Espaço inicialmente reservado a produções relacionadas ao meu Mestrado em Memória Social e Bens Culturais, Lasalle, concluído em 2012. Depois, em boa parte, direcionado a pesquisas vinculadas ao meu Doutorado em História Social, USP, concluído em 2017 e, por fim, ao meu pós-doc em Psicologia Social junto à UERJ, concluído em 2023. Além disso, contempla temas como memória, história, arquivos pessoais, cotidiano, arte, fotografia e outros saberes.
sábado, 11 de maio de 2019
domingo, 5 de maio de 2019
Bergson no índex
Fonte: Archives d'anthropologie criminelle, de médecine légale et de psychologie normale et pathologique, 1914, p. 559.
Bom lembrar
“Os historiadores, em geral, fazem história sem levar em conta esses grandes furacões de imitação fervorosa que, de tempos em tempos, se erguem inevitavelmente e rompem ou deformam todos os costumes à sua passagem. Seria o mesmo que tentar fazer meteorologia sem falar dos ventos.”
Gabriel Tarde
Gabriel Tarde
A propósito
Logo após a morte de Gabriel Tarde,
em 13 de maio de 1904, Henry de Varigny (1904, julho 20, p. 3) publica no Le Temps artigo intitulado Les bases de la Sociologie d’aprés Tarde, no
qual estimava não ser tarde demais para falar daquele que qualifica como
engenhoso filósofo e homem galante, o “sábio gascão que se servia de sua
palavra e de sua pluma . . . para prestar serviço à psicologia e à sociologia
simultaneamente” (id., ibid.). Ele teria feito ver que a psicologia coletiva,
na ordem sociológica, inseria suas bases na psicologia, eliminando assim a
noção de entidades sociológicas que o
articulista tem por místicas, fazendo menção, a propósito, à participação de
Tarde na Conferénse sur
l’inter-psychologie, 1903, ocasião em chamara a atenção de todos sobre “a
necessidade de estudar a interpsicologia, a ação psicológica de um homem sobre
outro homem” Id., ibid.).
Referência:
Varigny, H. (1904, julho 20). Les bases de la Sociologie d’aprés Tarde. Le Temps, ano 44, n. 15.738, Paris.
quinta-feira, 2 de maio de 2019
Coisas da cidade
sexta-feira, 19 de abril de 2019
A Fascinação do crime
Sob o título provocante de La
fascination du crime: la jeunesse est pourri, a
edição dominical do extremista e provocador Le
Matin publica uma entrevista realizada com Scipio Sighele (1908, maio 5),
então de passagem por Paris para o lançamento de sua Littérature et criminalitté. O entrevistado começa por expor
preliminarmente que ainda havia quem se espantasse com o fascínio que o público
dedicava às narrativas criminais, delas buscando detalhes nos jornais com
mórbida curiosidade dia a dia crescente. “Todavia — adverte o entrevistado —,
um observador calmo e sincero da psicologia coletiva não partilha dessa opinião,
que se pretende moral, mas que é apenas ingênua” (id., ibid.). Para Sighele,
seria já conhecida a atração que a alma humana experimentava quando diante do
que chamou de o espetáculo do mal e por tudo aquilo que havia nisso de terrível
e de perverso, muito mais do que se mostrava atraída pelo que havia de simples
e honesto no mundo, confirmando a lenda bíblica segundo a qual os frutos da
árvore do mal seriam bem mais saborosos que aqueles da árvore do bem. E mesmo a
história pouco se deteria sobre as pessoas obscuramente calmas, tranquilas,
admiradas em silêncio talvez, mas não sem “esta leve tinta de ironia com a qual
se observa no mundo aquilo que é simples, normal e são” (id., ibid.). Porque —
explica —, a monotonia dessas figuras prosaicas não provocava nossa imaginação,
em busca de figuras mais ousadas, mais singulares, audazes, que provocassem
“por seu renome, a inveja; ou, por sua audácia, o frisson do medo; ou, por sua
perversidade, o espasmo do horror” (id., ibid.). Não se deveria, contudo,
deplorar esse fenômeno, mas antes estudá-lo, — recomenda —, buscando aí uma
razão nem mórbida nem vulgar para esse prestígio do mal, para esse apaixonado
interesse, ávido de detalhes, que despertam as narrativas criminais. Sighele aí
encontra um sentimento inconfessado que se teria ao estudar os crimes, porque
nestes estudaríamos a nós mesmos, tudo porque os crimes iluminariam a alma de
cada época, refletindo a vida e os costumes vigentes, como “símbolo patológico
de tudo aquilo que hurra no fundo de nosso coração, de tudo aquilo que freme
nas células de nosso cérebro” (id., ibid.). Bastaria, para convencer-se,
comparar a criminalidade antiga com a moderna para encontrar, nos culpados de
cada tempo, as influências de cada época manifestas na própria infâmia de seus
crimes. Assim, — explica —, as civilizações primitivas baseadas na força
comportavam crimes violentos; as que se desenvolviam na base da astúcia
estimulavam os embustes; as que se erguiam sobre o domínio econômico, sobre o
poder do dinheiro, desenvolveriam uma criminalidade antes cerebral que
