sábado, 11 de janeiro de 2020

Coisas de Comte

"O idiotismo consiste no excesso de objetividade, quando o nosso cérebro se torna demasiado passivo; a loucura propriamente dita, no excesso de subjetividade, devido à atividade desmedida desse aparelho. Mas o grau médio, que constitui a razão, segue ele próprio as variações regulares que experimenta toda existência humana, tanto social, quanto pessoal."

COMTE, Augusto. Catecismo Positivista. Rio de Janeiro: Templo da Humanidade, 1934, pp. 177-178.

PS.: Curioso, não? A propósito, atualizei o português.

domingo, 29 de dezembro de 2019

História Antiga


História Antiga
História Antiga
Maristela Bleggi Tomasini, Priscila Crsitina N. Lopez de Scoville, Raul Róis Schefer Cardoso (Orgs.)
Ano: 2019
Formato: Impresso 21 x 29 cm
ISBN:
Sinopse: Seja bem-vindo à disciplina de História Antiga. Neste livro, exploraremos a historiografia contemporânea a respeito da antiguidade ocidental e oriental, passando por sociedades como a egípcia, a grega e a romana. Ao longo de nossos estudos, trabalharemos para compreender a formação das primeiras civilizações e suas religiões, políticas, economias e culturas, além das relações sociais desses povos.

Com a conclusão dessa etapa da sua caminhada no curso de História, você estará familiarizado com a formação e a queda desses povos, bem como suas relações e legados para a civilização. Esperamos que seja um período de muitos aprendizados. Bons estudos!

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

REVISTA VIDA BRASIL

Imaginação

sábado, 14 de dezembro de 2019

Quando caminhávamos juntos não era exatamente pelas ruas que seguíamos. Porque o entorno, em que pese fosse real, enfeitava-se magicamente à nossa passagem. Nunca era exatamente uma rua ou outra paisagem qualquer em si, porque esses lugares todos se carregavam de algum tipo de emoção só comparável àquela de um sonho realizado.

Imaginação




“Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras”
         Jacques Brel
  



Confesso que não posso dizer ―, nem teria mesmo como afirmar ―, que minhas lembranças sejam todas reais, mas pouco importa que não tenham elas qualquer conexão com o mundo concreto, se é que ele existe.
Quando mergulho em minhas lembranças, penso que o real é para os conformistas e para os conformados. Os primeiros já nascem tendendo sempre aos ismos, por meio dos quais exercem uma espécie de poder totalizador, generalizando suas decepções e fracassos. Os segundos, ainda que a contragosto, acabam por ceder. Conformam-se com o que o mundo lhes entrega já embrulhado e etiquetado. Simplesmente não discutem. Nem ao menos abrem o pacote para conferir o conteúdo.
Penso que não é imperativo conformar-se.
Pode-se criar um real particularmente nosso apenas com a imaginação.

Por isso eu sei, sim, que quando caminhávamos juntos, as paisagens cediam aos caprichos de nossas vontades. Quem poderia negar que fôramos nós os felizes proprietários daquele castelo, palacete que um dia tivera suas portas esculpidas em madeira maciça enfeitadas com maçanetas de porcelana francesa, com tantas sacadas abertas à cidade que se descortinava inteira diante delas, com mármores e enormes banheiras. E havia ainda o deslumbrante lustre de cristal, imponente, que ficava invisível a olhares vulgares, mas que iluminava as nossas refeições. O serviço de copa era quase perfeito. E o castelo, tão aristocrático quanto decadente, foi, afinal, uma de nossas mais saudosas residências. De bom, que assustava a maioria dos curiosos que por ali passassem, como se secretamente aquela velha construção soubesse o quanto é importante disfarçar o próprio contentamento de se estar aqui ou ali.

E quando íamos visitar cemitérios, ― que tais lugares muito têm de atraentes ―, encantava-nos mais que o luxo dos túmulos a agilidade dos gatos que passeavam por ali, observando-nos com a discreta curiosidade tão peculiar aos felinos. Passeávamos por entre os túmulos e nos entregávamos a especulações acerca dos nomes, às vezes conhecidos, e das saudades tão reafirmadas nos dizeres sempre mais ou menos os mesmos.
E havia os parques. Pipocas. Pavões. Gatos. Pandorgas. Até dragões que, tímidos, talvez se escondessem, temerosos, à nossa passagem. Havia sabores deliciosos e exóticos também, singularmente colhidos em recantos inesperados, como a Yakissoba saboreada nos confins da Avenida São João, no bar suspeito, por debaixo do Minhocão que escondia também toda a suntuosidade do antiquário da simpática Dona Ciça, lugar mágico e repleto de tesouros.

