sábado, 24 de novembro de 2018

Um problema de pesquisa

“A philosophia da historia d’um povo qualquer é o mais temeroso problema que possa occupar a intelligencia humana. São conhecidas as difficuldades quasi insuperáveis dos estudos sociologicos. Uma theoria da evolução histórica do Brasil deveria elucidar entre nós a acção do meio physico, por todas as suas faces, com factos positivos e não por simples phrases feitas; estudar as qualidades etimológicas das raças que nos constituiram ; consignar as condições biológicas e económicas em que se acharam os povos para aqui immígrados nos primeiros tempos da conquista ; determinar quaes os hábitos antigos que se estiolaram por inúteis e irrealisaveis, como orgãos atrophiados por falta de funcção ; acompanhar 0 advento das populações cruzadas e suas predisposições ; descobrir assim as qualidades e tendências recentes que foram despertando ; descrever os novos incentivos de psychologia nacional que se iniciaram no organismo social e determinaram-lhe a marcha futura. De todas as theorias propostas a de Spencer é a que mais se aproxima do alvo por mais lacunosa
que ainda seja
ROMÉRO, Sylvio. Historia da litteratura brasileira. 2ª edição, tomo I. Rio de Janeiro: Garnier, 1902, p. 21.
Imagem: Silvio Romero. Fonte: Wikimedia Commons

sábado, 17 de novembro de 2018

Imprensa como fonte


A utilização de fontes produzidas pela imprensa ― revistas e jornais, dentre outras ― tem como regra a prévia análise da linha editorial. O que orienta os temas daquela determinada publicação que se pretende usar? É possível descobrir ali uma estética editorial? Caso positivo, o que ela nos informa ou quer significar como visão de mundo ali refletida? Considere-se ainda que qualquer publicação impressa se dirige a um público determinado: um sujeito leitor. Esse conjunto de fatores nos fornece as condições de produção daquele material, algo que pode revelar tendências ditadas pelos interesses ali implicados e seu maior ou menor poder de influência. Tais tendências, se e quando corretamente identificadas, podem mesmo ultrapassar em importância os fatos registrados. Há um ideário que atravessa a produção impressa. Ele se mostra tão segmentado quanto os sujeitos leitores, que podem manter pertinências entre eles, interesses comuns. O resultado desse ideário é o aparelhamento da informação que se relativiza. O historiador, se souber ficar atento a essa relativização, colhe dela mais do que o fato revelado, podendo alcançar o próprio interesse ali implicado.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Identidade


Identidade é um tema moderno, na medida em que traduz um conceito ora pertinente à psicologia, ora à sociologia, ora à antropologia, tema que envolve questionamentos acerca das condições em que se produz. Sua atualidade, todavia, não significa que a questão da identidade não tenha sido colocada anteriormente no que concerne à posição da pessoa no meio social, do “eu” ― que se parece consigo ao mesmo tempo em que se diferencia dos outros ―, enfim, a identidade vai propiciar a construção do eu e da noção de pessoa, noção bastante antiga, como acentuou Marcel Mauss (1938), constatando-se o que ele chamou de sobrevivências disso, “ainda vivas e proliferantes”, segundo nos atesta a etnografia. MAUSS, Marcel. Une catégorie de l’esprit humain : la notion de personne celle de “moi”. Article originalement publié dans Journal of the Royal Anthropological Institute, vol. LXVIII, 1938, Londres (Huxley Memorial Lecture, 1938). Disponível em: <http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/index.html>.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

REVISTA VIDA BRASIL

A morte do homem moderno

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

É em vão que se busca o homem moderno. Ele morreu ao final do último século.De pagão na Antiguidade a obediente filho de Deus no Medievo, ele deu ouvidos um dia ao discurso de Descartes. Aos poucos, descobriu a razão, e assimilou um método que mudaria a face do mundo. Fez-se revolucionário ao depois, porque desconfiou do poder, desejou a liberdade e a igualdade.Modernizou-se, enfim. Mudou a face do mundo e a sua própria. A luz divina substituiu-se pela luz da razão e pela força da vontade.

