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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Sobre o Amor e a Luta dos Sexos

 

Reflexões de Wilhelm Stekel em "La Femme Frigide" (1949) 

 Wilhelm Stekel (1868-1940), médico austríaco, discípulo de Freud desde os primórdios do movimento psicanalítico, foi um dos pioneiros da psicanálise. Apesar disso, ele divergiu da ortodoxia freudiana e desenvolveu uma abordagem própria, direta e pragmática. Estudioso dos distúrbios sexuais e das neuroses, Stekel colocou a sexualidade na perspectiva clínica moderna. Em suas obras, combina a observação clínica com uma visão progressista tanto da sexualidade quanto das relações humanas. Suas ideias sobre amor livre, emancipação sexual e crítica às instituições matrimoniais tradicionais o colocaram na vanguarda do pensamento sexual de sua época.

 “A Mulher Frígida” é uma de suas obras mais conhecidas. Denso e volumoso, o livro traz casos clínicos e observações perspicazes. Há uma edição brasileira, mas, curiosamente, nela não se encontram as conclusões do autor, presentes da edição francesa de 1949. São conclusões e observações que merecem divulgação, visto que tratam, com extrema acurácia, seja da frigidez feminina, seja da dinâmica dos relacionamentos. A visão de Stekel é, paradoxalmente, pessimista e esperançosa das relações conjugais e humanas. Para ele, um casamento fundado no amor genuíno — aquele que oferece, em tese, as melhores perspectivas de felicidade e harmonia —, ao contrário do que comumente se acredita, não garante proteção absoluta em face do surgimento de novos sentimentos amorosos.

Como lidar com essa realidade, afinal, tão evidente? Como negar que nossos ideais românticos estejam expostos ao desgaste inevitável imposto pela passagem do tempo? Só os ideais infantis possuem uma qualidade quase indestrutível. Os ideais adultos são complexos que regem as relações maduras. Os anos passam rapidamente. A harmonia espiritual, que caracterizava os primeiros momentos da união, frequentemente se desfaz e dá lugar ao tédio. Um dos parceiros pode continuar desenvolvendo seus potenciais, enquanto o outro permanece estagnado. Uma situação nada incomum, aliás, e da qual resulta um desequilíbrio que corrói a base da relação. Além disso, há o instinto polígamo, o desejo de novidade, o progresso das paixões. Todos esses elementos representam jogos perigosos em qualquer união.

Contudo, não obstante tal cenário, Stekel reconhece que o casamento não se limita a uma comunhão erótica. Ele também é uma comunhão que inclui interesses econômicos e sociais. Ao lado do amor, pode desenvolver-se o sentimento não-erótico de amizade profunda, que talvez constitua o vínculo mais poderoso de uma união duradoura. O hábito, nesse cenário, se mostra como um poder peculiar. Ele forja e solidifica ligações. Assim, apesar dos novos amores que podem surgir, um estado de fidelidade também pode existir e até mesmo se fortalecer após breves períodos de infidelidade. Quando o amor antigo sobrevive a essas provações, ele pode experimentar uma intensificação. A harmonia conjugal torna-se, então, mais profunda e madura. Esta observação de Stekel é particularmente interessante, porque sugere que a fidelidade não é necessariamente estática. Ela pode corresponder a um processo dinâmico de redescoberta e renovação. A condição, naturalmente, é que ambos os parceiros tenham os mesmos direitos e a mesma liberdade de escolha. Todavia, quando o novo parceiro se revela mais compatível, quando um novo ideal desvaloriza o antigo, o casamento deve se dissolver, porque, sem amor, ele se torna imoral. Toda e qualquer forma de constrangimento e chantagem emocional são, aliás, igualmente imorais para Stekel. Essas reflexões levam, naturalmente, a que se questione a própria instituição do casamento monogâmico, embora ele represente, provavelmente, a única solução possível do problema social sexual.

Interessante também é a proposta de Stekel de um "casamento experimental" de quatro anos, uma ideia revolucionária para a época. As mulheres, contrariamente ao que se poderia esperar, são frequentemente as primeiras a se submeterem a julgamentos tradicionais sobre fidelidade, mesmo quando esses julgamentos as prejudicam. Uma das observações mais penetrantes feitas por Stekel se refere à natureza do adultério feminino. Para ele, na maioria dos casos, não se trata de uma necessidade sexual propriamente dita, mas de uma arma na luta dos sexos, uma forma de afirmar a personalidade feminina. Muitas mulheres traem seus maridos não por desejo, mas porque procuram no outro aquilo que não conseguem amar no marido, aquilo que as deixa emocionalmente frias na relação conjugal. Paradoxalmente, não é raro que o marido, por conta de um ciúme exagerado, provoque a infidelidade que tanto teme. Stekel observa que mulheres que simulam orgasmos para seus maridos consideram sua própria sexualidade como um defeito a ser vencido. Essas mulheres tentam dessexualizar completamente suas vidas. Com isso, elas excluem não só o prazer sexual, como ainda todas as funções sexuais saudáveis.

