, há outras a cumprir.

Os membros do precariado sobrevivem em um limbo laboral. Muitos deles possuem competência, inclusive acadêmica. Contudo, sem estabilidade e garantias mínimas, tornam-se mental e politicamente vulneráveis. Expostos à exclusão, desenvolvem ressentimentos. Não é raro que manifestem aversão a migrantes e a outros grupos vulneráveis. Além disso, podem ser suscetíveis a apelos extremistas. Para Standing, é aí que reside o perigo: trata-se de uma classe potencialmente reacionária, cuja fragmentação interna pode levar à hostilidade.

Standing observa que o precariado é, muitas vezes, um denizen: alguém com direitos limitados, e não um citizen, um cidadão com garantias legais, sociais e políticas. Como denizen, ele vive à margem do reconhecimento formal, sem segurança plena ou identidade estável. Sem políticas públicas, essa classe, exposta ao descrédito e à desesperança, pode alimentar crises sociais e políticas significativas.

Como vimos, não se trata mais dos desempregados tradicionais. O precariado inclui trabalhadores qualificados, que sustentam uma performance constante e enganosa, trabalhando sem descanso em sucessivos ciclos de esgotamento e ansiedade. Contudo, nem sempre há a percepção da exploração. Standing afirma que o sistema — vamos chamá-lo assim — convence os integrantes do precariado de que são competentes, ativos e produtivos. Essa convicção gera a sensação de que estão no controle: uma ilusão performativa proporcional à sua vulnerabilidade intelectual e emocional, que os torna suscetíveis ao consumo de ideias e favorece sua adesão a narrativas extremistas, tanto políticas quanto culturais.

 Não há revolta aberta, mas o orgulho de dar conta de tudo, de antecipar metas, à luz da liberdade de não ter patrão. A experiência do poder abissal está em ser produtivo até a dor, eficiente até a enxaqueca. O precariado internaliza o sistema, porque ele vai além da aceitação. O que foi imposto de fora passa a ser reproduzido por dentro. A submissão é percebida como autonomia, resultando daí um novo tipo de alienação: consciente e solitária, porém perigosa coletivamente. Ele internaliza a disciplina e a autovigilância. Fiscaliza a si mesmo, cobra-se resultados, mede o próprio valor pelo desempenho. Exaustão é prêmio. Descanso é culpa. Pense nesse padrão psicológico, reproduzido em larga escala, e você terá como resultado uma sociedade que faz da ansiedade a própria força de trabalho. Transformar o sofrimento em virtude gera sobrecarga identitária.

O precariado não se rebela. Ele produz. E, disso tudo, surge uma refinada forma de alienação, que dissolve um conflito criando outro, que funciona pelo lado de dentro das pessoas. Quando uma coletividade inteira começa a operar exatamente como opera o algoritmo que a oprime, há perigo social. O esgotamento deixa de ser um sintoma individual e passa a configurar um modo coletivo de funcionamento.

Enfim, não se trata apenas de conceitos ou tendências políticas.

O precariado não nasce de uma escolha individual. Ele é fruto de um sistema que desloca, fragmenta e desgasta. Há sempre alguém ali — com medos, desejos e urgências que não encontram respostas nas instituições nem nos discursos tradicionais.

Penso que compreender o nosso tempo é um passo inadiável. Mais do que temer o precariado, importa entender o que ele significa nessa nova sociedade que todos nós, querendo ou não, integramos e ajudamos a criar. Se o precariado é ou não uma classe perigosa, a história dirá. A meu ver, importa, sobretudo, que ele seja consciente. Enquanto isso, seguimos produzindo, performando e pagando nossos boletos antes do dia 10.

 REVISTA VIDA BRASIL

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

POÉTICAS VISUAIS À MÃO LIVRE


POÉTICAS VISUAIS À MÃO LIVRE
reúne três cadernos nos quais a fotografia e as intervenções digitais só entram na segunda parte da produção. São desenhos e aquarelas criados por mim, depois fotografados. Alguns nasceram para ilustrar textos; outros, por nada que não fosse a vontade de desenhar.

Essas imagens, que nasceram físicas, são agora virtualmente reunidas em três Cadernos: Humanidades, Florações e Coisas. Não há legendas explicativas nem narrativas que orientem a leitura, apenas os títulos. Não há busca por unidade formal rígida, mas coletânea e gesto arquivístico.

Em um contexto visual cada vez mais dominado por imagens automatizadas e otimizadas, esta série afirma outro ritmo: lento, artesanal, subjetivo. Não surge como oposição nostálgica à tecnologia, mas como afirmação de uma autoria que assume seus desvios.