A morte do homem moderno


O sobrenatural cedeu lugar ao natural. A natureza humana assumiu novo estatuto, inerente à ordem da vida, todavia, com plena consciência de ter consciência disso, capaz de abstrair e de valorar, capaz de dominar uma linguagem não apenas descritiva como ainda simbólica.
Por três séculos o homem construiu a modernidade.
Pouca coisa?
Não. Muita. Grande passo para uma humanidade que, por longo tempo, aceitou passivamente a tutela, se não de um deus, a de seus representantes divinos. A esse deus e seus representantes é que se deve o arcabouço de valores tradicionais que a razão, todavia, não desacreditou: antes os secularizou, esvaziando-os de sua antiga dimensão transcendente. Tais valores pretendiam representar uma ordem que se opunha ao caos, com a mesma polaridade com que o bem se oporia ao mal. Uma antítese, enfim. Porém sem a beleza daquela que o paganismo sacralizara com Apolo e Dionísio, divindades antes complementares que opostas. Velha antítese conservada em seu diapasão pragmático, que o medievo consagrou com acentuada polaridade, quando separou deus do diabo. Ordem contraposta à desordem, luz contraposta à escuridão. Eis que o bem e o mal viriam a protagonizar, por longo tempo, a divina comédia da existência. O poder temporal, visceralmente unido ao poder espiritual, é imposto em face dos homens como porta-voz do bem maior ao qual opor-se era anátema. O cristianismo, que herda do judaísmo seu fundamento teológico e arcabouço normativo, se sobrepõe ao paganismo. Não se negue, porém, o devido tributo a esse passado medieval que conferiu ao homem uma alma imortal e uma salvação individual: o ser é singular e as coletividades, por consequência, são aparentes e transitórias.
Refém de forças guerreiras, até então fantoche do destino, o homem moderno finalmente encontrou, na razão, ainda que tênue, o fio condutor que livremente escolheu para conduzir seu destino. Reaprendeu-se como homem. Redimensionou-se no mundo e na história, política e filosoficamente, ao longo de três séculos, descobrindo a si mesmo e à realidade, esfinge à qual ele interroga em lugar de a ela conformar-se.  Individualista, sim; todavia, à medida que se desprende de velhas pertinências comunitárias, o homem moderno é também massa, quando se espelha e se identifica com os grandes movimentos que vão emergir na história. Em pleno século XIX, ele substitui a fé em deus pela fé na ciência, ― geral e totalizadora também ela ―, e toma a racionalidade como guia superior, único capaz de lhe fornecer um modelo de mundo, cuja rigidez, pressuposta por convicção moral, desconfia da diversidade, elemento visto como ameaçador ao ideal de unidade histórica: um passado que explicasse o presente e preparasse o futuro. Nesse contexto, as singularidades individuais arriscam contaminar corpus fechados de ideias, o que explicaria a tendência a um pensamento único que só se acentuará ao longo do tempo.
A modernidade racional não era, enfim, sem paradoxos. E de tanto duvidar daquilo que os sentidos lhe entregavam, o homem moderno, talvez por força do próprio método que tanto lhe rendera em termos de ordem e de progresso, começou a duvidar da razão. Como resultado disso, a verdade, enfim, sucumbiu, descoberta não em sua nudez, mas em sua absoluta superficialidade. Porque se o homem moderno pretendeu a verdade, o homem pós-moderno prescinde dela.  A verdade banaliza-se: cada um tem a sua, e nenhuma prevalece sobre a outra. Isso não é sem consequência, porque tal sorte de ruptura se estende à história. Passado, presente e futuro coexistem no aqui e agora, eternamente.

Para onde foi o homem moderno que se movia pelo mundo impulsionado pela vontade dirigida pela razão? Que punha sua fé no progresso, que ora a técnica, ora a ciência lhe trariam, graças a Deus. Cada vez menos visível, ele talvez ainda se esforce para protagonizar, ao menos, aqui e ali, os valores tradicionais dos quais se acredita herdeiro. Pouco a pouco, o dono de si sucumbe aos mecanismos de dominação, que falseiam a liberdade substituindo-a por um ideal meramente formal. Neste processo, entre a coletivização comunista e a capitalização dos desejos que cria cada vez mais e maiores necessidades, direitos são proclamados à revelia da possibilidade de seu pleno exercício. Cada vez mais as gerações se deparam com mundos profundamente diferentes daqueles que habitaram seus pais. O passado é desqualificado na medida em que a existência se acelera, de sorte que a felicidade se aproxima cada vez mais da angústia, ambas despontando, porém, espetacularmente. Porque efêmero, virtualmente efêmero, é o caráter de tudo quanto hoje nos cerca.
Decepcionado pelas ideologias mobilizadoras, liberais, sociais ou nacionais que trouxeram guerras e massacres com vistas a um universalismo utópico, homem moderno assistiu a modernidade esvaziar-se de sentidos, mesmo daqueles que só a linguagem pode conferir ao mundo, por vezes tão ricamente, aliás. É que mesmo a linguagem mais nobre foi assimilada àquela dos anúncios publicitários. Mediocrizou-se. Homens e produtos disputam o mercado, cada vez mais violentamente, obedientes ao coro formado pelas vozes de multidões anônimas, ora pacíficas, ora hostis, ao sabor de suas inclinações momentâneas.
Até que a vontade do homem se tornasse a vontade do nada.