Nossos caminhos não deixaram trilhas.
De nós não há registros nas paisagens que nos serviram de cenários.
Como se deixássemos tudo igual como era antes no depois de nós. Talvez as paisagens só se revelem realmente ao olhar da imaginação. Não estaria nela o ingrediente fundamental que facultasse a plenitude do percebido? Não sei. Isso é apenas especulação, e minha racionalidade cética se ressente em ler o que acabo de escrever. Contudo, no fundo, por mais que me conforme ao real, quando não há outro remédio, persiste em mim aquela saudável dúvida quanto à absoluta certeza de que não há bruxas, em que pese a induvidosa realidade de sua existência.
A arte só é arte quando é paradoxal.
E uma ideia maravilhosamente anárquica me surge quando me dou conta dessa deliciosa habilidade que consiste em poder crer, mesmo duvidando da crença, possuindo integralmente o que não se possui, apesar do real.


Autor: Maristela Bleggi Tomasini

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Revista Vida Brasil

Modo viagem

domingo, 15 de setembro de 2019

Recentemente voltei de uma viagem com amigas.Além de aproveitar cada momento, o assunto principal foi saber se teríamos algo a dizer sobre viagens, quando já estamos, todas três, naquela idade na qual, delicadamente, se referem a nós como meninas. Foi mesmo divertido, quando o colaborador da companhia aérea, — um bonitão, aliás —, olhou para nós e, depois de conferir os check-ins, deu um sorriso irresistível e saiu com essa:

Modo viagem

  — “Então, as meninas vão juntas passear pelo Nordeste? ” — “Vamos sim” —, respondemos quase em coro, notando o quanto pode ser divertido o fato de sermos percebidas como senhorinhas, eufemisticamente, meninas.

A idade sugere aos outros que nos vejam a partir de uma suposta fragilidade, de sorte que passam a cuidar de nós. É claro que, tempos atrás, quiséramos antes que o colaborador bonitão nos sorrisse por outros motivos, mas o que importa é que ele sorriu. A velha história do é o que temos. Lembrei-me então de quando Rogério me confessou que estava na fila comum de embarque, quando viu aproximar-se dele uma linda jovem que o olhava fixamente e sorria. Ela, sem pedir licença, tomou-o pelo braço e, persuasiva, disse-lhe: — O senhor vem comigo aqui —, enquanto o conduzia para a fila preferencial.
 
Pois é. Viajar. Quem sabe até eu — que viajo pouco e que nem mesmo gosto de sair de casa —, não tenha alguma coisa a dizer sobre isso. O mundo está cheio de gente que simplesmente adora viajar, que mal chega em casa e já quer sair outra vez. Gente que vive em função de estar fora e que faz o mundo inteiro, — mais o Facebook e o Instagram —, saber onde estão, com quem estão e fazendo quê. Fora aqueles que possuem blogs de viagem, que dão dicas, palpites, opiniões, sugerem destinos e que sabem tudo sobre viajar.

Não é o meu caso. Imagina! Eu? Não. No entanto, pensando bem, talvez justamente por eu ser alguém bem ao estilo não passageira, o que tenha a dizer sobre viajar acabe por ser útil a outras criaturas tão caseiras e rotineiras quanto eu.

Inspirada nessa possível utilidade do que teria a dizer sobre viagens uma não viajante, sentei-me aqui para me divertir um pouco e compartilhar com leitores o que chamo de o meu modo viagem. Entro nele sempre que é preciso deixar para trás minha zona de conforto: meu doce lar, que adoro habitar, repleto de livros, de quadros e de outras velharias além de mim.