muscular, procedendo “por meios insidiosos e obscuros: o roubo, a fraude e a
falsidade” (id., ibid). De modo que não seriam apenas os meios materiais que
mudariam com a criminalidade no tempo: mudaria também sua orientação moral. As
tintas religiosas que coloriam os delitos medievais cometidos sob o terror
inspirado pelo além, revelavam tendências criminais de desequilibrados e
loucos. Disso, porém, não se deveria concluir, — “como ousaria pretender algum
míope reacionário” (id. ibid.) —, pela responsabilidade da teologia ou da
Igreja. Antes seria mister constatar que “por um fenômeno natural e universal
de mimetismo, o crime conforma-se às diferentes épocas e às diferentes atitudes
do pensamento humano e sofre a influência das condições do meio histórico”
(id., ibid.). Feitas tais observações, Sighele se propôs a responder à pergunta
do Le Matin, que consistia em saber
qual era, naqueles dias, a característica mais evidente da criminalidade. Ele
respondeu que vinha a ser, para ele, não apenas na França como também em todo o
mundo tido por civilizado, o enorme e inacreditável aumento da delinquência de
menores, verdadeiro exército criminal composto de crianças com menos de dezoito
ou de vinte anos que aumentava dia a dia naquele início de século. Afirmou: “É
a juventude que está doente! É a juventude que apodrece! É essa doença que se
apodera de nossas crianças e que não se manifesta apenas no crime, mas também
no suicídio” (id., ibid). A última colocação se explicaria pelo incremento do
suicídio infantil, quando aos quinze, aos dez, e mesmo aos seis anos essa
prática crescente denunciava o indelével sofrimento daquelas almas levadas a
uma ação fatal. Sighele coloca não lhe ser possível, em um artigo de jornal,
examinar detidamente as causas desse fenômeno. A mais importante delas,
contudo, seria o fato de as crianças entrarem muito cedo na vida, vivendo como
adultos, desde logo experimentando o que chamou de contragolpes do destino,
experimentando preocupações de deveriam ignorar. Tudo enfim —, diz —, lhe
parecia abreviar-se no mundo físico e no mundo moral, de sorte que a própria
infância abreviava-se também debaixo da que seria a nossa lei soberana: a
pressa. Abolir o máximo possível e no que possível fosse “esses antigos
obstáculos que se chamam tempo e espaço, eis o objetivo rumo ao qual corremos
vertiginosamente, eis o ideal do qual nos orgulhamos” (id., ibid). E completa
dizendo que estaríamos “a caminho de abolir ou, no mínimo, castrar a infância”
(id., ibid). E assim como os adultos estariam ficando velhos antes do tempo,
também as crianças estariam se tornando homens cedo demais: impulsionadas por
sensações superiores à sua idade, “faziam-se homens pelos desejos e pelas
paixões, não pela força e pela constância” (id., ibid). Tal a antinomia que,
para Sighele, afetava a alma infantil, predispondo-a ao suicídio e ao crime em
um século, — afirma — onde não se teria mais tempo de ser jovem.
Referência: Sighele, S. (1908, maio 5). La fascination du crime: la
jeunesse est pourri . Le Matin :
derniers télégrammes de la nuit, ano 25, n. 8860, Paris, capa.
Imagem: BNF
domingo, 7 de abril de 2019
Morte de Scipio Sighele
Na sessão reservada às notícias
internacionais, ao subtítulo de Italie, o conservador Journal des débats politiques et littéraires dedica espaço à Mort de M. Scipio Sighele (1913, outubro 24), apresentado como
sociólogo e professor que morrera em Florença, aos 45 anos. Nascido no
Trentino, ele passara sua juventude em Milão, onde seu pai desempenhava a
função de Procurador Geral do Rei. Sua primeira obra fora La foule criminelle, sob o patrocínio
de Cesare Lombroso, obra que, junto a alguns ensaios publicados no Mondo criminale italiano firmaram-lhe a reputação de
psicólogo e de escritor. Seguiram-se ainda, entre outras, La copia criminalle, L’Inteligence de la foule,
La complicité. Sighele foi um fervoroso adepto do nacionalismo, movimento que surge na
Itália e que cresce com a guerra na África. Hostil à Áustria, chegou a ser
proibido de ingressar no território daquele país. Em Florença, para onde fora
por razões de saúde, a morte imprevista o surpreende. A notícia é finalizada
com uma carta de Sighele, escrita de Turim, que teria chegado ao jornal no dia
22 de outubro, — a morte de Sighele é dada como ocorrida em 21 de junho de 1913
—, sob o título de “O irredentismo no Trentino”. Para uma melhor compreensão do
homem que foi Scipio Sighele no contexto de uma criminologia nascente, sem
falar em sua relevante, senão mesmo a mais fundamental, contribuição para com o
nascimento da psicologia coletiva, a carta acima mencionada é traduzida na
íntegra, tal como publicada no Journal des
débats politiques et littéraires.