Nihil, o nada que dissolve a subjetividade, núcleo do indivíduo que agora se descobre, contudo, múltiplo, projetado nas facetas multiplicadoras das redes. No nada imagético, espelho narcísico, apaixona-se por um eu que não é senão eco de frases feitas. Descobre-se prosélito de uma religião cujo corpo doutrinal foi substituído por slogans. Ele discursa, ele grita, ele vocifera ora Paz, ora Justiça, podendo escolher, ― #malmequer, #bem-me-quer ― a cada manhã, uma nova causa pela qual lutar no evento que terá lugar logo mais. As regras devem ceder diante das exceções. O denuncismo substituiu-se à capacidade crítica. Nada mais se debate, e os espíritos empobrecem. A liberdade de escolha resta profundamente comprometida. É no nada que este homem pós-moderno deposita sua liberdade. Pensa-se múltiplo, quando não está senão dividido, dissolvido na massa, nos movimentos, morto em sua subjetividade à qual renúncia, hipnotizado por paradigmas estéticos e culturais fragmentados, onde é possível acreditar um pseudo passado e pseudo futuro, velho sonho das bruxas que o medievo estigmatizara no caos que se opunha à Ordem Divina.
Releio-me. Constato não sem surpresa o quanto minha própria percepção das coisas precisa fragmentar-se, ela também, para melhor descrever o que percebo à minha volta. E ocorre-me o quanto de nostalgia encontro em minhas palavras, fruto contagioso talvez dos sonhos vislumbrados no olhar de alguns dos que me cercam. Desejaríamos ressuscitar o homem moderno, cuja carne já se desprende dos ossos? Mac Benac! Para tanto seria preciso recriar ou despertar alguém ingenuamente capaz de acreditar em verdades universais. Fugindo às decepções e aos desenganos, ele escolhe sonhar com um destino inspirado em ideais da fé, espelho divino da Lei e da Ordem. Seus sentidosdespertam, ao som mágico da flauta que o encanta. O futuro, do fundo do abismo, lhe sorri aqui e agora, reflexo insólito da ilusão que encarna a Esperança, brilhando escondida entre todos os males do mundo.


Autor: Maristela Bleggi Tomasini

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Hora de Despertar

Já não é hora de despertar alguns livros que dormem por aí nas estantes? Com exceção das minhas onde estão bem despertos. 
É que reina silêncio sobre muitos autores que só são examinados em função do descrédito no qual caíram, efeito fatal de que dificilmente escapa qualquer pensamento colocado por escrito.
Porque em lugar de se pensarem tantas novas teorias, talvez o exame de velhas propostas, não obstante o bolor que contenham, nos esclareça mais acerca de nosso presente do que eventualmente retratem ou expliquem o passado ao qual supostamente pertencem. Em que pese objetiva, toda datação é uma artificialidade. A medida do tempo importa apenas aos homens e, no campo dos saberes históricos, a subjetividade prevalece.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Como surgiu a expressão "Psicologia Coletiva"?