O medo do casamento ― que não é incomum ― muitas vezes reflete o terror de ser obrigado a sacrificar a própria personalidade, para abandonar-se completamente ao outro. Stekel identifica aí uma curiosa contradição: este é, precisamente, o objetivo secreto de alguns indivíduos que desejam ardentemente se dissolver no eu amado. Essa dissolução, quando genuína, não é unilateral. Ela representa uma penetração mútua, na qual cada parceiro se sacrifica, sim, mas também, simultaneamente, ganha com isso. Isso é raro. Somente o fogo do verdadeiro amor que pode produzir tal fusão alquímica. E, quando a ligação se torna verdadeiramente indissolúvel, cada separação significa morte ou declínio para ambos os parceiros.

Questões sociais: a decadência das elites, o futuro da civilização e o mito do amor materno. Stekel estende suas reflexões a questões sociais mais amplas, observando como as camadas inferiores da sociedade ascendem, enquanto as superiores parecem incapazes de transmitir suas aquisições culturais. O trabalho de refinamento cultural, lamenta ele, estabeleceu-se apenas para o indivíduo isolado, não mais para a humanidade como um todo. Quando a aristocracia espiritual morre, o progresso humano se detém. A análise demográfica de Stekel é particularmente sombria: ele observa que os camponeses começam a conhecer e aplicar os princípios malthusianos de controle populacional, citando uma suposta oração dos pastores alemães: "Dai-nos vacas e bois, mas não nos dê crianças". As perspectivas para o futuro da Europa, conclui, são desanimadoras, pois "o amanhã pertence ao povo que tiver mulheres fecundas".

Uma das observações mais perturbadoras de Stekel refere-se ao declínio do instinto materno. Contrariamente à crença popular de que o amor materno é um instinto inato e inviolável, suas análises revelam que muitas mães neuróticas carecem completamente desse sentimento, que às vezes se transforma em ódio terrível. Ele observa que o amor materno exagerado frequentemente é suspeito, podendo representar a compensação de uma deplorável carência emocional. São mães que oscilam entre os extremos de uma superproteção ansiosa e da rejeição hostil, criando condições neuróticas em seus filhos. A correlação entre a felicidade conjugal e o amor materno é particularmente reveladora: mães que são infelizes em seus casamentos frequentemente transferem essa infelicidade para suas crianças. Elas detestam os filhos, ou porque não amam o pai, ou porque as crianças representam as correntes que as prendem a um casamento sem amor.

A questão das crianças não desejadas preocupa profundamente Stekel. Ele observa que muitas nascem contra a vontade de seus pais e questiona-se se é surpreendente que essas mães acabem detestando seus filhos. A impressão eterna que uma criança recebe do desejo de destruição materno ― "um ódio inculcado com o sangue materno" ― produz uma aversão fundamental contra a vida. Há também conexões inquietantes entre crianças ilegítimas e comportamentos antissociais, sugerindo que a maioria dos criminosos e anarquistas são produtos de gestações indesejadas. Essa observação, embora controversa, aponta para a importância fundamental do desejo parental na formação da personalidade.

Dilemas da emancipação feminina. A análise de Stekel sobre a emancipação feminina é complexa e, por vezes, contraditória. Ele observa que a mulher moderna se encontra dividida entre ser mulher, ser mãe ou ser amante, como se essas identidades fossem mutuamente excludentes. A mulher que se recusa à profissão materna, sem uma obrigação ética ou social, se subtrai da natureza feminina tanto quanto a amante frígida. Esta reflexão leva Stekel a compreender o fenômeno das mulheres desumanas, que formam batalhões de amazonas ou mães patriotas que enviam seus filhos para a guerra. As verdadeiras mães, argumenta ele, são sempre antimilitaristas, recusando-se a ser máquinas de fazer filhos, para produzir soldados para o Estado. A guerra, aliás, não é apenas um fenômeno político. Toda guerra é sintoma de uma infelicidade coletiva. Na medida em que a liberdade pessoal é suprimida, a compensação se produz violentamente sob a forma de impulsos destrutivos. A guerra aumenta automaticamente todos os vícios: glutonaria, inveja, orgias, cupidez, avidez por prazeres bestiais. Paradoxalmente, ela aumenta também a liberdade sexual, como se observou na Rússia pré-revolucionária, quando a juventude se desviou pelo niilismo, abandonando-se ao amor livre sem restrições e criando assim uma verdadeira epidemia que se apoderou da intelligentsia jovem.