Com o tempo, acabei adquirindo manias. Não como qualquer coisa nem durmo em qualquer lugar. Tenho uma série de hábitos que tornam minha pacata vidinha um tanto quanto complicada, ao menos quando penso em sair de uma casa repleta de objetos pessoais. Sem hora para muita coisa, dormindo quando tenho sono, comendo apenas o que gosto e só quando sinto fome, não sou exatamente uma pessoa disciplinada. Some-se a isso certa irreverência, não muita simpatia frente a novidades, e atividades profissionais que exigem de mim muita concentração e solidão. E como gosto de morar só e de ficar só a maior parte do tempo, viajar não é, para mim, uma atividade atraente.

Mas, não obstante todos os meus não poucos defeitos, às vezes eu saio da toca. Quando, por exemplo, viajo para namorar Rogério presencialmente. Também quando viajo por conta de compromissos profissionais. E ainda quando viajo com amigas, absolutamente maravilhosas, que me convocam. Disse convocam, porque nem se trata de convite. Tipo assim, do dia tal ao dia tal, é com a gente. Vais para tal lugar. Então eu vou, é claro. Hora de me desentocar. Desligar a versão cotidiana e passar para o que chamo de o meu modo viagem, alguma coisa que posso sistematizar em quatro mandamentos que compartilho a seguir com os meus leitores.

No modo viagem, meu primeiro mandamento é comer qualquer coisa e dormir em qualquer lugar. Cheia de manias com relação à alimentação, para começar, detesto peixes em geral. Odeio comidas “da moda”. É que eu adoro os pratos que eu mesma preparo para mim e sou extremamente crítica com o que chamo de as porcarias franqueadas cada vez mais onipresentes. Sou chata com comida. Só gosto mesmo é da minha. De modo geral, o que não faz parte do meu cardápio não me interessa. Sou fã da deliciosa comida italiana que eu mesma preparo. Viajando, porém, eu não apenas sou capaz de comer qualquer coisa, mas ainda me atrai provar tudo o que não faz parte do meu cardápio. E até gosto! Nada como tomar água de coco, no coco, olhando para o mar. Os sabores confundem-se com os cenários e ganham até colorido. Não se trata de julgar, mas de experimentar. Além disso, também posso modular meu sono. Consigo relaxar nas longas esperas que eventualmente deva enfrentar e mesmo dormir em outras camas não tão confortáveis quanto a minha.

Meu segundo mandamento ordena só levar comigo itens que representem conforto e simplicidade.  Preparo-me para deixar de lado todas as coisas que fazem parte do meu dia a dia. Tipo usar três toalhas de banho e um roupão, fora todos os shampoos e cremes, dezenas de potinhos que estão em toda parte pelo meu banheiro e pelo meu quarto. Se fosse levar comigo todas as coisas que uso diariamente, precisaria viajar com um séquito de carregadores, bem como naqueles filmes antigos, de aventuras pela África, com elefantes em caravana, carregados de baús de viagem das heroínas. Mas como não é esse o caso, no meu modo viagem, tudo o que preciso cabe em uma bolsa e uma sacola, ou, em vez desta última, em uma mala pequena de rodinhas que, depois de feita, pesa no máximo, sete quilos. Roupas? Ah! Nem pensar em levar comigo tudo aquilo que abarrota minhas gavetas e meus guarda-roupas, sem falar que, como boa centopeia, jamais confessaria o número exato de pares de sapatos que possuo, sem contar as bolsas e os cintos que combinam com eles. Tenho receio de chocar meus pobres leitores. No entanto, acreditem, no modo viagem, as peças das quais preciso são pouquíssimas. Em uma bolsa de bom tamanho mais uma sacola média cabe tudo o que preciso. Na bolsa, itens que me permitem sobreviver até mesmo sem a sacola de viagem. Celular, carregador, documentos e dinheiro reunidos em uma bolsa menor que pode ser levada junto ao corpo.