             Dentre os que procuraram estudar a psicologia coletiva, parti de quem a teria nomeado e definido como elo entre a psicologia, voltada ao estudo do indivíduo, e a sociologia, voltada ao estudo da sociedade. Trata-se de Enrico Ferri (1856-1929). Detalhe: a nomeação e a definição de psicologia coletiva constam da segunda edição de uma obra voltada ao Direito, e ao Direito Penal, mais especificamente ainda ao processo penal: I nuovi orizzonti del Diritto e della Procedura penale (Nicola Zanichelli, 1884). Só posteriormente, em nova edição publicada na França, esta mesma obra aparece com o título: La Sociologie Criminelle (1914).
            A nota da edição francesa destaca que as atividades manifestadas por um grupo de homens não se confundem com as atividades manifestadas por uma sociedade inteira. Isso sugeria, para Ferri, que poderia haver um elo entre a psicologia e a sociologia, elo que ele batiza como psicologia coletiva, voltada ao estudo de grupos de indivíduos que podem se apresentar reunidos em caráter acidental ou permanente. O campo de observação da psicologia coletiva, para Ferri, estaria voltado àquelas reuniões de caráter mais ou menos adventício, que ele mesmo exemplifica, citando vias públicas, marchas, bolsas, oficinas, teatros, comícios, assembleias, colégios, escolas, casernas, prisões, etc.
     Este batismo da psicologia coletiva é reivindicado pelo próprio Ferri em correspondência que manteve com Scípio Sighele (1868-1913), correspondência esta publicada na França, em 1901, na obra, tornada clássica, intitulada La foule criminelle. Essai de psychologie collective. Possível também a conferência in loco desta reivindicação: "A psicologia coletiva, – como eu a batizei desde a 2ª edição de Nuovi orizzonti, – recebeu uma organização muito vigorosa pelos estudos geniais, e com justiça louvados, de meu muito querido amigo Sighele" (SIGUELE, 1901, p. 177).
Portanto, seguindo estas pistas deixadas por quem reivindica ter sido o primeiro a nomear esse “elo”, temos que Ferri não a chamou de ciência, talvez porque ainda não tivesse suas leis adequadamente identificadas e estabelecidas. Emprego esse mesmo termo leis, porque era uma expressão comum utilizada pelos praticantes das ciências que exibiam então, no XIX, seu caráter experimental em oposição ao metafísico do qual era preciso afastar-se nesses tempos de fin de siècle.
 
  A propósito desse quem é quem da psicologia coletiva, destaco a importância de dois autores italianos, Ferri e Sighele, e não há como deixar de citar também um autor francês que não mereceu, da parte de Sighele, a mesma menção gratidão que este último debitou a Gabriel Tarde (1843-1904) e a Victor Cherbuliez (1829-1899). É que no prefácio de La foule criminelle. Essai de psychologie collective, tais autores foram identificados como aqueles que “longa e lealmente” teriam discutido a teoria de Sighele. Gustave Le Bon é citado e Sighele reconhece sua importância, não obstante deixe claro tratar-se de um autor que teria feito uso de suas observações sem citá-lo, todavia. E diz mais: que não havia ironia nesse agradecimento, porque a adoção de suas ideias sem qualquer menção a sua pessoa seria “o gênero de elogio menos suspeito que nos pode ser endereçado”.
De qualquer sorte, os trabalhos de Gustave Le Bon (1841-1831), mormente sobre a psicologia das multidões, tiveram grande repercussão, talvez porque sua linguagem bem como a clareza com que posicionava do ponto de vista social e político permitisse ampla popularização de suas ideias. Na mesma esteira, embora mais tarde e fora do eixo Itália e França, Ortega y Gasset (1883-1955) com sua La rebelión de lãs masas (1930) pode e deve ser lembrado, especialmente pelo fato de contribuir para a popularização dessas ideais, na linha da temibilidade das multidões e das massas, conceito que adquiria cada vez mais consistência.


domingo, 21 de outubro de 2018

Novas perspectivas

Abordar campos do saber inovadores que, por sua própria natureza, possuem efeito deletério sobre muitos ícones culturais tidos por imutáveis, permanentes, mesmo eternos, não é sem certa inquietação. Acostumados à zona de conforto propiciada pela estabilidade que conferimos às coisas, pensar o mundo a partir do que ele apresenta de essencial em sua concretude requer, sim, uma disposição especial de espírito. Além disso, as ditas fronteiras mantidas entre as disciplinas acabam por gerar apropriações de termos que terminam por não significar mais nada além de meras palavras ou expressões. Presos a uma codificação rígida, congelam, e esta mesma rigidez termina por inviabilizar o pensamento, sobretudo, o pensamento criativo, que reclama liberdade e flexibilidade.
O terreno artístico é fecundo e comporta ousadias.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Como assim, humanidade?

O estatuto biológico é insuficiente para conferir humanidade. Tampouco a Criação, a condição de obra que porventura refletisse imagem e semelhança de um Criador. Nosso tempo é aquele que condiciona nossa humanidade a um aval político, porque ela é mera concessão, um favor que nos é conferido ou negado pelo Estado.

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