domingo, 26 de julho de 2026

Madame Modesta



CARTOMANTE ROMANA

MADAME MODESTA

Tendo praticado em Roma, Napoles e no Rio de Janeiro, nas capitaes platinas e com os melhores professores de occultismo arranja todos os negócios, dá toda felicidade da vida, tanto em amores como em casamentos difficeis e contrariados das familias, e a unica que tira a sorte com as 78 cartas egyptianas. Chama a attenção dos seus clientes que tem de Roma, breves de Talismans que servem para toda a felicidade da vida e também para ganhar no jogo. Faz também qualquer trabalho que a pessoa desejar. Dão-se passe e também cura qualquer doença de senhora. Vendem-se as legitimas pedras de servar estrangeiras. Roma. Attende diariamente em sua residencia á rua Ramiro Barcelos n. 209, Bondes E e C encarnado. Casa de familia. Porto Alegre.

 

Descubro o anúncio no periódico semanal Città di Caxias, fundado em 1913 e voltado à comunidade italiana. Na edição n° 446, de 26 de abril de 1922, ao lado de reclames que exaltavam as propriedades do xarope Bromil e da beberagem conhecida como “A Saúde da Mulher”, remédio que prometia regular o ciclo menstrual e outros males que afetavam “as senhoras”, eis que me aparece Madame Modesta, alguém cuja autoridade nos vem validada do exterior. Ela é de Roma, de Nápoles, é do Rio de Janeiro e das capitais platinas. Um currículo internacional nada incomum entre cartomantes, magnetizadores e ocultistas da época. Na origem, um prestígio que se pretendia indesmentível.

A oferta, porém, é tentadora. Madame Modesta arranja negócios, traz felicidade amorosa, soluciona casamentos difíceis, reconcilia famílias. Afinal, ela lê as 78 cartas egípcias, vende talismãs e pedras preciosas, ajuda a ganhar no jogo, faz “trabalhos”, dá passes, cura “doenças de senhora” ― males que não afligem as moças, bem entendido.  

Não a procura quem não quer. Há endereço e a linha do bonde está indicada. Esse anúncio retrata bem o imaginário da época, revelando medos, desejos e expectativas. A frase: "a única que tira a sorte com as 78 cartas egyptianas" é puro marketing de 1922 que funciona até hoje.

Entre talismãs romanos, cartas egípcias e promessas de felicidade, Madame Modesta anunciava também a venda das "legítimas pedras de cevar estrangeiras". A expressão, hoje quase esquecida, designa a magnetita, pedra naturalmente magnética que, segundo a tradição popular e esotérica, deveria ser "cevada" — alimentada com limalha de ferro — para conservar e ampliar seu poder de atrair prosperidade, proteção e boa fortuna. O anúncio revela como ciência, magnetismo e magia conviviam naturalmente no imaginário urbano das primeiras décadas do século XX.

Parece que muita coisa não mudou com o tempo.

A sociedade ainda organiza simbolicamente a esperança diante das três grandes fragilidades da vida: ser amado, permanecer vivo e encontrar meios para continuar existindo. E os anúncios, nesse contexto, deixam de ser curiosidades, para darem testemunho da permanência de uma economia simbólica.

A questão intuitiva nem é tanto "intuição". É leitura de cenário. Saúde, dinheiro ou amor ou as três se estampam nos semblantes e nos gestos. A ansiedade da incerteza. A necessidade de reforço da esperança. Porque amar sozinho é desesperador; porque viver sem dinheiro é impossível; e porque a doença aterroriza, ameaça, reescreve destinos. São também desconhecidos mistérios que queremos sempre sondar. Crer em todos os sinais que confirmem o amor e desviar daqueles que o desmentem. Porque a validação do outro é essencial, é parte do espelho que confirma quem somos. A pressão do mercado, é também sobrevida, porque não ter é não ser na sociedade de mercado. E o dado secreto da moeda saúde/doença não é menos moeda do mercado que anuncia saúde e juventude ao alcance do bolso. O papel social desses traficantes da esperança só é menos expressivo e mais modesto do que o mercado da salvação, bem mais ambicioso até, contando de colocado para além das exéquias. Todavia, os mestres do oculto, as cartomantes, videntes e outros são traficantes desse além. É a vida presente que importa, porque o sacrifício do corpo e dos desejos parece injusto quanto mais que ao descompasso da plenitude do além.

Cem anos depois, o endereço na rua Ramiro Barcelos pode ser outro e os bondes já não passam por lá. Contudo, a fila de clientes desse mercado continua dobrando a esquina. Madame Modesta renasce em cada promessa de amor, saúde e fortuna fácil — produtos cobiçados que consumimos diariamente. Afinal, ela não vendia apenas o que estava escrito no jornal. Madame Modesta vendia esperança.

 

FONTE:  Città di Caxias. (1922, 26 de abril). Ano X (N. 446). Caxias, Rio Grande do Sul, Brasil. URL

Imagem gerada pelo GEMINI 

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