Ainda que estejam quase completamente
absorvidos pelas eleições gerais, os jornais italianos de todos os partidos não
negligenciam em registrar o dia a dia dos fatos que se desenrolam no Trentino e
as perseguições das quais os elementos italianos são objeto. Esses fatos
confirmam, aliás, os resultados e as previsões das pesquisas realizadas no
local pelos enviados especiais de dois grandes jornais sempre desejosos de ver
um bom acordo reinar entre as duas nações aliadas, o Corrieri della Sera e o Stampa,
pesquisas que demonstram claramente que se tratava, da parte da Áustria, da
realização de todo um projeto de desnacionalização. Os exemplares desses
jornais foram sucessivamente sequestrados em território austríaco, da mesma
forma que os jornais italianos que continham artigos que as autoridades do
Tirol julgassem de natureza a excitar a opinião pública.
Enquanto quase não fala mais a
respeito dos famosos decretos de Holenhole que permanecem intactos como se
deveria esperar, notícias de Trento anunciam que reuniões populares tiveram
lugar ontem e anteontem em toda a região do Trentino a propósito da eterna
questão de uma universidade italiana na Áustria. Os diversos oradores pediram
que Trieste fosse escolhida como sede da futura universidade. A agitação tende
a estender-se. Ela terá, por certo, algumas repercussões na península.
Referência: Mort de
Scipio Sighele (1913, outubro 24). Journal des débats politiques et
littéraires, ano 126, n. 295,
Paris, p. 2.
sexta-feira, 5 de abril de 2019
terça-feira, 2 de abril de 2019
Carta de Henri Bergson a Gustave Le Bon
Leon Dauded (1923, setembro 14), na época em que era
diretor político do nacionalista e antirrepublicano L'Action française, que circulou de 1906 a 1944, publicou
um virulento artigo onde acusou Henri Bergson de parvoíce, utilizando-se de uma
carta que este último escrevera a Gustave Le Bon, a propósito da obra Le déséquilibre du monde publicada
naquele mesmo ano. Na carta, Bergson, embora questione o pessimismo de Le Bon,
reconhece a considerável contribuição que ele teria aportado na fundação da
psicologia coletiva.
Eis o documento traduzido na íntegra:
Escrevo-vos para dizer com que
interesse li “O desequilíbrio do mundo”. O livro não é encorajador, ah, não!
Não se poderia traçar um quadro mais impressionante das dificuldades da hora
presente e da aparente impotência dos homens para superá-las. Não se poderia,
não mais, mostrar com mais força a principal causa dessa impotência, que é o
desconhecimento das condições materiais e morais da vida dos povos. O amanhã
será bom, com efeito, para a psicologia coletiva, esta ciência para a qual
tanto haveis contribuído para fundar. Resta saber se vós não levastes o
pessimismo um pouco longe. Na raiz de vossa argumentação, eu creio perceber a
ideia de que a humanidade não muda, de que os esforços que ela parece fazer há
alguns anos para se modificar, para se “racionalizar” estão condenados à impotência:
sois severo, por exemplo, para com a Sociedade das Nações. Estimo, aliás, como
vós, que a humanidade não mudou até aqui senão bem pouco e muito lentamente.
Mas quem sabe um grande esforço de vontade realizado em condições materiais
inteiramente novas não daria resultados muito mais rápidos e consideráveis!
Limito-me a colocar a questão. Não gastamos muito tempo lendo-vos, porque vosso
livro (e este é o maior elogio que se pode fazer a um livro) obriga o leitor a
pensar.
Deixai-me, caro amigo, endereçar-vos
meus cumprimentos, com a expressão de meus sentimentos afetuosos.
Henri Bergson
da Academia Francesa
Referência:
Bergson, H. (1923, setembro 14). Carta a Gustave Le Bon. In: Dauded, L. (1923,
setembro 14). La nouvelle ídolo: Bergson-Nigaudinos. L'Action française : organe du nationalisme integral, ano 16, n.
256, Paris: capa.
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A Psicologia Coletiva como resposta ao problema da criminalidade das multidões: uma perspectiva histórica,
Gustave Le Bon,
Henri Bergson
A preguiça e a lei do menor esforço
Nota: O Journal des débats politiques et littéraires , fundado por Baudouin em 1789, ocupava-se
dos debates da Assembleia nacional. Dez anos depois, com os irmãos Bertin,
torna-se o Journal de l'Empire, mas reencontra seu nome depois. Conservador,
caracterizou-se pela qualidade da redação e pela diversidade de temas que iam
da política à literatura. Circulou até 1944. (Fonte: Galliga, BNF).
Fonte: Bordeau, J. (1914, janeiro 24). Revue Philosophique. La paresse et le moindre effort, Journal des débats politiques et littéraires, ano 126, n. 23, Paris, capa-2.
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