Já pintei buscando precisão. Copiei mestres, estudei técnica. Não falo, portanto, da ignorância do ofício. O que crio agora, contudo, não é bonito no sentido convencional do termo. A velha beleza clássica, assim como a via única que levava ao real, se perdeu na pós-modernidade. Até o Impressionismo, a pintura ainda parecia encontrar algum acordo possível com a realidade, mesmo quando esta já começava a se dissolver. A figura ainda se reconhecia, mesmo que instável. O mundo, porém, adormeceu no Surrealismo e acordou fragmentado. A realidade deixou de ser sonho para se tornar tensão: dura, cúbica, geométrica, abstrata. Desde então, algo se quebrou de modo irreversível na relação entre o humano e sua imagem.

Pintar e desenhar no século XXI significa ir ao encontro do gesto transgressor e, a partir dele, criar a impermanência. Os três Cadernos que integram POÉTICAS VISUAIS À MÃO LIVRE são registros de um fazer que ainda acredita na mão, no traçado e no erro como parte do processo. Este fazer artesanal opta pela lentidão quando tudo convida à pressa. Publicá-los significa apoiar o gesto manual em face de imagens que, cada vez mais, migram velozmente rumo à virtualidade.

O que o leitor encontrará em meus Cadernos, portanto, depende inteiramente do seu olhar, de seu gosto, de suas preferências e de sua mais livre interpretação. Na escrita, raramente me afasto da rigidez ortodoxa; mas, em matéria de cores, riscos e palavras, não impeço que a ordem sofra os efeitos do caos. Tudo que faço é então provisório e improvisado.

Aliás, ninguém me obriga a opor Apolo a Dionísio, quando ambos podem ser complementares.

Porque, afinal, a contradição não nos ameaça.

Ela nos habita.

Disponível em:

domingo, 14 de dezembro de 2025

Alquimia

Ouro e vida eterna, a eterna juventude. Elementos que não se reduzem a simples fantasias marginais ou curiosidades históricas. Muito ao contrário, são universais humanos. Onde quer que o homem se reconheça como tal — independente, autoconsciente e diferenciado das demais espécies biológicas — ali estarão o fascínio pelo ouro e a recusa em aceitar passivamente a própria finitude.

Não é temerário afirmar que ouro e imortalidade antecedem sistematizações filosóficas. São como intuições profundas, quase evidências afetivas, que atravessam tempos e lugares. Animais são indiferentes ao ouro; tampouco se angustiam diante da finitude. Já o homem projeta valores simbólicos nessa dupla obsessão, que nos diz menos sobre o mundo natural e mais sobre a condição humana.

É nesse ponto que me ocorre a alquimia e a profundidade de suas origens. Essa prática — arte, ciência, disciplina ou persistência — revela-se particularmente fecunda como objeto de reflexão no campo da memória e mesmo da história. Longe de ser apenas um conjunto arcaico de práticas protoquímicas ou uma superstição pré-científica, gosto de pensar a alquimia como um tipo especial de expressão material da consciência humana. Ela articula, de maneira exemplar, o desejo de transformação da matéria com a esperança de transformação do próprio ser.

Se, de um lado, despertou a ambição em alguns, em outros o ouro era, mais que o metal, a metáfora condensada de perfeição, da incorruptibilidade e da permanência. O elixir não remedia somente o medo da morte. Ele afia a consciência da finitude e a recusa em aceitá-la como destino silencioso.

A alquimia não responde apenas a esses desejos. Sua importância maior talvez seja no estímulo que opera na imaginação, a ponto de alavancar o surgimento de uma linguagem simbólica, polissêmica, essencialmente semiótica. A alquimia não vale apenas por suas ambições literais, que afetam muitos em suas fraquezas. Não se trata das vítimas do reducionismo místico, que tomam seus desejos como crença e devoção. Tampouco é caso de um reducionismo instrumental, típico dos embusteiros que provocam o desejo alheio para usá-lo como variável manipulável. A alquimia vale porque, revelando os aspectos místico e instrumental que ela suscita, dá testemunho histórico da condição humana e de nossa impressionante capacidade de imaginar e de criar.

Quando se assimila alquimia ao misticismo vulgar e intelectualmente pobre, é fácil reduzi-la a erro, patologia ou fraude. Uma desconstrução inteligente, ao contrário, preserva aquilo que nele é produtivo para a imaginação, sem capitular diante de suas pretensões literais. O protocolo recomenda que se use do fio da navalha, estabelecendo critérios claros e precisos. Afinal, a alquimia acontece onde a imaginação e a realidade se tocam. Ela não é marginal à cultura. É constitutiva. A vida social não prescinde de zonas simbólicas, nas quais o real ainda não é nítido. A compreensão dos desejos talvez seja a chave heurística para compreensão de práticas, narrativas, símbolos e instituições ao longo do tempo. 

Imagem:  LA CLEF DE LA GRANDE SCIENCE SUR L’OUVRAGE PHILOSOPHIQUE INCONNU JUSQUES À PRÉSENT ((BnF, Ms-6577. Bibliothèque de l'Arsenal, Ms-6577, fol. 1–32.