No nécessaire, só o que for absolutamente indispensável para estar limpa e saudável: higiene pessoal e remédios. Roupas? Só o que for confortável, que não limite movimentos, que não aperte e que não amasse. Roupas com as quais eu possa passar horas sentada sem parecer amarrotada. Optar por itens que apresentam simplicidade e conforto não implica em usar qualquer coisa de qualquer jeito. As melhores roupas são aquelas que têm alguma qualidade e que nos caiam bem, evitando o frio e o calor excessivos. Todas as peças devem combinar entre si. Por incrível que pareça, nisso, eu acho que acerto mais do que a maioria. Minha bagagem é leve, reduzida, mas composta de itens bem escolhidos. Tenho ali tudo de que preciso, incluindo uma câmera fotográfica. Fico assustada só de ver o tamanho da bagagem de pessoas que viajam até mesmo por poucos dias. Pior que não é incomum constatar não serem poucas as mulheres que viajam maquiadas como quem vai a uma festa, de saltos muito altos, às vezes até com roupas reduzidas, que expõem o corpo ao frio do ar condicionado. Não deve ser nada bom sentir dor nos pés e frio, mesmo em viagens de poucas horas. Daí eu sempre optar pelo conforto. Nessas horas, é mais elegante usar tênis, jeans de bom corte, camisa, blazer e um belo lenço. Óculos escuros e, no máximo, batom, permitem até dormir sem acordar com olhos borrados, como quem despertasse em plena manhã de uma quarta-feira de cinzas. Viajar é menos.

O terceiro mandamento é encarar tudo com bom humor e disponibilidade. Particularmente, não sou simpática a nada que altere os meus sagrados hábitos e não costumo estar disponível. Odeio atender telefone. Não gosto de conversar. Odeio gente que fala de gente, que comenta gratuitamente o tempo, se chove ou se não chove, de frios e de calores. Gente que aluga os outros para dar, sem que se lhe peça, a sua opinião sobre isso ou aquilo. Nem precisa. São óbvios. Antes mesmo que abram a boca já se sabe o que dirão. Por conta disso, tenho pouquíssimos amigos. Só gente legal, contudo, todos meio excêntricos, com manias, e mesmo malucos estilo beleza. Nenhum deles muito normal, porque, afinal, se fossem pessoas normais não iam querer me ter como amiga. Passo a maior parte do tempo concentrada em conteúdos de ordem intelectual, reconhecidamente chatos. Assumidamente sou uma pessoa pedante: eu até sei a diferença entre próclise, mesóclise e ênclise. Além disso, sou pouco sociável: o mundo se divide entre os meus poucos e muito queridos amigos e os outros que, em sua maior parte, me irritam ou me entediam, quando não me exasperam.  No modo viagem, contudo, dificilmente me incomodo com os outros. Diria mesmo que, bem ao contrário, a maioria me agrada e me surpreende positivamente, mesmo nas diferenças que podem até me divertir e enternecer. É fácil sorrir para quem não veremos outra vez.

Finalmente o último mandamento que consiste em resumir-se. Não causar, reclamar o menos possível, estar preparada para atrasos, para surpresas, saber esperar, saber aceitar, saber ouvir e entender o que esperam da gente, de preferência a impor nossas regras e hábitos em territórios onde estamos de passagem, como passageiros mesmo. Resumir-se frente a novas perspectivas de mundo e de visão nas quais não somos mais os protagonistas. Nesse contexto, os outros são todos amigos, até porque, ainda que sejam uns chatos, não vamos precisar aturá-los além do necessário. E, sendo assim, sua chatice é perfeitamente contornável. Riso pronto: sempre um bom dia, tarde ou noite. Sempre com licença, por favor e muito obrigada. Ceder lugar, ceder espaço, deixar acontecer e olhar tudo como novidade. Tolerância para com todos.

Eis, enfim, o que eu teria a dizer a quem, como eu, não gosta de sair de casa e é pouco sociável. Não é muita coisa, mas tem dado certo comigo. E agora, após oito dias afastada dos queridos ácaros da minha biblioteca, cá estou eu, de volta para casa, cercada da poeira dos séculos, retornada aos meus velhos hábitos, até que alguma coisa aconteça e eu tenha, outra vez, de deixar para trás o meu pequeno e solitário reino, ligar o modo viagem e passar a ser a passageira provisória, a passante imprevisível.
 


