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quinta-feira, 22 de maio de 2025

Para não se perder no tempo

Esta linha do tempo foi elaborada como um instrumento de orientação cronológica, destinada a estudantes, educadores e qualquer pessoa interessada em compreender a sucessão dos grandes períodos e eventos da História. Em um mundo contemporâneo marcado pelo fluxo incessante de informações, pela multiplicidade de acontecimentos midiáticos e pela sensação de um presente contínuo e, por vezes, caótico, é natural sentir-se desorientado diante da avalanche de fatos que nos cercam. No entanto, situar-se no tempo — reconhecendo as eras, seus marcos e suas transformações — é fundamental para integrar-se de forma mais segura e crítica à realidade atual. Compreender a continuidade e as rupturas históricas nos ajuda a perceber o presente não como um instante isolado e ameaçador, mas como resultado de processos longos, que conferem sentido e profundidade à experiência humana. Esta linha do tempo, portanto, não pretende esgotar a complexidade da História, mas servir como guia para que cada pessoa possa se localizar, refletir e construir uma visão mais ampla e fundamentada do nosso tempo.

Disponível em: PARA NÃO SE PERDER NO TEMPO

 

sábado, 17 de maio de 2025

ESPLENDORES E MISÉRIAS DO AMOR OCIDENTAL: Entre a Ordem, o Caos, Cartas de Amor e Literatura

Este livro é anárquico e repleto de contradições. Rompe com a ordem esperada de um discurso que não é nem acadêmico nem literário, misturando gêneros textuais de maneira imperdoável. Isso pode confundir o leitor que se depara com abordagens muito diferentes entre si. Não obstante isso, todas se voltam ao mesmo tema, refletindo-o a partir de diferentes perspectivas. Em uma longa e densa introdução, não sei bem se justifiquei essa desordem ou se me desculpei por ela.

Não evitei o tom literário e até poético. Sei o quanto ele pode parecer dissonante neste livro, tendo em vista a abordagem de conteúdos acadêmicos produzidos por autores acadêmicos. No entanto, ele também traz literatura e faz literatura. Além disso, é experimental, porque se volta à vida real. Essa promiscuidade ― não faltará quem aplique este adjetivo ― é uma questão delicada que só o leitor pode julgar. Seja como for, sou reincidente nesta falta, visto que estou entre aqueles que entendem que, em matéria de ciências sociais, a subjetividade é inseparável da pesquisa. E, se podemos afirmar que a pesquisa em ciência social recai sobre determinado campo, este é explorado à luz da subjetividade do pesquisador e só a partir desse primeiro passo que terá lugar o processo de legitimação: Quem sou eu para falar de amor? Como e por que me habilito a tanto? Depois, em termos de pressupostos teóricos, penso que o amor se define muito mais pela multiplicidade de pertinências disciplinares que apresenta, bem como pelas incontáveis referências paradigmáticas e epistemológicas que propõe — e isso, independentemente das implicações temporais. O amor atravessa o tempo, e sua natureza proteiforme parece tornar isso possível. Ele se adapta às mais diferentes demandas sociais e culturais, e não seria abusivo supor que o discurso amoroso — sua manifestação rastreável pelo pesquisador — tenha nascido com a escrita.

Quem sou eu para falar de amor? Sou simplesmente aquela que encontrou cartas perdidas, fruto de um descarte, cartas que me levaram da ciência social à história social, à arquivologia, à interdisciplinaridade. A partir de então, estudar o amor foi uma inevitável consequência. Este livro, por sua vez, também foi, a seu modo, inevitável.

É bem verdade que categorizar e simplificar seria o melhor caminho, mas preferi a liberdade. Um mosaico literário, mistura de estilos que não é um simples capricho, mas uma resposta à natureza paradoxal do objeto. Minha escolha arriscada, que passa por uma imperdoável transgressão estética, contudo, foi inevitável, como meio de manter a coerência temática que atravessa cada capítulo.

O que espero do leitor? Além da paciência, que ele possa ler cada capítulo como uma lente e este livro como um caleidoscópio. Porque penso que o amor não pode ser reduzido a uma única narrativa, tampouco a categorizações.

A hibridez, aqui, é não apenas pós-moderna, mas profundamente necessária, pois o amor, em sua essência, resiste à categorização. Não se pode, portanto, esperar dele que se submeta a uma esperável coesão estilística, o que me permite alternar tons teóricos, coloquiais e ficcionais. Muito me esforcei para dar qualidade à escrita em um português que considero polido. Procurei ser rigorosa nos ensaios, empática nas crônicas, metaficcional no conto. Tentei fazer da Introdução um guia e penso que sua leitura será proveitosa.

Que este livro, portanto, não seja lido como um corpo estático, mas como um campo em movimento. Se, em alguma medida, minha escrita pareceu indisciplinada, é porque o objeto também o é. O que ofereço aqui é um olhar que fixa diferentes ângulos, um giro caleidoscópico, para que cada fragmento de amor brilhe à sua maneira, como brilha, brilhou ou brilhará, a seu modo, em cada sujeito em seu tempo e circunstância. Talvez aí resida o sentido maior deste livro. 