O amor como resposta. A solução proposta por Stekel é radical em sua simplicidade: o direito sexual do indivíduo deve ser reconhecido. O direito ao amor, à felicidade e ao gozo sexual deve ser concedido ao indivíduo, que deve ter o direito de dispor de seu corpo segundo seu desejo, sem prestar contas à moral pública. Contudo, Stekel faz uma distinção crucial: "tenho grande respeito pela santidade do amor para dar esse nome a qualquer desejo sexual". Os homens perderam sua capacidade de amar e encontrar o amor verdadeiro. Se houvesse apenas verdadeiros amantes, não haveria problemas de frigidez nem neuróticos.

Stekel reconhece que o casamento monogâmico, com ou sem sacerdote, reconhecido ou não pelo Estado, será sempre a única possibilidade viável. O problema é complexo, mas cada parte deve ser livre para deixar essa comunhão sem processos e sem explicações detalhadas. Qualquer constrangimento se torna origem de uma reação secreta que tende a subverter aquilo que se pretende proteger. Não se deve entender por amor livre uma vida sexual sem limites nem restrições. Stekel considera o verdadeiro amor como uma obrigação de fidelidade, argumentando que é sempre monógamo e constitui a única proteção real contra a infidelidade.

O problema da fidelidade, por sua vez, é mais complexo do que parece. A disposição polígama humana torna difícil a monogamia mesmo para aqueles que amam verdadeiramente. Contudo, os pequenos afastamentos não deveriam ser considerados trágicos. Um verdadeiro amor liga psíquica e fisicamente dois seres, e sobrevive a todos os perigos, produzindo compreensão mútua e perdão. Para alcançar este ideal, o indivíduo deve ter possibilidade de escolha. Deve, às vezes, passar por todos os estados do amor para encontrar seu ser complementar. O ser humano é, fundamentalmente, um buscador do amor. Ele não é feliz, a não ser que encontre seu amor específico: não o amor em geral, mas o seu amor particular.

A Religião da alegria de viver. Stekel encerra suas conclusões expondo uma visão quase mística. Ele acredita que a humanidade necessita de uma nova religião: a religião da alegria de viver. O amor livre fixará o indivíduo ao seu parceiro muito mais profundamente do que o amor obrigatório jamais conseguiu. Se não puder realizar-se plenamente, o amor morrerá, e toda ligação sem amor é imoral para seres nobres. Citando uma antiga verdade budista, Stekel encerra suas reflexões: "Assim, o comum existe e o nobre existe também; mas há uma liberdade que é superior a toda percepção dos sentidos". Esta liberdade superior não é licenciosidade, mas a capacidade de amar genuinamente, sem constrangimentos externos, criando vínculos que são ao mesmo tempo mais livres e mais profundos do que qualquer imposição social poderia produzir.

Considerações Finais. As reflexões de Stekel sobre amor, sexualidade e sociedade, embora datadas em alguns aspectos, são reveladoras. Sua análise da frigidez feminina como sintoma de questões sociais mais amplas, sua crítica às instituições que constrangem o amor genuíno e sua visão acerca do verdadeiro amor como uma força transformadora permanecem como aspectos capitais nas discussões contemporâneas sobre relacionamentos, sobre autonomia sexual e sobre realização pessoal. Sua compreensão de que a luta dos sexos reflete desequilíbrios sociais mais profundos, bem como sua intuição de que apenas o amor genuíno pode transcender essas lutas, oferece uma perspectiva única sobre os dilemas eternos da condição humana. Ao final, Stekel nos entrega uma verdade simultaneamente simples e complexa: onde o coração e o corpo encontram seu complemento, a luta está terminada. Seres interiormente livres jamais são neuróticos, porque vivem seus conflitos sem dissimulação. Eles conhecem assim uma liberdade superior, que transcende tanto a repressão quanto a libertinagem. Eles descobrem, enfim, a liberdade de amar verdadeiramente.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Anatomia dos Sentimentos do Eu, segundo Wilhelm Stekel

Você conhece Wilhelm Stekel (1868-1940)? Esse psicanalista austríaco faz parte da história da psiquiatria. Inicialmente próximo de Freud, ele foi membro fundador da Sociedade Psicanalítica de Viena. Depois desenvolveu sua própria abordagem e rompeu com o círculo freudiano em 1912. Sua abordagem clínica em psicanálise era direta e intuitiva. Foi pioneiro no estudo dos sonhos, da linguagem simbólica e, especialmente, das neuroses e dos conflitos emocionais do cotidiano.

Stekel captava a essência dos sentimentos humanos, expondo-os de modo preciso. Uma de suas contribuições mais fascinantes diz respeito à sua compreensão da personalidade e dos mecanismos que governam nosso senso de identidade, e é isso que vamos expor aqui.