Autor: Maristela Bleggi Tomasini

domingo, 11 de agosto de 2019

Cultura Material


Ressaltando a importância da materialidade dos artefatos do passado, Bezerra de Meneses (1983) define três posturas comumente adotadas pelos historiadores dedicados à Antiguidade. 
A primeira se traduziria pela marginalização da cultura material, que seria ignorada e como que abstraída do universo físico. Nem mesmo Jean-Pierre Vernant, — historiador francês da Grécia Antiga, que aprofundou, entre outros temas, a mitologia — teria fugido a isso, ao desconsiderar matrizes visuais[1], fundamentais no universo das imagens, porque permitiriam o enriquecimento da análise a que se quer proceder, observa Meneses (1983, p. 104), o que pode ser explicitado in verbis:

Assim, no seu estudo do mito (aliás percuciente e, sob muitos aspectos, inovador e de muita densidade), ele utiliza apenas matéria prima literariamente processada; nunca levou em consideração, por exemplo, a possibilidade de matrizes visuais para as narrações míticas . Mesmo num estudo sobre, precisamente, o "nascimento das imagens", o autor reduz a vastíssima problemática das "phantasiai", aparições, aparências, "eidola", imitação e outras categorias, às imagens mentais, com prejuízo para uma análise ainda mais rica (MENESES, 1983, p. 104).

A segunda postura, que considera a mais frequente, consistiria na instrumentalização da informação de matriz arqueológica, vista como complementar à documentação textual. 
A terceira postura seria pautada no uso didático das informações inerentes ao universo material, assinando-lhe o papel de ilustrar o discurso do historiador. Esta última variante, todavia, comportaria resultados positivos sempre que fossem evidenciadas relações de equivalência entre a produção literária e a produção artística. Na cultura material reside um potencial imenso de informações não verbais, mas, nem por isso, menos eloquentes no que concerne aos padrões que podem revelar, porque “a cultura material constitui um código próprio, a ser descriptado (sic) segundo sua natureza e não por redução aos códigos verbais” (1983, p. 117), de sorte que, apesar dos desafios e das perguntas que permanecerão sempre sem respostas, deve-se ao menos procurar correlacionar ao máximo aspectos pertinentes a uma mesma cultura, que é simultaneamente material e não material, não se podendo excluir nenhum desses dois aspectos sem  prejuízo de uma melhor compreensão.

ENTREVISTA com Jean-Pierre Vernant, O Estado de São Paulo – Caderno 2 – 05 ago 2001.
MENESES, U. T. B. de. A Cultura Material no estudo das civilizações antigas. Revista de História (115): 103-117, 1983. 
Imagem: Hades abducting Persephone, wall painting in the small royal tomb at Verghina (Vergina), Macedonia. Fonte: Wikimedia Commons



[1] Jean-Pierre Vernant, a propósito, além de historiador, é referido como antropólogo.  Por ocasião da Entrevista (2001) que concedeu ao jornal O Estado de São Paulo, foi apresentado aos leitores como “o maior helenista vivo”. Nascido em 1914, Vernant é militante político e foi membro ativo da Resistência francesa. Vários de seus livros foram traduzidos para o português. Questionado pelo jornal sobre se concordava com a fórmula comumente sintetizada na expressão “o milagre grego”, Vernant manifesta sua absoluta discordância dessa ideia, que considera a Grécia como berço da razão, do pensar científico e mesmo da filosofia, bem como de outros grandes valores universais. Para Vernant, houve uma série de fenômenos complexos, de natureza cultural e política, ocorridos na passagem da oralidade à escrita, ou seja, da palavra profética, como ainda poética, de Homero e Hesíodo até o discurso lógico de Platão. Simultaneamente a essa passagem, ocorreram fenômenos sociais aí implicados: sucessivas passagens do poder da realeza e dos grupos aristocráticos até a organização da pólis, com a emergência da cidade e da cidadania. O triunfo do logos, na era clássica, não é considerado por Vernant como favorável aos gregos. Sua civilização não seria miraculosa, e os gregos teriam se mantido distantes da realidade física grega, longe da experimentação e da aplicação do cálculo ao real concreto.
Com isso fica claro o ponto de discordância que Meneses enfatiza em seu artigo, quando afirma a abstração do universo físico na obra de Vernant, que teria desconsiderado a importância das matrizes visuais nas narrativas míticas, reduzindo a problemática do nascimento das imagens em prejuízo de uma análise mais rica. Meneses é bastante categórico nesse sentido, quando observa que autores de máxima importância, dentre os quais inclui Jean-Pierre Vernant “por vezes tanto ignoram a realidade física, que descarnam os gregos antigos, quase os transformando em zumbis, que se alimentam de puras estruturas mentais, as quais, por sua vez, dão ser à realidade social, sempre algo estática” (MENESES, 1983, p. 104).