Disponível em: ESPLENDORES E MISÉRIAS DO AMOR OCIDENTAL: Entre a Ordem, o Caos, Cartas de Amor e Literatura


sábado, 12 de abril de 2025

O Topo e o Pântano das Redes: o que o Fenômeno MrBeast diz sobre nós?

A cada duas semanas, minha caixa de entrada ganha um presente: a newsletter da L’Humanologue, uma revista francesa que se propõe a explorar o humano em suas múltiplas facetas. Com uma abordagem que mistura antropologia, psicologia e cultura, ela busca entender o que nos move, o que nos define, sem jamais cair em respostas simplistas. Fundada com o objetivo de iluminar as complexidades do comportamento humano, a L’Humanologue entrega conteúdos que, em regra, valem o tempo investido na leitura. É o caso da história de MrBeast, o youtuber que reina absoluto com mais de trezentos e setenta milhões de seguidores nas redes sociais.

Aos 27 anos, MrBeast – ou Jimmy Donaldson, seu nome verdadeiro – é o maior fenômeno do YouTube. Bilionário, ele construiu um império com vídeos que capturam a atenção global. A chamada do artigo é: “Avec plus de 370 millions de followers sur les réseaux sociaux, MrBeast est le youtubeur le plus connu au monde ! Son business florissant a fait de lui un milliardaire. À 27 ans seulement.” Sim, você leu corretamente. São 370.000.000 de seguidores. Trezentos e setenta milhões. Cito literalmente, porque, não fosse a seriedade da fonte, eu duvidaria. Mas o que, afinal, atrai tantos olhares? A curiosidade sobre seus conteúdos é inevitável. Tudo começou com desafios tão absurdos quanto magnéticos: contar de um a cem mil, gravar-se olhando tinta secar por uma hora, fazer um pião girar por um dia inteiro (sem sucesso, aliás). Com o tempo, a escala cresceu. Ele passou a filmar noites na savana africana, protegido por uma jaula de metal, ou a dirigir caminhões em estradas montanhosas à beira de precipícios. Seus desafios também envolvem voluntários em provas que testam limites: ficar dias numa sala branca e vazia por uma grande quantia em dinheiro, escolher entre dividir prêmios com a equipe ou traí-la pelo lucro solitário. De vídeos amadores, MrBeast criou uma máquina de entretenimento, digna de grandes realities.

Mas há um outro lado, menos brilhante, que o artigo da L’Humanologue revela. Apesar da fama e da fortuna, MrBeast confessou estar infeliz. Ele trabalha 15 horas por dia, sem pausas, preso à engrenagem que ele mesmo construiu. A liberdade? Evaporou-se. Sua agenda é ditada por empresas, produções e expectativas alheias. Some-se a isso as críticas: seus desafios, por vezes, são vistos como cruéis, remetendo a experimentos psicológicos duvidosos, como forçar pessoas a dançar até a exaustão por uma recompensa. Há quem o acuse de explorar os limites físicos e morais dos participantes, o que lhe rende insultos e até ameaças de morte. E, no meio disso tudo, ele lida com a doença de Crohn, uma condição inflamatória que traz dores abdominais e fadiga crônica. Riqueza e sucesso, ao que parece, não o blindaram contra o sofrimento.

É fácil, nesse ponto, cair na tentação de julgar as redes sociais como um pântano de conteúdos rasteiros. Afinal, quem nunca tropeçou em vídeos de conspirações malucas, dramatizações exageradas, produções de gosto duvidoso ou amadorismo gritante? Essas são as terras baixas da internet, onde o mau gosto e a polêmica reinam soberanos. Mas e o topo? O que dizer dos conteúdos que, como os de MrBeast, escalam milhões de visualizações e dominam o pódio digital? A questão não é apenas sobre ele, o produtor que, feliz ou infeliz, chegou ao cume de um certo Olimpo virtual. Tampouco é sobre sua vulnerabilidade, exposta aos olhos de quem o segue. A verdadeira pergunta recai sobre o número expressivo de pessoas que o seguem: sua majestade, os espectadores. Quem são esses milhões que param para assistir a uma pintura secar, a um homem preso numa sala branca, a dilemas que testam a ganância ou a resistência? Quem valida, em escala global, esses conteúdos? E por que o faz? Porque outros também o fazem e a chave disso estaria na imitação? Na adesão pela adesão? No “eu também”?

Os vídeos de MrBeast, com sua mistura de absurdo, tensão e espetáculo, são um espelho do nosso tempo. Eles não apenas entretêm – eles revelam. Revelam que a curiosidade é insaciável, que extremos atraem, que o trivial e o grandioso tem mais em comum do que se imagina. Mas o que isso acrescenta? Um momento de distração? Uma pausa na rotina? O que essa escolha – de dedicar tempo ao que é efêmero – diz sobre esses públicos e sobre a vulnerabilidade dos critérios implicados em suas escolhas? Seja como for, indiscutivelmente, são elas, as maiorias. Rendamo-nos, pois, aos seus caprichos; mas  compreendê-los, parece-me fundamental.

Referência: L’Humanologue. (2025, 9 avril). Riche, célèbre et… malheureux. https://lhumanologue.fr/riche-celebre-et-malheureux/