Para Stekel, "o homem é como ele se sente". Nessa frase simples, ele condensa toda uma teoria sobre a natureza da experiência humana. O que ele chama de "sentimento do eu" é nossa própria personalidade em ação. É a maneira como nos percebemos e nos posicionamos no mundo. Este sentimento, por sua vez, repousa sobre quatro pilares fundamentais: o amor próprio, o respeito, a confiança e a consciência de si. Contudo, há nisso algo de paradoxal: esse sentimento do eu, por mais íntimo e pessoal que pareça, não possui fontes autônomas, porque depende, fundamentalmente, do amor, do respeito, da confiança e do reconhecimento dos outros. Nossa autoestima é, portanto, uma construção social que se alimenta e que se confirma através do olhar alheio: tribunal invisível que nos avalia, valida ou invalida em termos pessoais. De tal dependência resulta nossa vulnerabilidade. Ataques que atingem os sentimentos do eu, mesmo indiretos, geram desprazer. Eles ameaçam a frágil e delicada estrutura de reconhecimento mútuo que sustenta nossa identidade. Stekel observa que há múltiplas maneiras pelas quais o eu se relaciona com o ambiente, e cada uma delas pode se tornar uma porta de entrada para feridas narcísicas.

O mais frequente desses sentimentos desagradáveis, segundo Stekel, é a inveja: a dolorosa convicção de que o patrimônio material ou espiritual do outro supera o nosso. A inveja, esse sentimento primordial, revela a nossa natural tendência à comparação e nossa dificuldade em aceitar a desigualdade inerente à condição humana.

Os ciúmes, por sua vez, representam uma modalidade específica de inveja: a "inveja erótica", o desprazer que nasce da convicção de que o outro é mais amado do que nós. Stekel vê no ciúme um sentimento egoísta que emerge quando a personalidade se sente ferida e não consegue mais sustentar o amor-próprio. É um sentimento primitivo que se opõe a nossas aspirações estéticas e culturais, revelando aspectos arcaicos de nossa psique.

O amor-próprio — que Stekel equipara ao narcisismo — exige do meio uma função especular. Precisamos do mundo como espelho que nos envie uma imagem satisfatória de nós mesmos. O amor, nessa perspectiva, revela sua natureza essencialmente egoísta: "te quero, porque me queres". É uma equação que supõe reciprocidade e que se justifica por meio do desejo mútuo. Uma lógica, porém, que contém em si o germe de sua destruição. Se o amor se baseia na correspondência, ele está sempre à beira de se transformar em ódio quando essa correspondência falha. A fórmula se inverte com facilidade desconcertante: "te odeio, porque não me queres". É por isso que o amor está sempre pronto a se transformar em ódio, visto o compartilhamento que ambos fazem de uma mesma estrutura narcísica básica.

Os ciúmes são a resultante do sentimento da personalidade ferida. Misturando malícia com desconfiança, o ciúme hipertrofia o amor-próprio e, paradoxalmente, soma a isso um sentimento de inferioridade de igual magnitude. É como se o ciumento vivesse simultaneamente uma inflação e uma deflação do ego, ao sentir-se simultaneamente superior na arrogância e inferior na insegurança. Stekel nos oferece sobre isso uma observação psicológica profunda: "Quem crê em si não é ciumento. Quem confia em si, confia nos outros." O ciúme revela, portanto, uma falha na autoconfiança que se projeta sobre o mundo externo. É a projeção das próprias deficiências sobre os demais que alimenta esse amor-próprio brutal e primitivo, tão característico da vida instintiva. Não é à toa que as crianças sejam naturalmente ciumentas. Elas ainda não desenvolveram os mecanismos de autorregulação emocional e de confiança em si mesmas que permitiriam uma forma mais madura de amor-próprio. O ciúme infantil nos lembra que carregamos, mesmo na vida adulta, essas camadas primitivas de funcionamento psíquico.

As observações de Stekel sobre os sentimentos do eu continuam relevantes mesmo depois de décadas. Elas são pertinentes a aspectos fundamentais da experiência humana que transcendem épocas e culturas. Vivemos numa sociedade cada vez mais conectada, onde as comparações sociais se multiplicam e se intensificam através das redes sociais e dos meios digitais. Talvez nunca tenha sido tão atual refletir sobre como nosso senso de identidade depende do reconhecimento alheio e como isso nos torna vulneráveis a sentimentos como inveja e ciúme. A genialidade de Stekel está em nos mostrar que esses sentimentos, por mais desconfortáveis que sejam, fazem parte da própria estrutura de nossa personalidade. Compreendê-los não significa eliminá-los, mas reconhecer sua função na economia psíquica e, talvez, encontrar formas mais maduras e construtivas de lidar com eles.