quinta-feira, 25 de julho de 2019

O Rapto das Sabinas

Dentre muitas versões clássicas que ilustram o episódio desse lendário rapto, existe uma satírica, de John Leech (1817-1864), publicada em 1850 da história cômica de Roma de Gilbert Abbott À Beckett.
A ilustração traz por legenda “os romanos saindo com as mulheres sabinas” (À BECKETT, 1850, p. 10).
Fonte: Wikimedia Commons.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Referências em História Antiga



À BECKETT, Gilbert Abbott (1811-1856). The comic history of Rome. Illustrated by John Leech. London: Bradbury, Evans, 1850.

AUGÉ, Paul. Larousse du XXe Siècle, v. 3. Paris: Librairie Larousse, 1930.

AUGÉ, Paul. Rome, Larousse du XXe Siècle, v. 6. Paris: Librairie Larousse, 1933.

BECKER, Idel. Pequena história da civilização ocidental. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1975.

BUSTAMANTE, Regina. A festa das Lemuria: os mortos e a religiosidade na Roma Antiga. XXVI Simpósio Nacional da ANPUH. Org: FERREIRA, Marieta de Moraes, ISBN: 978-85-98711-08-9, Edição nº.1, SP, 2011

CARVALHO, Margarida Maria de; FUNARI, Pedro Paulo A.. Os avanços da História Antiga no Brasil: algumas ponderações. História,  Franca ,  v. 26, n. 1, p. 14-19,    2007 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742007000100002&lng=en&nrm=iso>. access on  22  July  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-90742007000100002.

COMMELIN, P.. Nova Mythologia Grega e Romana. Trad. Thomaz Lopes. Rio de Janeiro: Garnier, 19__.

DEFRASNE, Jean. Récits tirés de l’histoire de Rome. Paris: Fernand Nathan, Éditeur, 1954.

FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2002.

GAUTHIER-DESCHAMPS. Leçons complètes d'histoire histoire ancienne, histoire de france, histoire générale. Paris: Hachette, 1926.

GOMES, António Ferreira – Saudação. Lusitania Sacra. Lisboa. ISSN 0076-1508. 1 (1956) 7-15. Disponível em: < https://repositorio.ucp.pt/handle/10400.14/4965 >. Acesso em: 12/07/2019.

 GROTE, George. Histoire de la Grèce depuis les temps les plus reculès jusq’a la fin de la génération contemporaine d’Alexandre le Grand, v. I. Trad. A.-L. Sadous. Paris: A. Lacroix, Verboeckhoven et Cia, 1864

GUARINELLO, Norberto Luiz. História Antiga. São Paulo: Contexto: 2013.

LE GOFF. História e Memória. São Paulo: Unicamp, 2003.

LUDWIG, Emil. Schliemann história de um buscador de ouro. Trad. E. Marques Guimarâes. Porto Alegre: Editora da Livraria do Globro, 1940.

MARCHI, E. C. S. V. Aspectos de direito público romano: as Constituições políticas da realeza e da República. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, v. 100, p. 3-19, 1 jan. 2005.

MENESES, U. T. B. de. A Cultura Material no estudo das civilizações antigas. Revista de História (115): 103-117, 1983.

MONTANELLI, Indro. História de Roma. Trad. Luiz de Moura Barbosa. São Paulo: Ibrasa, 1961.

MOREIRA ALVES, José Carlos. Direito Romano. Rio de Janeiro: Borsoi, 1965.

PROST, Antoine. Douze leçons de l’histoire. Paris: Seuil, 1996.

RUCH, Gastão. História Geral da Civilização, I parte, Oriente, Grécia, Roma. Rio de Janeiro: F. Briguiet & Cia, Editores, 1926.

SANTOS, Dominique. Apresentação. Revista de Teoria da História, Ano 7, Número 13, Abril/2015 Universidade Federal de Goiás ISSN: 2175-5892, 7-16, 7-16. Disponível em: <https://www.revistas.ufg.br/teoria/issue/view/1580>. Acesso em 12/07/2019.

VIEIRA, Antônio. Sermões e Lugares Selectos. Bosquejos histórico-literários, selecção, notas e índices remissivos, por Mário Gonçalves Viana. Porto: Ed. Educação Nacional, 1939, p. 237.